VALÊNCIA, ESPANHA (FOLHAPRESS) - Documento do Instituto de Criminalística da Polícia Civil do Maranhão ao qual a reportagem teve acesso concluiu que os áudios divulgados com confissões de agressões e tortura contra uma doméstica de 19 anos grávida são de Carolina Sthela Ferreira dos Anjos, 36, chefe dela. O caso ocorreu em abril na região metropolitana de São Luís.

Segundo o documento, numa escala do estudo de compatibilidade, o resultado foi de 100% entre os áudios vazados e a voz da empresária. O delegado Walter Wanderley, da 21ª Delegacia de Polícia Civil do Araçagy, que investiga o caso, disse que solicitou a perícia no material ainda na quinta-feira (7), após a prisão de Carolina.

"Durante o depoimento, ela negou que fossem dela e não teve jeito. Os áudios com confissões de tortura e violência são da patroa. Imediatamente mandei que fosse colhida a voz dela ao vivo, natural, para comparar com o que estava no áudio. Está aí o laudo do IC com a informação que a voz é compatível", disse o delegado.

A defesa informou que a fase ainda é pré-processual e que o delegado ainda deve concluir o inquérito. Somente após os trâmites será apresentada a linha de defesa. "Essa história da arma, dos áudios, tá muito mal contada. Como houve mudança na defesa, preciso ter acesso aos autos. Orientei para que a constituinte se mantivesse em silêncio. Ela, por conta da idade, tem uma gravidez de alto risco. Preciso, também, fazer um levantamento sobre problemas psicológicos como bipolaridade e borderline", declara o advogado Otoniel d´Oliveira Chagas Bisneto Prado.

Foi mais de uma hora de tortura contra a vítima, acusada por Carolina de ter furtado um anel dela. Samara Regina, de 19 anos, contou que sofreu violência física e psicológica da empresária e de um amigo dela, identificado como o policial militar Michael Bruno Lopes Santos. Depois das agressões, o anel foi encontrado no cesto de roupa suja.

Segundo a polícia, o suspeito teria assumido participação nas agressões durante depoimento na delegacia. Na corregedoria da PM, porém, ele negou as agressões.

Em alguns trechos dos áudios investigados, a empresária conta: "Tapa e tapa, menina, dei. Gente, eu dei tanto que minha mão tá inchada. Até hoje meu dedo chega tá roxo".

Ela também narrou que o PM ameaçou a doméstica com uma arma: "Puxou a bicha, botou assim, tirou a touca da cabeça dela, pegou no cabelo, botou ela de joelho, puxou a bicha e botou na boca dela. 'Eu acho bom tu entregar logo esse anel, onde é que tá? Tá aqui? Bora brincar de quente ou frio. Tá aqui em cima, tá aqui embaixo?' Aí onde ele ia apontando, botava a cabeça dela se tava".

Em depoimento, que durou pouco mais de duas horas, Carolina Sthela afirmou que a confusão teria começado em razão de um anel avaliado em R$ 5.000. Contou, ainda, que está grávida de três meses, é mãe de um menino de seis anos e enfrenta graves problemas de saúde. A empresária foi presa e passou por uma audiência de custódia na última sexta-feira (8). A Justiça decidiu pela permanência dela na prisão.

'FEZ ISSO PARA ME INCRIMINAR E NÃO PAGAR PELO SERVIÇO'

Samara, com cinco meses de gestação, disse à Folha de S. Paulo que a empresária praticou a tortura contra ela para não precisar pagar pelo trabalho desenvolvido durante 15 dias. Disse, ainda, que trabalhava em uma jornada exaustiva de dez horas diárias, com meia de descanso, e que teria sido ameaçada de morte.

"Fez isso para me incriminar e não pagar pelo serviço. Tive certeza que ia morrer. Tô passada e muito dolorida. Estava precisando do trabalho, tive que aceitar o serviço pesado, mesmo no meio de uma gestação sensível", relatou.

"Quando estava caída no chão, o policial colocou a arma na minha boca. Fiz de tudo para defender a minha barriga", afirma a jovem.