SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - Golfinhos, focas e até baleias já foram usados em operações militares por diferentes países ao longo da história. Embora a ideia pareça saída de um filme de espionagem, há registros históricos, documentos militares e estudos científicos que comprovam que mamíferos marinhos foram treinados para localizar minas, detectar mergulhadores inimigos e proteger bases navais.

O assunto voltou a ganhar repercussão após rumores envolvendo supostos "golfinhos kamikaze" utilizados em conflitos no Oriente Médio. Apesar de não existirem provas oficiais desse tipo de ataque suicida, programas militares com animais marinhos são reais e já foram mantidos por ao menos cinco países diferentes.

COMO É POSSÍVEL TREINAR MAMÍFEROS MARINHOS PARA GUERRAS?

Especialistas explicam que golfinhos, leões-marinhos e focas possuem habilidades naturais extremamente úteis em ambientes subaquáticos. Os golfinhos, por exemplo, utilizam ecolocalização - uma espécie de sonar biológico - capaz de detectar objetos metálicos, minas e mergulhadores com precisão superior à de muitos equipamentos eletrônicos.

A espécie golfinho-nariz-de-garrafa possui uma das capacidades sonoras mais sofisticadas do reino animal. Segundo o estudo Hearing and Echolocation in Dolphins, publicado pela ResarchGate, esses mamíferos conseguem emitir pulsos sonoros extremamente potentes - capazes de alcançar até 230 decibéis - para "enxergar" o ambiente ao redor.

Os sons emitidos pelo animal são de alta frequência. Além disso, interpreta os ecos refletidos na água para localizar objetos, obstáculos e até pequenos alvos a centenas de metros de distância.

Os pesquisadores explicam que a audição dos golfinhos alcança frequências superiores a 150 kHz, muito além da capacidade humana. Além disso, eles possuem uma estrutura auditiva altamente especializada e cérebros proporcionalmente grandes, adaptados para processar rapidamente os ecos subaquáticos. Isso é considerado essencial porque o som se propaga na água quase cinco vezes mais rápido do que no ar, exigindo respostas neurais extremamente rápidas.

Esses animais apresentam elevada inteligência, facilidade de aprendizado e conseguem memorizar comandos complexos. Em programas militares, eles costumam receber recompensas alimentares sempre que completam tarefas específicas, como localizar objetos ou identificar intrusos. Em algumas missões, os animais utilizam equipamentos presos ao corpo, incluindo sensores, câmeras e dispositivos de marcação para indicar a posição de minas ou alvos submersos.

Bigodes ultrassensíveis de focas e leões-marinhos também seriam úteis em guerras. Um estudo publicado por cientista da Cornell University, em 2018, explica que os bigodes desses animais são capazes de detectar movimentos hidrodinâmicos na água mesmo em baixa visibilidade. Isso ajuda a entender como conseguem localizar objetos e alvos submersos.

PROGRAMA POLÊMICO DOS ESTADOS UNIDOS

Os EUA possuem o programa militar com mamíferos marinhos mais conhecido do mundo. Criado em 1959, durante a Guerra Fria, o U.S. Navy Marine Mammal Program treina golfinhos e leões-marinhos para detectar minas submarinas, recuperar equipamentos e localizar mergulhadores não autorizados.

O órgão explica o treinamento de golfinhos-nariz-de-garrafa e leões-marinhos-da-califórnia. De acordo com o portal oficial da Marinha americana, ligado ao Naval Information Warfare Center Pacific, os animais são treinados para as seguintes ações:

detectar minas submarinas;localizar objetos no fundo do mar;identificar mergulhadores e intrusos;recuperar equipamentos militares;proteger áreas portuárias e embarcações.Segundo a Marinha americana, os golfinhos jamais foram usados como armas suicidas, apesar das especulações. Há registros históricos do uso desses animais na Guerra do Vietnã e também durante a Guerra do Iraque, especialmente em operações de detecção de minas.

Ao longo das décadas, os animais foram empregados em diferentes operações dos EUA. As informações oficiais apontam que, no início dos anos 1970, golfinhos chegaram a atuar na proteção de um cais militar durante a Guerra do Vietnã. Já nos anos 1980, durante a chamada Guerra dos Petroleiros, no Golfo Pérsico, mamíferos marinhos foram enviados do Bahrein para auxiliar na segurança de navios da Marinha americana.

Os golfinhos também participaram da proteção marítima durante a Convenção Nacional Republicana de 1996, em San Diego. Anos depois, voltaram a ser usados no Golfo Pérsico, em operações de remoção de minas antes da invasão do Iraque, em 2003.

Quantos animais fazem parte do programa nos Estados Unidos? Em 2015, o Programa de Mamíferos Marinhos da Marinha dos EUA supervisionava o treinamento de 85 golfinhos e 50 leões-marinhos. Atualmente, o número exato de animais envolvidos não é divulgado oficialmente.

Tecnologia ainda não superou os golfinhos. Em 2022, a Marinha americana avaliou encerrar parte do programa e substituir os mamíferos marinhos por sensores avançados e veículos subaquáticos não tripulados. No entanto, estudos internos concluíram que a tecnologia disponível ainda não supera completamente a eficiência dos golfinhos em determinadas missões subaquáticas.

O Reino Unido foi um dos pioneiros nesse tipo de experiência. Durante a Primeira Guerra Mundial, a Marinha britânica tentou treinar leões-marinhos para localizar submarinos inimigos. Os testes ocorreram no País de Gales, mas o projeto acabou abandonado porque os animais perdiam o foco facilmente em mar aberto.

Em plena Segunda Guerra Mundial, a Suécia criou uma unidade especializada em treinar focas. O objetivo era detectar minas e torpedos no arquipélago de Estocolmo. O projeto foi liderado pelo cientista Valdemar Fellenius, que acreditava no potencial das focas devido à inteligência e à capacidade de mergulho em grandes profundidades. O programa acabou encerrado por dificuldades técnicas envolvendo os sistemas de sinalização usados pelos animais.

Após o fim da União Soviética, a Ucrânia herdou uma base de treinamento de golfinhos localizada na Crimeia. O país manteve o programa ativo por anos e chegou a utilizar os animais em operações ligadas ao conflito da anexação da Crimeia. Quando a Rússia assumiu o controle da região em 2014, também tomou posse da instalação e dos mamíferos treinados. O episódio gerou disputas políticas e versões conflitantes sobre o destino dos animais.

A Rússia ampliou seus programas militares com mamíferos marinhos após assumir estruturas na Crimeia. Em 2016, o governo confirmou a compra de golfinhos, embora sem detalhar oficialmente a finalidade. Imagens de satélite divulgadas nos últimos anos mostraram recintos com golfinhos próximos a bases navais russas no Mar Negro. Também surgiram suspeitas envolvendo baleias-beluga utilizadas em atividades de vigilância no Ártico.