SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um estudo conseguiu mapear, pela primeira vez, a rota de tráfico de pangolins desde o local de captura na natureza até os mercados onde os animais foram vendidos.

Com uso de marcadores de genéticos, os pesquisadores associaram apreensões da polícia, espécimes depositados em museus e até escamas comercializadas ilegalmente na China a regiões específicas de origem, identificando as principais rotas do tráfico desses mamíferos.

O trabalho revelou dois grandes deslocamentos. Um deles envolve mercados locais de carne silvestre, abastecidos por animais capturados entre 8 e 180 quilômetros de seus habitats. O outro corresponde ao tráfico internacional, no qual pangolins vivos ou mortos percorrem até 20 mil km para atender principalmente o mercado ligado à medicina tradicional chinesa.

Em muitos casos, porém, essas rotas se sobrepõem, indicando que a caça local também pode alimentar o comércio internacional. Segundo o sul-africano Sean Heighton, à época pesquisador de pós-doutorado na Universidade de Toulouse (França) e primeiro autor do estudo, o mapeamento pode ajudar governos e autoridades a monitorar e combater o tráfico com mais precisão.

O artigo foi publicado no início do mês na revista científica PLOS Biology e é liderado por Philippe Gaubert, também da Universidade de Toulouse.

Com oito espécies descritas ?e uma nona ainda em processo de identificação?, o pangolim é considerado o mamífero mais traficado do mundo. Além do valor das escamas usadas na medicina tradicional asiática, sua carne é consumida tanto em vilarejos quanto em centros urbanos na África e Ásia.

Segundo Heighton, a inspiração para o estudo veio de um projeto anterior de Gaubert focado na caça de rinocerontes, no qual foi possível associar chifres apreendidos às carcaças dos animais por meio do DNA. "A diferença é que não temos a carcaça dos pangolins. Quando ele é caçado ilegalmente, praticamente todo o animal é utilizado", afirma.

A partir de pequenos marcadores de RNA capazes de identificar assinaturas específicas de cada espécie, os cientistas criaram um "mapa geográfico genético" dos pangolins. O diferencial do estudo, segundo os autores, está na capacidade de rastrear a origem dos animais usando amostras mínimas, inclusive materiais degradados ou preservados há mais de 150 anos em coleções de museus.

"O que tentamos desenvolver foi um banco de dados de referência em que, em vez de coordenadas de GPS, temos um DNA geolocalizado", explica Heighton.

DNA GEOLOCALIZADO

O estudo reuniu 803 amostras genéticas de três das espécies mais traficadas do mundo: o pangolim-arborícola (Phataginus tricuspis), encontrado na África Ocidental e Central; o pangolim-de-sunda (Manis javanica), da Malásia e Indonésia; e o pangolim-chinês (Manis pentadactyla).

Com isso, os pesquisadores identificaram regiões que funcionam como grandes centros de abastecimento do tráfico internacional (ou "hotspots"). No caso do pangolim-arborícola, o principal hotspot foi Camarões, na África Central. Embora a espécie seja amplamente consumida em mercados locais de carne silvestre, o país também aparece como rota para a Nigéria, de onde muitos animais seguem para o mercado asiático, frequentemente passando pela Europa.

"A rota do tráfico internacional é muito descentralizada. Os traficantes usam diferentes portos em países conhecidos pelo comércio ilegal de animais, mas o transporte geralmente começa por terra, atravessando fronteiras", afirma o pesquisador.

Já para o pangolim-de-sunda, o principal foco de tráfico foi identificado no sudoeste da ilha de Bornéu, enquanto o pangolim-chinês teve hotspots concentrados em áreas de Mianmar. Segundo os autores, essas regiões devem ser priorizadas em ações de fiscalização e conservação.

"O que isso significa é que saímos de uma situação em que as autoridades não sabiam exatamente onde a caça ilegal acontecia para um cenário em que conseguimos mapear essas áreas com precisão. Sabemos em quais florestas esses animais estão sendo caçados e temos uma boa ideia das rotas usadas até o consumidor final", resume Heighton.

A expectativa, diz o pesquisador, é expandir a metodologia para outras espécies ameaçadas e fortalecer a cooperação internacional no combate ao tráfico de fauna.

"Esse trabalho envolveu pesquisadores de mais de 15 países. Nossa esperança é conseguir mais investimento, inclusive dos governos onde esses animais ocorrem, além de agências de inteligência como a Interpol, para construir um consórcio e, eventualmente, uma ferramenta que cada governo possa implementar em seu país de origem", finaliza.