SÃO CARLOS, SP (FOLHAPRESS) - Moléculas do esmalte dos dentes do Homo erectus (primeiro membro do gênero humano a se espalhar amplamente pelo planeta) sugerem que traços genéticos exclusivos dele foram transmitidos às pessoas de hoje por meio de processos da miscigenação.

Os dados que servem de base para essa conclusão ainda são esparsos, mas, se forem confirmados, darão mais peso à ideia de que a mistura entre as espécies pode ter sido a regra ao longo da evolução humana.

As descobertas estão em arti go publicado nesta quarta-feira (13) na revista científica Nature, uma das mais importantes do globo. No trabalho, dentes atribuídos ao Homo erectus vindos de três sítios arqueológicos diferentes foram analisados por uma equipe do Instituto de Paleontologia de Vertebrados e Paleoantropologia da Academia Chinesa de Ciências, sediado em Pequim.

Os restos dos hominínios (membros do grupo de primatas mais próximo dos seres humanos) têm todos idade estimada em torno dos 400 mil anos. Parte dos dentes vem da localidade de Zhoukoudian, em que os fósseis originalmente foram apelidados de "Homem de Pequim" décadas atrás, por causa da proximidade com a capital chinesa. Os demais fósseis, também da China, são dos sítios de Hexian e de Sunjiadong, em duas províncias do país.

No Pleistoceno Médio, momento geológico em que os donos dos dentes analisados viveram, o Homo erectus já tinha tido uma longa e ilustre carreira de expansão pelo planeta. Acredita-se que a espécie surgiu na África Oriental há 1,8 milhão de anos, tendo chegado a locais como a Geórgia (no Cáucaso, onde Europa e Ásia se encontram) algumas dezenas de milhares de anos depois e se espalhando tanto rumo à Europa Ocidental quanto ao Extremo Oriente ?há fósseis inclusive na Indonésia, com idades não muito distantes dos da Geórgia.

No fim das contas, a espécie parece ter subsistido por mais de 1,5 milhão de anos ?na ilha de Java, em território indonésio, os H. erectus ainda estavam presentes há 100 mil anos, quando a nossa espécie já tinha surgido havia muito na África. Ainda não está claro como a espécie acabou desaparecendo.

Coordenados pela paleontóloga Qiaomei Fu, os cientistas chineses empregaram métodos minimamente invasivos para extrair peptídeos (pedaços de proteínas) do esmalte dos dentes dos hominínios extintos.

Para evitar que a análise incluísse moléculas modernas que tivessem contaminado os dentes, a equipe usou uma série de critérios que ajudam a distinguir fragmentos proteicos que ficaram preservados ao longo de milhares de anos dos que podem ter vindo da pele de alguém que tocou os dentes nas últimas décadas, por exemplo. Entre essas pistas está o padrão de fragmentação (de modo geral, em pedaços cada vez menores com o passar do tempo) e alterações específicas na estrutura química dos peptídeos, a exemplo do que também se vê no DNA de origem antiga.

A análise dos fragmentos proteicos, aliás, é uma maneira indireta de investigar o DNA da espécie extinta. Isso porque a sequência de "letras" do material genético, ou genoma, corresponde também à receita para a fabricação das proteínas do organismo (embora a maior parte do DNA não esteja ligada a isso). Para ser mais exato, cada trio de letras químicas do genoma pode ser usado como base para a fabricação de um aminoácido, a unidade bioquímica básica para a montagem das proteínas.

Um processo parecido já tinha sido aplicado a outras amostras derivadas do H. erectus, mas o problema é que os peptídeos encontrados eram indistinguíveis dos presentes em seres humanos atuais ?o que, a rigor, é o esperado, considerando a grande proximidade genética entre o H. sapiens e seu primo desaparecido. Desta vez, porém, a equipe tirou a sorte grande, identificando sequências de aminoácidos inéditos, designados com a sigla SAP (polimorfismos de aminoácidos únicos).

O mais importante no contexto do estudo, identificado com a longa sigla AMBN(A253G) e associado à proteína ameloblastina, tem uma sequência de aminoácidos que não está presente em nenhum outro primata, vivo ou extinto, mas que se repete em todos os H. erectus (seis indivíduos) analisados no estudo. Portanto, trata-se de um indício forte de uma característica genética exclusiva da espécie desaparecida.

Essa informação poderia ser apenas uma prova do que é possível fazer, sem grandes repercussões para a história da evolução humana. No entanto, também no caso da ameloblastina, os pesquisadores identificaram outra variante de aminoácido que aparece em todos os H. erectus, mas também nos denisovanos, outra espécie arcaica de hominínio que sobreviveu até cerca de 40 mil anos atrás.

Ocorre que essa variante está presente também em alguns grupos humanos atuais, como filipinos, indianos e papuanos, em proporções que vão de 20% a 1% da população. Além disso, está claro que os denisovanos se miscigenaram com os primeiros H. sapiens que chegaram à Ásia. É bastante possível, portanto, que os denisovanos tenham se miscigenado com os últimos H. erectus, herdando deles a variante genética, e, mais tarde, tenham-na passado para os seres humanos de anatomia moderna, numa espécie de "telefone sem fio".

A probabilidade de que isso tenha ocorrido de fato aumenta quando se considera que o genoma denisovano, já "lido" em sua quase totalidade, parece carregar trechos de DNA conhecidos como "super-arcaicos", que teriam vindo de outro grupo. Com a nova pesquisa, o H. erectus se confirma como o grande candidato a legar essa herança genética. Mas só com mais estudos será possível corroborar a ideia.