PORTO ALEGRE, RS (FOLHAPRESS) - O pedido de arquivamento da investigação sobre a morte do cão Orelha, feito pelo Ministério Público de Santa Catarina no dia 8 de maio, cita a existência de rumores e versões distorcidas do caso como um dos fatores que prejudicaram a investigação.

Entre os principais boatos estavam a ligação das famílias envolvidas com lideranças políticas e judiciais em Santa Catarina, formas extremas de tortura e a existência de vídeos que comprovariam o ataque ao animal.

A Polícia Civil disse em nota divulgada na terça (12) que já concluiu as investigações sobre o caso e que encaminhou os autos ao Ministério Público. Segundo o órgão, eventuais manifestações sobre o pedido de arquivamento cabem exclusivamente à Promotoria.

Os boatos que ganharam força nas redes sociais citavam agressões extremas e sádicas contra Orelha, como supostos chutes na cabeça e uma tentativa de empalamento com um pedaço de madeira.

A exumação do corpo do animal, solicitada pelo Ministério Público em 10 de fevereiro, um mês e cinco dias após a morte de Orelha, não encontrou nenhum sinal de lesão causada por ação humana.

A única lesão concreta identificada foi uma osteomielite facial no maxilar esquerdo, provavelmente causada por infecção avançada. O ferimento no rosto do animal, inicialmente atribuído a um ataque, seria decorrente dessa condição de saúde deteriorada.

Até a solicitação da Promotoria não havia laudo cadavérico nem exumação própria feita pela Polícia Científica de Santa Catarina. A polícia utilizava como referência um laudo indireto, o relatório do veterinário que atendeu Orelha na Praia Brava, que indicava que o animal havia sofrido um golpe contundente na cabeça, possivelmente causado por chute ou por objeto rígido.

No pedido de arquivamento, o Ministério Público afirma que a versão de que Orelha havia sido agredido repercutiu devido a comentários e boatos disseminados nas redes sociais e acabou influenciando a condução do caso pela Polícia Civil, que priorizou essa linha de investigação em detrimento de outras hipóteses, como ferimentos causados por morte natural ou impacto acidental.

Essa última hipótese havia sido mencionada pela defesa do adolescente indiciado em entrevista à Folha, em fevereiro, quando afirmou ter apurado que Orelha costumava dormir debaixo de carros estacionados para se proteger do sol.

Os promotores dizem que a principal linha de investigação da Polícia Civil foi construída a partir de uma cronologia equivocada. Isso teria acontecido devido a uma dessincronização dos relógios das câmeras do condomínio Água Marinha, onde o adolescente suspeito estava nos dias do suposto ataque, em relação ao sistema público Bem-Te-Vi.

A diferença de aproximadamente 30 minutos entre os sistemas não teria sido considerada na comparação das imagens.

Com a correção da defasagem, os promotores concluíram que Orelha estava a cerca de 600 metros da beira da praia no horário em que o adolescente indiciado estaria no local.

A promotoria aponta ainda que imagens captadas cerca de uma hora depois do suposto ataque mostram o cachorro caminhando normalmente perto do condomínio, passando por uma calçada ao lado de um carro e de uma pessoa praticando exercícios físicos.

Outro rumor citado nas redes sociais é a existência de um suposto vídeo mostrando a agressão a Orelha, que teria sido apagado após pressão de familiares dos adolescentes investigados.

O Ministério Público afirma que esse vídeo nunca foi localizado ou comprovado nas perícias realizadas em aparelhos eletrônicos. Da mesma forma, outro boato citava a existência de conversas em aplicativos nas quais os jovens supostamente discutiam a agressão a Orelha, o que nunca foi encontrado após perícias em celulares dos adolescentes.

De acordo com a defesa do adolescente indiciado, a versão sobre a existência de um vídeo que provaria o ataque começou após a divulgação de imagens de câmeras de segurança do condomínio feita pelo porteiro do local em um grupo de WhatsApp de moradores da Praia Brava.

No envio das imagens, o porteiro teria levantado a hipótese de que os jovens tinham relação com a morte de Orelha. A partir desses fatores, o rumor teria começado.

Nas redes sociais, tmbém são comuns afirmações de que haveria uma tentativa de proteger os jovens suspeitos por serem supostamente filhos de pessoas poderosas e politicamente conectadas.

À Folha de S.Paulo, os pais do adolescente indiciado e de outro jovem que foi investigado, mas não constava no inquérito final, negaram conexões com pessoas de alto escalão no Executivo e no Judiciário catarinense que pudessem influenciar as investigações.