SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Pelo menos mil animais foram resgatados a partir de investigações da Polícia Civil de São Paulo no primeiro trimestre deste ano sobre zoosadismo, violência contra animais transmitida ao vivo em plataformas digitais, principalmente no Discord.
Segundo a polícia, os dados ainda não possuem base consolidada para comparação histórica, mas o volume de ocorrências já é tratado como reflexo do avanço de grupos organizados que usam a internet para disseminar violência extrema entre adolescentes e jovens.
A delegada Lisandréa Salvariego, chefe do Noad (Núcleo de Observação e Análise Digital), unidade especializada da SSP-SP (Secretaria da Segurança Pública de São Paulo) criada para combater crimes digitais, afirma que o zoosadismo funciona como porta de entrada para crimes como estupro virtual, indução à automutilação, incentivo ao suicídio e até, em casos extremos, ataques a escolas.
O Discord, citado nas investigações do núcleo, afirmou que mantém "políticas rigorosas que proíbem o abuso de animais e outros conteúdos prejudiciais, por meio de sistemas robustos de fiscalização e moderação".
A empresa declarou ainda que segue investindo "em ferramentas avançadas de segurança e tecnologias de detecção proativa para ajudar a criar um ambiente mais positivo e seguro para os usuários no Brasil".
Para a delegada, os grupos investigados utilizam a violência contra animais como forma de dessensibilização e escalada da violência, normalizando conteúdos extremos entre adolescentes e jovens.
A prática também é usada para testar limites, estimular desafios violentos, criar vínculos dentro das comunidades criminosas e identificar usuários dispostos a participar de outras condutas ilegais.
Segundo as investigações do núcleo, parte dessas ações criminosas ocorre em servidores privados do Discord, plataforma de conversas popular entre jovens e criada originalmente para comunidades de jogos online.
De acordo com a polícia, os grupos utilizam a ferramenta para organizar transmissões ao vivo, compartilhar vídeos de maus-tratos, estimular desafios violentos e incentivar práticas criminosas envolvendo animais e crianças.
"A maioria dos resgates envolve gatos, que representam cerca de 90% dos casos monitorados pelo Noad", afirma a delegada. Segundo ela, os filhotes são as principais vítimas dos grupos investigados por serem considerados mais vulneráveis e mais fáceis de manipular durante as transmissões.
Dados do Noad obtidos pela Folha apontam crescimento dos registros de maus-tratos envolvendo especificamente esse tipo de animal. Foram 175 ocorrências em 2024 e 340 no ano passado. Para 2026, a projeção é de nova alta.
A Polícia Civil monitora, em média, de 10 a 15 casos de maus-tratos a animais transmitidos ao vivo durante as madrugadas.
"Temos duas situações: quando a vítima tenta matar o próprio animal, avisamos a família, orientamos a procurar tratamento psicológico e, se algo ocorrer com o animal, os fatos são registrados", afirma a delegada.
Ela diz que essas vítimas passam a integrar automaticamente as investigações conduzidas pelo núcleo, que busca identificar os responsáveis pela indução e organização das ações violentas.
Em um dos casos acompanhados pela polícia, uma adolescente em Fortaleza planejava matar o próprio gato durante um evento previamente marcado na internet. A ação foi interrompida após articulação entre a Polícia Civil paulista e a Polícia Civil do Ceará.
"Nós agimos imediatamente. Após o pedido de quebra do sigilo, conseguimos identificar a localização do adolescente Acionamos a polícia de Fortaleza, e o animalzinho foi salvo", relata a delegada.
A chefe do Noad explica que somente é possível saber a localização do ato mediante a quebra de sigilo. "Monitoramos o país todo. A internet não tem fronteira. Somente após a quebra de sigilo é que conseguimos a localização e impedir o crime."
A reportagem procurou o Ministério Público de São Paulo para questionar se o órgão acompanha as investigações relacionadas ao zoosadismo e aos crimes praticados em plataformas digitais, mas não houve resposta até a publicação deste texto.
Em fevereiro deste ano, um relatório produzido pelo Noad e entregue ao Ministério Público apontou falhas de moderação no Discord que, segundo a polícia, têm permitido a prática de crimes contra crianças e adolescentes no ambiente digital.
O documento descreve problemas recorrentes identificados durante o monitoramento da plataforma, como demora na exclusão de servidores mesmo quando crimes estariam sendo cometidos ao vivo, além de dificuldades para interromper rapidamente as condutas ilegais e identificar os responsáveis.
Os investigados podem responder por maus-tratos a animais, crime previsto na Lei de Crimes Ambientais. Nos casos envolvendo cães e gatos, a pena é de reclusão de 2 a 5 anos, além de multa e proibição da guarda do animal. Se houver morte do animal, a punição pode ser aumentada.
