SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - Temidas em grande parte da África e popularizadas como vilãs em filmes e lendas, as hienas estão ganhando uma nova imagem na Etiópia. Estudos recentes e relatos de moradores mostram que os animais desempenham papel importante na limpeza urbana, na redução de doenças e até no combate às mudanças climáticas.

Em cidades etíopes como Mekelle e Harar, hienas-malhadas convivem há décadas, em alguns casos há séculos, com a população humana. À noite, elas deixam tocas nos arredores urbanos e circulam pelas ruas em busca de restos de carne, carcaças e lixo orgânico descartado por moradores e comerciantes.

As hienas removem toneladas de resíduos e esse comportamento funciona como um sistema informal de saneamento urbano em regiões onde a coleta de lixo é limitada. Um estudo publicado em 2026 na revista científica Ecological Solutions and Evidence concluiu que hienas, cães de rua, abutres e lobos-africanos removem cerca de 5 mil toneladas de resíduos orgânicos por ano em Mekelle, no norte da Etiópia. As hienas são responsáveis por aproximadamente 90% desse trabalho.

Mas o impacto das hienas vai muito além da limpeza urbana. Segundo os pesquisadores, o serviço prestado pelos animais gera economia de cerca de US$ 100 mil (cerca de R$ 491 mil) anuais. Esse valor seria referente a custos de descarte de resíduos e evita mais de mil toneladas de emissões de dióxido de carbono por ano.

Os cientistas também apontaram benefícios sanitários. Um estudo anterior, divulgado em 2021 pela Universidade de Michigan, concluiu que o consumo de carcaças pelas hienas ajuda a reduzir a disseminação de doenças como antraz e tuberculose bovina.

Este estudo muda completamente a narrativa tradicional sobre as hienas, de que elas são um incômodo e deveriam ser removidas. A pesquisa mostra os benefícios que predadores e animais necrófagos podem trazer para os seres humanos Pesquisador Neil Carter, em nota da Universidade de Michigan

Além da importância ecológica, as hienas ocupam papel cultural e espiritual em algumas cidades etíopes. Em Harar, cidade murada reconhecida como patrimônio da humanidade pela UNESCO, moradores mantêm uma convivência histórica com os animais.

As muralhas construídas no século XVI possuem pequenas aberturas conhecidas como "portas das hienas". Elas são usadas pelos animais para entrar na cidade durante a noite. Ali surgiu a tradição dos chamados "homens-hiena", moradores que alimentam os animais diariamente para manter a convivência pacífica.

Um dos mais conhecidos é Abbas Yusuf, que herdou a prática do pai. Em reportagem publicada pela CNN em maio de 2026, ele descreveu as hienas como visitantes frequentes. "Os convidados que chegam, eu cuido deles e os acompanho até partirem em paz", disse.

A relação histórica entre humanos e hienas acabou criando um ritual turístico único no mundo. As alimentações noturnas se transformaram em atração turística em Harar, reunindo visitantes interessados em alimentar hienas com pedaços de carne presos em gravetos, às vezes segurados com a própria boca.

Apesar da fama agressiva desses predadores, pesquisadores afirmam que ataques a humanos são relativamente raros nas áreas estudadas. Um estudo publicado em 2020 na revista científica Animals analisou a convivência entre humanos e hienas em quatro cidades etíopes. Os pesquisadores concluíram que a relação varia bastante conforme fatores culturais e religiosos.

Enquanto moradores de Harar enxergam as hienas como protetoras espirituais, em outras cidades elas ainda são vistas como animais perigosos ou incômodos. "Nós alimentamos as hienas e, em troca, elas nos protegem dos espíritos malignos", afirmou o comerciante Adil Abubaker ao jornal britânico The Guardian, em reportagem publicada em 2024.

Os estudos também mostram que os próprios animais mudaram o comportamento para viver próximos aos humanos. Em cidades onde são mais toleradas, as hienas demonstram menos medo das pessoas e maior capacidade de adaptação ao ambiente urbano.

Pesquisadores alertam, porém, que a expansão urbana e a destruição das áreas naturais podem ameaçar essa convivência histórica. Em Harar, o crescimento da cidade já bloqueia antigas rotas usadas pelas hienas para acessar o centro histórico. Cientistas também alertam que o excesso de contato com humanos pode aumentar riscos de ataques e conflitos com criadores de animais.

Ainda assim, muitos moradores defendem a permanência das hienas nas cidades. Para Abbas Yusuf, a tradição continuará viva. "Essa alimentação será passada de geração em geração", disse à CNN. "Estou trabalhando para transmiti-la ao meu filho da melhor maneira possível."