SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Após duas décadas ocupado por famílias sem-teto, o Edifício Peixoto Gomide, nos Jardins, área de alto padrão de São Paulo, passou por reintegração de posse na manhã desta quarta-feira (6). Segundo o proprietário da maior parte dos apartamentos, o objetivo agora é reformar o prédio e alugar as unidades, em vez de demoli-lo.

As 33 famílias que compartilhavam cômodos em condições precárias no edifício art-déco, construído na década de 1950, localizado no cruzamento entre as ruas Oscar Freire e Peixoto Gomide, já haviam começado a deixar o local desde a autorização da Justiça para a reintegração, em abril. Já na noite de terça-feira (5), nenhuma delas ocupava o prédio.

Elas foram para outras ocupações ou casas de familiares, segundo representantes do Centro Gaspar Garcia, designado pelo Ministério Público para acompanhar o caso.

Por volta de 6h, a Polícia Militar realizou a inspeção no local e constatou que todos os pertences foram retirados. O prédio passará por limpeza e terá os acessos fechados.

A reportagem entrou no imóvel por volta das 8h30, com autorização dos proprietários. Os cômodos do edifício ainda mantinham resquícios das famílias que moravam ali, como roupas, mesas, cadeiras, restos de refeições e quadros.

Camas, sofás, guarda-roupas, desenhos de crianças e lixo acumulado faziam parte do cenário. Alguns cômodos também tinham poças de água, inscrições nas paredes e piso bastante deteriorado. No telhado do último andar havia buracos por onde entrava a luz do sol. Um pátio interno era usado como depósito de lixo.

Álvaro Moreira, 87, um dos donos da Santa Alice, construtora que detém sete das nove unidades do edifício, acompanhava a ação no prédio e disse à Folha de S.Paulo que descartou a demolição e deve focar em uma reforma para que os apartamentos sejam alugados.

"Ele vai voltar a funcionar como residencial", disse Moreira. Ele ainda destacou que deve reformar os apartamentos que pertencem à Santa Alice. "Do outro, eles que façam", acrescentou, referindo-se às duas unidades de proprietários que não estavam presentes.

Questionado sobre a possibilidade de demolição por conta das condições apontadas por um laudo da Defesa Civil, como o desabamento por conta da estrutura fraca dos telhados, o empresário descartou a possibilidade por conta da metragem total do terreno, de cerca de 380 m².

Segundo a própria Justiça, a ocupação do edifício foi incentivada pelo proprietário majoritário, em meio a uma guerra judicial ?no processo, a Santa Alice nega a acusação e diz que o prédio "foi há algum tempo invadido por moradores de rua, enquanto seu titular desenvolvia projetos fora do Estado".

Há 26 anos, a Santa Alice começou a comprar os apartamentos com objetivo de demolir a edificação e, no lugar, erguer um prédio de luxo. O projeto, contudo, foi travado pela recusa de dois proprietários em vender seus apartamentos: psicóloga Mathilde Neder e o empresário Ricardo Thomé.

Thomé afirmou à Folha de S.Paulo que vendeu sua unidade há dez anos, mas não para a Santa Alice, e preferiu manter o nome do comprador em sigilo.

Já uma pessoa próxima a Mathilde confirmou que a construtora continua em contato para tentar comprar a unidade que pertence à ela, mas o preço estaria muito abaixo do esperado.

FUTURO INCERTO

Osvaldo Félix da Silva, 69, morava havia oito anos na ocupação. Ele diz que o acesso ao edifício foi limitado antes mesmo da reintegração e que conseguiu retirar apenas alguns pertences, como vestimentas e documentos pessoais.

"Peguei um sapato e algumas roupas", diz. Parte dos moradores que deixou o edifício e seguiu para uma ocupação na rua Pamplona, na mesma região. Por enquanto, ele deve seguir para o mesmo destino.

Atualmente, Osvaldo recebe auxílio-aluguel de R$ 400. Ele também paga pensão para um filho de 14 anos, que mora com a mãe. Embora afirme ter imóvel próprio no Espírito Santo, ele diz não ter condições de se mudar para lá neste momento. Nascido em São Paulo, ele vivia sozinho na ocupação.

Em nota, a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) informou que o auxílio-aluguel é pago regularmente às famílias e que os moradores utilizam a rede socioassistencial, com acesso ao CRAS Pinheiros. Além disso, afirma que estão inseridos em políticas públicas como programas de transferência de renda e atendimento educacional às crianças.

Para o centro de direitos humanos, é impossível encontrar qualquer imóvel no valor de R$ 400 fornecido.