SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Voluntários tentaram visitar nesta terça-feira (12) o acervo da Biblioteca Pública Municipal Monteiro Lobato, em Osasco (SP), guardado em um almoxarifado municipal após a prefeitura realizar o descarte das obras, mas afirmam que não foram autorizados a entrar.
Eles estimam que 49,5 mil livros estejam no local, que é um galpão, amontoados e envoltos em plástico. "Os livros, que, como constatamos quando foram retirados da biblioteca, estavam em perfeito estado, após a chuva do último domingo [10], em pouquíssimo tempo estarão completamente mofados", afirma Roque Aparecido da Silva, presidente do Movimento em Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural de Osasco, o Modephac.
Roque esteve no local. "O crime de destruição de um acervo de 49,5 mil livros continua sendo cometido", declarou.
No fim de abril, imagens de livros descartados em caçambas e em caminhões circularam nas redes sociais e geraram indignação. Em resposta, o prefeito Gerson Pessoa (Podemos) declarou em vídeo ter havido um erro no transporte e anunciou a contratação de instituto especializado para avaliar os livros, esgotar as possibilidades de restauração e, só então, descartar o material que estiver irrecuperável.
Ele prometeu ainda a reabertura da biblioteca, fechada desde 2020, para o segundo semestre de 2026. A Folha de S.Paulo questionou a Prefeitura de Osasco sobre as condições de armazenamento e o impedimento de acesso de voluntários ao almoxarifado. Um email foi enviado à prefeitura na terça-feira (12), às 20h, além de duas tentativas de contato por telefone nesta quarta-feira (13), às 12h e às 15h. Não houve retorno em nenhuma das tentativas.
Segundo o dirigente do Modephac, até hoje nenhum representante do instituto apareceu no almoxarifado.
Para o Conselho Regional de Biblioteconomia de São Paulo (CRB-8), o descarte nunca deveria ter acontecido como aconteceu. A entidade afirma que o procedimento correto exige a elaboração de uma lista com os títulos e motivos do descarte, produzida por um bibliotecário habilitado, e que há alternativas à eliminação do acervo, inclusive tecnológicas.
"Existem meios de recuperação do acervo sem necessidade de descarte."
O CRB-8 também aponta falta de competência técnica da gestão para tomar a decisão. "Um prefeito e um secretário de Cultura não possuem responsabilidade técnica para determinar o descarte do acervo. Isso é prerrogativa do profissional bibliotecário."
O conselho enviou ofício à prefeitura e à Secretaria de Cultura de Osasco em 28 de abril e diz não ter recebido resposta.
Para o movimento Reabre Biblioteca Osasco, as condições atuais de armazenamento representam uma segunda crise em curso. "Quando vimos as imagens dos livros nesse galpão envoltos naquele saco plástico, pensamos na proliferação dos fungos", diz Solange Santana, coordenadora do coletivo. "Tem controle de umidade? Tem controle de temperatura? A gente não sabe."
O CRB-8 endossa a preocupação. "O armazenamento inadequado contribui significativamente para a deterioração do acervo", afirmou o conselho em nota à Folha de S.Paulo.
Segundo Solange, a preocupação ganha gravidade especial diante do acervo infantil da biblioteca. "Crianças quando leem tocam o livro, vão tocar o rosto, vão tocar a boca. A gente precisa ter esses laudos."
O Ministério Público abriu inquérito em 29 de abril para apurar possível lesão ao patrimônio público. O promotor Rodrigo Nunes Serapião requisitou laudos técnicos e pareceres sanitários. Também pediu a identificação dos agentes responsáveis pela autorização e execução do descarte. O CRB-8 acompanha o inquérito e diz não descartar medidas judiciais adicionais para responsabilizar os envolvidos.
Desde julho de 2022, o movimento Reabre Biblioteca Osasco tenta interlocução formal com a gestão municipal para tratar do acervo, mas não obteve resposta, segundo a entidade.
