SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Às cinco horas da manhã, a estudante Jad Ellen Vieira, 23, já está acordada para iniciar o seu dia. Aluna do nono semestre de engenharia de alimentos, ela divide o seu tempo entre os laboratórios da faculdade ?onde se dedica ao TCC (Trabalho de Conclusão de Curso)? e o estágio na empresa multinacional Bimbo. A rotina ilustra o momento em que a vida acadêmica e o trabalho coincidem.

O estágio está longe de ser um emprego focado puramente em bater metas. "O estágio tem o objetivo de desenvolver você dentro da sua formação", explica Jéssica Gondim, gerente de contratos da Companhia de Estágios. "Precisa fazer sentido o dia a dia dele na empresa com o que ele estuda na teoria."

Jad diz vivenciar isso diariamente. Um dos exemplos é quando os conceitos complexos de mecânica e estruturas de calhas e vigas que ela aprendeu nas salas de aula são, hoje, os fundamentais para que ela entenda os grandes projetos industriais dentro da fábrica.

A UNIVERSIDADE COMO TORRE DE COMANDO

O estágio não gera o tradicional vínculo empregatício e tem um limite legal de seis horas diárias, somando 30 horas semanais.

Para garantir o caráter educativo dessa experiência e não deixar que o aluno vire uma mão de obra barata, as instituições de ensino desempenham um papel de filtro. A universidade precisa validar se a vaga tem relação estrita com o curso e garantir, por exemplo, que o aluno tenha no mínimo uma hora de intervalo entre o fim do expediente na corporação e o início das aulas.

O professor Enzo Bissoli, professor de psicologia e coordenador de desenvolvimento discente e de carreira do Mackenzie, explica que a universidade atua como a "torre de comando" e o aluno é o piloto da sua própria carreira.

"Então a instituição tem que estar aqui: 'tem nuvem na frente, nós vamos contornar isso'", afirma Bissoli.

Com isso, cabe à instituição mapear e orientar o estudante que, por estar em formação, não pode ser tratado ou cobrado pelo mercado como um profissional sênior.

O PESO DA SOBREVIVÊNCIA FINANCEIRA E O ABANDONO ACADÊMICO

O planejamento pedagógico ideal frequentemente esbarra na realidade econômica do jovem. Bissoli ressalta que muitos estudantes procuram a primeira vaga não pelo desejo primário de um complemento prático do estudo, mas porque o estágio é a renda que vai conseguir fazê-lo pagar a graduação, o transporte, a alimentação e até os materiais.

Rafael Tatsch, gerente de atendimento do CIEE (Centro de Integração Empresa-Escola), afirma que, diante desse cenário, o valor da bolsa-auxílio muitas vezes se torna essencial para fechar as contas básicas da casa.

Diante do medo de perder essa renda, o estagiário tenta "abraçar o mundo", assumindo todos os projetos possíveis para impressionar os líderes em busca de uma efetivação futura, deixando o próprio curso de lado.

"Quando o estudante enfrenta dificuldade na aula e, em vez de buscar ajuda, foca apenas em atingir a nota e bater metas no estágio, ele adia soluções para o próximo semestre", explica Bissoli. "Isso gera uma bola de neve que mina a autoconfiança, fazendo-o incapaz de conciliar teoria e prática."

ESTRATÉGIAS DE COMO EQUILIBRAR AS ROTINAS

Para reverter esse quadro, uma das principais soluções é a comunicação. Gondim ressalta que o papel do estudante é ser transparente com a empresa e, quando necessário, pedir para renegociar prazos de relatórios durante as semanas de avaliações na universidade.

Para ela, essa atitude de comunicar a necessidade de renegociar prazos não é um atestado de fraqueza ou de preguiça, mas sim de responsabilidade com o estudo. "Está tudo bem às vezes a peteca cair um pouquinho de um lado", afirma a especialista.

Tatsch relembra que a própria legislação atua a favor do estudante. "Em época de prova, ele consegue reduzir a carga horária em até 50% mediante aviso ao gestor, garantindo o fôlego necessário para os estudos."

"Além disso, cuidar da parte do sono também é importante, assim como ter uma atividade de lazer, uma válvula de escape, algo que você faça bem para o corpo, para descarregar todo esse estresse do dia a dia de aula e trabalho", ressalta Tasch.

Para dar conta das duas frentes, a estagiária Jad Ellen estabeleceu regras durante a rotina. Ela utiliza um aplicativo de organização em conjunto com uma agenda física para equilibrar todas as tarefas.

Jad conta que não deixa de fazer exercícios físicos e de ter um sono muito regrado para evitar dores de cabeça e fadiga. "O que acontece na faculdade fica na faculdade. O que acontece no trabalho fica no trabalho."

Atualmente, as empresas têm valorizado cada vez mais as competências comportamentais do que a técnica no início de carreira.

Com base em pesquisas do setor, Tasch afirma que o mercado de trabalho busca estudantes com "aquele brilho no olhar de querer aprender e de se mostrar proativo perante os desafios".

Nesse contexto, conciliar estudos e estágio de forma estratégica e organizada é um diferencial. Os especialistas ressaltam que, nessa fase de formação, os erros são naturais e integram o processo de aprendizagem e desenvolvimento do estudante.

"Vá mesmo com medo. Nós estamos aqui para errar, aprender, levantar e seguir sempre em frente", sugere Jad.

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COMO CONCILIAR A ROTINA DE ESTUDO E ESTÁGIO

Com base nas dicas e recomendações dos especialistas, confira os principais pontos para conciliar a rotina de estudo e estágio:

Organize a rotina com ferramentas adequadas

Utilizar métodos de organização para gerenciar os prazos da faculdade e as demandas corporativas ajuda a conciliar o estudo e o estágio. A escolha pode variar desde agendas físicas até aplicativos digitais, como Notion, Google Calendar ou Trello.

Defina prioridades e evite abraçar o mundo

É preciso compreender que nem todas as tarefas têm o mesmo grau de urgência e que o foco principal deve continuar sendo a formação acadêmica. Fazer a leitura do que é prioridade máxima, do que pode ser negociado e do que pode ser deixado para outro momento é um sinal de maturidade.

Mantenha um diálogo aberto com a liderança

A comunicação transparente com o gestor é um passo essencial, especialmente durante as semanas de provas ou de entrega do TCC. Ao avisar com antecedência sobre o calendário da faculdade, o estudante pode negociar a entrega de projetos, combinar horários flexíveis ou até solicitar a redução da carga horária nos dias de avaliação.

Cuide da saúde física e mental

Ter noites de sono reguladas, uma boa alimentação e incluir exercícios físicos na semana garantem a disposição necessária para encarar o dia. Além disso, reserve períodos de lazer e tenha atividades de lazer, preferencialmente longe das telas; funciona como uma válvula de escape essencial para descarregar o estresse acumulado.

Reduza a cobrança excessiva por perfeição

É importante entender e respeitar o seu próprio ritmo de aprendizagem, aceitando que é humano e que, em alguns momentos, não dará conta de tudo. O estágio é um ambiente focado em aprendizado, por isso, os erros não devem ser paralisantes, mas sim etapas necessárias de evolução.