SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Com cerca de 150 pessoas a bordo, o cruzeiro MV Hondius, afetado por um surto de hantavírus, deve deixar Cabo Verde nesta quarta-feira (6) e atracar no sábado (9) no porto de Granadilla, na ilha de Tenerife, no arquipélago das Ilhas Canárias, na Espanha, segundo a ministra da Saúde espanhola, Mónica García. A decisão foi tomada mesmo diante da oposição do governo local.
A embarcação está ancorada na costa africana desde o último domingo (3), após o governo cabo-verdiano negar autorização para desembarque dos passageiros alegando que a medida serviria para "proteger a população".
Segundo García, após o desembarque será implementado um mecanismo conjunto de avaliação sanitária e evacuação para repatriar todos os passageiros, "a menos que estejam incapacitados por razões médicas".
Os passageiros que não apresentarem sintomas da doença deverão ser enviados de volta a seus países de origem. Já os 14 espanhóis a bordo serão levados de avião para um hospital militar em Madri, onde permanecerão em quarentena. A duração do isolamento dependerá do momento em que houve a possível exposição ao vírus. Segundo a ministra, o período de incubação do hantavírus pode chegar a 45 dias.
A decisão do governo central enfrenta resistência do líder regional. O presidente do governo das Ilhas Canárias, Fernando Clavijo, se posicionou contra a chegada do navio à região.
"Não vou colocar em risco, de forma cega, a segurança da população das Canárias diante de um governo que não age com a lealdade devida nem com a colaboração necessária junto às instituições do arquipélago", afirmou Clavijo em entrevista à rádio espanhola COPE, nesta quarta-feira.
As Ilhas Canárias são um território autônomo da Espanha, ou seja, possuem governo próprio e autonomia administrativa em diversas áreas. Essa autonomia, porém, não é total, e o governo central mantém controle sobre temas como política externa, imigração, fronteiras e defesa.
Clavijo disse ainda que não recebeu nenhum pedido formal ou comunicação oficial clara por parte do governo espanhol. Segundo ele, o assunto começou a ser tratado de maneira informal, por meio de uma troca de mensagens com a ministra da Saúde.
O cruzeiro partiu de Ushuaia, na Argentina, em 1º de abril com 149 passageiros de 23 nacionalidades. A embarcação fez paradas na Antártida e em ilhas do Atlântico antes de seguir para Cabo Verde. Até o momento, três mortes foram registradas relacionadas ao hantavírus.
O primeiro morto foi um homem holandês de 70 anos, que apresentou sintomas leves de febre, dor de cabeça e diarreia, em 6 de abril. Ele morreu no dia 11 de abril, após desenvolver insuficiência respiratória. Seu corpo foi retirado do navio na ilha de Santa Helena em 24 de abril.
A segunda morte foi a de uma mulher de 69 anos, esposa do holandês. Ela adoeceu a bordo, desembarcou em Santa Helena e foi transferida de avião para Joanesburgo, na África do Sul, em 25 de abril, onde morreu em um hospital.
A terceira vítima é uma passageiro alemão, que morreu a bordo no dia 2 de maio após apresentar sintomas cinco dias antes.
Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), oito pacientes são consideradas casos suspeitos de infecção, incluindo um cidadão suíço que já retornou ao seu país e está em tratamento em Zurique.
MORADORES DAS ILHAS CANÁRIAS TEMEM CHEGADA DE NAVIO
A chegada do cruzeiro afetado tem reavivado, entre moradores das Ilhas Canárias, na Espanha, lembranças das quarentenas vividas durante a pandemia de Covid-19.
O arquipélago foi um dos primeiros lugares da Europa a enfrentar medidas de quarentena no início da pandemia. Em fevereiro de 2020, mais de 700 turistas ficaram isolados por 14 dias em um hotel em Tenerife após as autoridades bloquearem o local para conter a propagação do vírus.
Outras crises sanitárias também marcaram a região. Um surto de ebola em 2014 impactou as ilhas, cuja economia depende fortemente do turismo.
"Somos uma comunidade que já é bastante flexível quando se trata de ajudar os outros e ser acolhedora com as pessoas, mas acho que isso é excessivo", disse a moradora Margarita Maria, 62, à Reuters. "As pessoas estão com medo, as pessoas estão preocupadas. A Espanha é um país enorme, com muitos portos onde o navio de cruzeiro poderia ir."
Segundo o ministro do Turismo do governo regional, Lope Afonso, Madri não comunicou de forma clara o que se espera do arquipélago, o que dificulta acalmar o setor turístico local.
Alguns moradores também demonstraram preocupação com possíveis impactos em eventos futuros, como a visita programada do papa Leão às ilhas, em junho.
"Você consegue imaginar o papa com hantavírus? Essa é uma manchete que não queremos", disse a comediante local Omayra Cazorla em publicação no Instagram.
Segundo a OMS, o risco para a população é baixo, e a variante identificada entre os passageiros só se transmite entre humanos por meio de contato próximo e prolongado.
Com Reuters e AFP
