SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A ciência na América Latina é concentrada em poucos países e tem baixo reconhecimento global, mas oferece ilhas de excelência e trunfos como diversidade étnica e pesquisadores criativos. Para avançar, precisa de mais previsibilidade e volume no financiamento, maior integração regional e investimento na formação das pessoas.

Esse diagnóstico foi feito por pesquisadores da América Latina, Europa e EUA reunidos em evento promovido pelo Einstein Hospital Israelita na quarta-feira (6). O tratamento proposto inclui transformar a promoção da ciência em política de Estado.

Em sua fala de abertura, o presidente do Einstein Hospital Israelita, Sidney Klajner, disse que o evento é "um espaço de reflexão qualificada sobre o futuro da ciência latino-americana e seu papel na construção de respostas aos grandes desafios da saúde global".

Segundo ele, o padrão atual da região focado em investimento do setor público "evidencia a necessidade de ampliar a participação de outros atores, como o setor privado e organizações filantrópicas, de forma a fortalecer a sustentabilidade e a capacidade de inovação dos sistemas científicos".

"A trajetória recente da região mostra que, mesmo em condições adversas, nossa ciência tem avançado. O próximo passo é criar as condições para que esse avanço ocorra com mais escala, mais autonomia e maior capacidade de impacto global, transformando potencial em estratégia e estratégia em ação coordenada", afirmou diante de convidados e especialistas na área.

Para o imunologista francês Patrice Debré, da Sorbonne, a região tem condições singulares (biodiversidade e instituições como a Fiocruz, a Opas e o SUS).

Outro que apontou uma vantagem competitiva dos países latino-americanos foi o diretor do Centro de Pesquisa em Imuno-oncologia do Einstein, Kenneth Gollob. É cada vez mais evidente, disse, a necessidade de fazer pesquisa com populações diversas.

Cristian Morales, da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), defendeu transformação estrutural na forma como as prioridades científicas são estabelecidas e financiadas na região, com vistas a uma colaboração internacional mais equilibrada.

O sociólogo da ciência Pablo Kreimer, do Conicet argentino, descreveu o que chama de "integração subordinada": a participação de grupos latino-americanos em consórcios internacionais se daria majoritariamente pela produção e processamento de dados, com baixa capacidade de inovação conceitual e teórica.

A região se integra às redes globais, disse, mas não desenvolve suas próprias agendas.

O diretor de Cardiologia do Einstein, Pedro Alves Lemos Neto, defendeu o papel da iniciativa privada na inserção ativa na agenda científica global.

O impacto da fragilidade institucional de países latino-americanos sobre as trajetórias individuais ficou patente na fala de Juliana Cassataro, pesquisadora do Conicet e da Universidade Nacional de San Martín. Sem política científica e instituições sólidas, disse, não há como pesquisadores desenvolverem suas carreiras.

Vinícius Maracajá-Coutinho, pesquisador da Fiocruz Bahia e professor da Universidade do Chile, disse que a região precisa deixar de ser provedora de amostras para se tornar produtora de dados. As colaborações entre países da própria América Latina, acrescentou, são ínfimas. E a prioridade nas carreiras continua sendo Europa e EUA.

Esse cenário aponta para a necessidade de mudar a cultura científica médica brasileira, na avaliação do catedrático da Escola Médica de Harvard, Peter Libby. Ele elogiou a qualidade dos recursos humanos em ciência no país, mas criticou a distribuição desigual da infraestrutura.

Fernanda De Negri, secretária de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde do Ministério da Saúde, defendeu regulações que assegurem rigor científico sem criar entraves burocráticos.

Outro ponto levantado foi a falta de suporte administrativo, jurídico e operacional aos pesquisadores. Aline Pacífico, gerente de planejamento e desenvolvimento de pesquisa do Einstein, defendeu que as universidades criem estruturas de gestão, para dar apoio aos cientistas.

Os participantes também discutiram estratégias para integrar a ciência às políticas públicas e criar um ecossistema favorável ao desenvolvimento da carreira de pesquisadores.

José Roque, diretor-geral do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais e professor do Instituto de Física da USP, afirmou que a instabilidade no financiamento, afetado por trocas de governo, desestimula a permanência de jovens cientistas.

Como forma de reduzir as desigualdades entre instituições de pesquisa latino-americanas e centros globais, o professor e pesquisador português de imunologia António Coutinho defendeu a criação de instituições de excelência na região.

Nayat Sanchez-Pi, diretora do Inria Chile, centro de pesquisas voltado à inovação digital e à inteligência artificial, afirmou que as disparidades entre as organizações dos hemisférios norte e sul vão além da infraestrutura e incluem assimetrias de agenda, carreira e prioridades de pesquisa.

O coordenador da Iniciativa Einstein em Terapia Gênica, Ricardo Weinlich, chamou a atenção para o atraso na chegada de insumos, o que prejudica o andamento de projetos.

Segundo o diretor do Instituto Butantan, Esper Kallás, contribuições do Brasil na história da ciência e da pesquisa em saúde provam que a qualidade da pesquisa no país tem potencial de impacto global.

E, na abertura do evento, o vice-presidente de Pesquisa e Inovação do Einstein, Fernando Bacal, disse que a ciência da América Latina não é periférica e precisa ser mais ouvida e integrada.

Na palestra inicial, Marcella Ohira, pesquisadora do Inter-American Institute for Global Change Research (IAI), órgão que promove a cooperação científica nas Américas, explicou como a diplomacia científica pode ser instrumento de fortalecimento de políticas públicas.