SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Na noite de 12 de maio de 2006, sete integrantes da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital) foram levados à sede do Deic (Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado) da Polícia Civil no Carandiru, zona norte de São Paulo.
Àquela altura, setores de inteligência das forças de segurança estaduais já tinham interceptado ordens para uma megarrebelião em presídios do estado, em represália à transferência de 765 presos.
Enquanto Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, era ouvido pelo diretor do Deic, Godofredo Bittencourt, acontecia a primeira onda de atentados contra prédios da polícia e agentes de segurança.
Bittencourt era o mesmo que, menos de quatro anos antes, havia declarado que o PCC era uma "organização falida e desmantelada" numa entrevista coletiva. "Se o PCC tinha uma boca cheia de dentes, agora tem um dentinho ali e outro lá. Não morde mais ninguém."
Hoje aposentado, Bittencourt é empresário em Pindamonhangaba (SP). A reportagem não conseguiu contato com ele.
A onda de violência deixaria 59 agentes públicos mortos ao longo dos dias. A reação das forças policiais, dentro e fora da lei, deixaram 505 civis mortos.
Passados 20 anos da maior onda de violência na história de São Paulo, todas as autoridades que estavam à frente da área de segurança pública estão aposentadas e algumas já faleceram. Entre os líderes do PCC à época, há mortos, dissidentes e aqueles que seguem associados à facção criminosa.
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CLÁUDIO LEMBO
Vice de Geraldo Alckmin no governo que assumiu o Palácio dos Bandeirantes em 2003, Cláudio Lembo estava no cargo de governador havia menos de dois meses quando os ataques do PCC começaram.
Dias após o início dos atentados, Lembo afirmou que a polícia já sabia dos planos de ataques havia cerca de 20 dias. No auge da onda de violência, com agências bancárias metralhadas e um fórum da Justiça alvo de bomba, ele dava declarações de que a situação estava "sob controle".
Ao final do mandato, ele mesmo admitiu que não tinha conseguido fazer o que esperava na área de segurança pública. Em entrevista à Folha de S.Paulo em 2016, ao ser perguntado sobre o que faria para combater a violência se voltasse ao cargo de governador, Lembo respondeu: "Renunciaria no primeiro dia".
Morreu em 19 de março de 2025, aos 90 anos.
NAGASHI FURUKAWA
Secretário de Administração Penitenciária a partir de 2000, no segundo mandato de Mário Covas (PSDB) como governador, Nagashi Furukawa foi o responsável pela transferência de 765 presos para a penitenciária 2 de Presidente Venceslau.
Ele pediu demissão antes do fim de maio e foi substituído por Antonio Ferreira Pinto. Em 2015, publicou um longo relato sobre os bastidores do governo durante a onda de atentados no site Jota, especializado em cobertura jurídica.
"A 'Crise de Maio', se não servir para outra coisa, certamente servirá para mostrar que esse não é assunto para pobres e nem circunscrito à atuação de autoridades governamentais, mas para toda a sociedade brasileira", escreveu.
Furukawa hoje é advogado, sócio de um escritório em Bragança Paulista, no interior de São Paulo. Ele conversou brevemente com a Folha de S.Paulo por telefone, mas não quis responder perguntas sobre 2006.
SAULO DE CASTRO ABREU FILHO
Saulo de Castro estava à frente da Secretaria de Segurança Pública desde 2002. Seus desentendimentos com Furukawa eram conhecidos publicamente.
Poucos dias após o colega sair da pasta de Administração Penitenciária, Abreu Filho disse em entrevista à Folha de S.Paulo que os presídios havia se tornado um "monstrengo" e atribuiu à gestão das unidades boa parte da responsabilidade pelos ataques do PCC.
Ele deixou a pasta da Segurança Pública ao fim da gestão Cláudio Lembo, mas voltou ao governo paulista com o retorno de Alckmin ao Palácio dos Bandeirantes. Entre 2011 e 2018, ocupou as secretarias de Logística e Transportes, Casa Civil e de Governo.
Hoje, ele é consultor de relações governamentais em um escritório de advocacia. O ex-secretário não respondeu a pedidos de entrevista.
ELIZEU ECLAIR
Em 18 de maio, quando as mortes de civis pelas forças de segurança já passavam de cem, o então comandante-geral da PM, Elizeu Eclair, mantinha-se firme na defesa de que as ações ocorriam dentro da lei.
