SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Após duas décadas ocupado por famílias sem-teto, o Edifício Peixoto Gomide, nos Jardins, área de alto padrão de São Paulo, passou por reintegração de posse na manhã desta quarta-feira. Segundo o proprietário da maior parte dos apartamentos, o objetivo agora é reformar o prédio e alugar as unidades, em vez de demolí-lo.

As 33 famílias que compartilhavam cômodos em condições precárias no edifício art-déco, construído na década de 1950, localizado no cruzamento entre as ruas Oscar Freire e Peixoto Gomide, já haviam começado a deixar o local desde a autorização da Justiça para a reintegração, em abril. Na noite desta terça-feira (5), nenhuma delas ocupava o prédio.

Elas foram para outras ocupações ou casas de familiares, segundo representantes do Centro Gaspar Garcia, designado pelo Ministério Público para acompanhar o caso.

Em nota, a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) informou que o auxílio-aluguel é pago regularmente às famílias e que os moradores utilizam a rede socioassistencial, com acesso ao CRAS Pinheiros. Além disso, afirma que estão inseridos em políticas públicas como programas de transferência de renda e atendimento educacional às crianças.

Para o centro de direitos humanos, é impossível encontrar qualquer imóvel no valor de R$ 400 fornecido.

Por volta de 6h, a Polícia Militar realizou a inspeção no local e constatou que todos os pertences foram retirados. O prédio agora passará por limpeza e terá os acessos fechados.

Álvaro Moreira, um dos donos da Santa Alice, 87, construtora que detém sete das nove unidades do edifício, acompanhava a ação no prédio nesta quarta e disse à reporagem que descartou a demolição e deve focar em uma reforma para que os apartamentos sejam alugados.

"Ele vai voltar a funcionar como residencial", disse Moreira. Ela ainda destacou que deve reformar os apartamentos que pertencem à Santa Alice. "Do outro, eles que façam", acrescentou, referindo-se às duas unidades de proprietários que não estavam presentes.

A história do Peixoto Gomide não é como a de tantos outros prédios de São Paulo, invadidos após ficarem anos abandonados. Segundo a própria Justiça, a ocupação do edifício foi incentivada pelo proprietário majoritário, em meio a uma guerra judicial ?no processo, a Santa Alice nega a acusação e diz que o prédio "foi há algum tempo invadido por moradores de rua, enquanto seu titular desenvolvia projetos fora do Estado".

A construtora ainda afirma que teve 20 anos de prejuízo e é autora de uma das ações de reintegração de posse.

Há 26 anos, a Santa Alice começou a comprar os apartamentos com objetivo de demolir a edificação e, no lugar, erguer um prédio de luxo. O projeto, contudo, foi travado pela recusa de dois proprietários em vender seus apartamentos: psicóloga Mathilde Neder e o empresário Ricardo Thomé.

Thomé afirmou à Folha que vendeu sua unidade há dez anos, mas não para a Santa Alice, e preferiu manter o nome do comprador em sigilo.

Já uma pessoa próxima à Mathilde confirmou que a construtora continua em contato para tentar comprar a unidade que pertence à ela, mas o preço estaria muito abaixo do esperado.

Diante do impasse, começaram os problemas. Segundo a Justiça declarou em decisões de 2012 e 2018, a construtora incentivou a ocupação dos apartamentos no prédio po r famílias em situação de rua. O objetivo era desvalorizar o local e pressionar os proprietários a vender suas unidades, cada uma com 128 m² ?o que lembra o roteiro do filme "Aquarius", de Kleber Mendonça Filho.

Segundo laudo de janeiro da Defesa Civil, as paredes estão mofadas, há instalações elétricas improvisadas e o telhado corre risco de desabar. Na calçada do edifício, é possível encontrar ratos mortos, fezes e lixo, como embalagens de comida.

O prédio é dividido em nove unidades, cada uma com três quartos. Cada quarto abrigava ao menos uma família. Os antigos ocupantes cozinhavam em fogões dentro dos próprios dormitórios. No local, há buracos no teto, fios amontoados e quadros de luz queimados.

Há 26 anos, a construtora Santa Alice começou a comprar as unidades com objetivo de demolir a edificação e, no lugar, erguer um prédio de luxo. O projeto, contudo, foi travado pela recusa dos dois proprietários, que acusam a companhia de ter estimulado a ocupação de pessoas em situação de rua para pressioná-los.

Questionado sobre a possibilidade de demolição por conta das condições apontadas por um laudo da Defesa Civil, como o desabamento por conta da estrutura fraca dos telhados, o empresário descartou a possibilidade por conta da metragem total do terreno, de cerca de 380 m2.

Junto a cancelas da CET (Companhia de Engenharia de tráfego), carros da Polícia Militar ocuparam parte das ruas. Dois moradores da região que passavam próximo ao local, Talles e Felipe, disseram se sentir "aliviados" com a saída dos antigos moradores da ocupação.