Questionado se havia excessos da polícia, o comandante afirma: "Ainda não. Todas as mortes aconteceram em contra-ataques da polícia". Afirmava que não havia provas de que os mortos pudessem ser inocentes.
Ele morreu em julho de 2021, em decorrência de um câncer.
MARCO ANTONIO DESGUALDO
Delegado-geral da Polícia Civil em 2006, Marco Antônio Desgualdo deu declarações admitindo os indícios de que policiais agiram fora da lei na reação aos ataques do PCC.
À Folha de S.Paulo, em 2016, ele disse que muitas desavenças pessoais podem ter servido de pretexto para assassinatos cometidos no contexto da onda de violência daquele mês, inclusive por policiais.
Desgualdo hoje está aposentado como delegado de classe especial. Ele não respondeu a pedidos de entrevista.
MARCOLA
Marco Willians Herbas Camacho foi denunciado por ao menos três assassinatos da onda de ataques de 2006: de um soldado da PM, de um bombeiro militar e de um servidor do DHPP (Departamento de Homicídios) da Polícia Civil.
Ele está preso na Penitenciária Federal de Brasília. É apontado como líder máximo da facção criminosa até hoje, embora já tenha negado.
JULINHO CARAMBOLA
Júlio César Guedes de Moraes, o Julinho Carambola, é considerado braço-direito de Marcola e o segundo homem na hierarquia do PCC desde a época dos ataques de maio de 2006.
Julinho não estava entre os sete levados à sede do Deic. No dia 11 de maio daquele ano, estava no grupo de 765 presos transferidos para a P2 de Presidente Venceslau logo pela manhã.
Levantamentos do Ministério Público e da Polícia Civil de São Paulo apontam que ele ainda é integrante da Sintonia Final, a cúpula do PCC. Ele está preso na Penitenciária Federal de Porto Velho, em Rondônia, desde março de 2023.
EDUARDO LAPA DOS SANTOS
Eduardo Lapa dos Santos, o Lapa, era um dos sete integrantes do PCC levado à sede do Deic na noite dos primeiros ataques. Anos depois, recebeu benefícios na progressão de sua pena mesmo que fosse considerado um preso perigoso pela administração penitenciária.
Lapa aproveitou uma liberação para o período de festas de fim de ano em 2009 e desapareceu. Foi detido pela polícia em janeiro de 2010 em Limeira (SP) e colocado novamente atrás das grades. Foi libertado em 2014, após receber benefícios que diminuíram o tempo de sua pena.
Foi detido novamente em 2015 na articulação de atentados contra funcionários de presídios e de resgate de presos. Hoje, está preso na Penitenciária Federal de Campo Grande (MS).
GEGÊ DO MANGUE
Rogério Jeremias de Simone, o Gegê do Mangue, estava ao lado de Marcola no grupo de sete presos levados ao Deic na noite de 11 de maio. Ele já era considerado um criminoso importante no organograma da facção na época dos atentados, e foi um dos primeiros condenados por formação de quadrilha por sua atividade no PCC.
Preso em Presidente Venceslau (SP), Gegê foi libertado em fevereiro de 2017. À época ele respondia por ao menos 11 processos por acusações.
Ele foi morto um ano depois, durante uma emboscada planejada por companheiros da própria facção. Estava num helicóptero sobrevoando uma reserva indígena em Aquiraz (CE) quando o piloto pousou numa clareira da mata. Homens armados retiraram Gegê da aeronave e o mataram a tiros.
MACARRÃO
Orlando Mota Júnior, o Macarrão, foi apontado em maio de 2006 como o principal interlocutor do PCC em contato com autoridades do governo estadual para negociar o fim de rebeliões e ataques. Ele estava entre os transferidos para a P2 de Presidente Venceslau no dia 11.
Seu nome foi publicado numa reportagem da Folha de S.Paulo, publicada em 15 de maio, que afirmava que ele havia recebido de representantes do governo um telefone celular para ligar a alguns presídios e pedir o fim dos motins. Macarrão teria respondido que não tinha poder suficiente na facção para isso.
Anos depois, ele teve desentendimentos com os outros integrantes da cúpula do PCC a partir do assassinato de seu advogado. Depois, delatou os responsáveis pelo assassinato de um agente penitenciário, motivo pelo qual foi jurado de morte na facção. Ele segue preso na Penitenciária de Tupi Paulista, no interior de São Paulo.
