SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Viver no Crusp (Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo) é insalubre, relatam seus residentes. Infiltrações e mofo fazem companhia aos estudantes. Rachaduras e goteiras completam a vizinhança.
Melhorias na moradia fazem parte das reivindicações da greve discente que atinge a USP há mais de um mês.
A reportagem visitou o espaço na quarta-feira (13). Nos oito blocos ?do A1 ao G?, foi fácil encontrar problemas, mesmo com algumas reformas sendo feitas desde 2023.
Existe diversidade nas queixas dos estudantes, mas todas têm o mesmo motivo: falta de manutenção. Além dos danos na infraestrutura, como fendas em corredores nas quais cabem uma mão, há elevadores inoperantes e cozinhas que servem como depósito pela inutilidade dos fogões.
Também faltam extintores e mangueiras de incêndio.
As escadas de emergência também apresentam avarias, inclusive com partes faltando, impedindo sua chegada ao térreo. Vários apartamentos têm janelas quebradas ou com vidro trincado.
"Nós nos sentimos muito abandonados pela reitoria da USP", diz Giovana Oliveira, residente no Crusp e graduanda em química. "A moradia tem sido sucateada e abandonada."
Nos últimos anos, a AmorCrusp (Associação de Moradores do Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo) tem pressionado a reitoria a dar atenção ao conjunto, registrando casos de alagamento causados por chuvas, que levaram à evasão de alguns estudantes, e períodos prolongados de falta d'água.
O local também é alvo constante de debates sobre segurança. Há dois anos, a Folha publicou uma série de relatos de estupro dentro do conjunto. O problema, segundo moradores, segue sem resposta adequada da administração.
"Eu diria que [o Crusp] não é um lugar bom de morar. Não é salubre", diz Matheus Oliveira, estudante de filosofia. Ele lamente uma situação "tão difícil" na maior universidade da América Latina.
Em resposta às demandas apresentadas pelos estudantes durante a greve, a Prip (Pró-Reitoria de Inclusão e Pertencimento), responsável pelo conjunto, criou um grupo de trabalho para planejar obras e ações nos prédios para os próximos dez anos.
A USP afirma que a reforma dos blocos, em função de demandas emergenciais como infiltrações, está sendo feita de forma escalonada.
Sobre extintores e mangueiras, a instituição diz ter contrato com empresa responsável por manter todos os prédios dentro da norma, mas aponta vandalismo recorrente, com corte e roubo de lacres e peças metálicas.
"Recentemente foram feitas compras grandes de mangueiras e demais componentes, mas que não duraram por muito tempo", afirma a gestão.
A solução encontrada foi manter os equipamentos na zeladoria e conectá-los aos hidrantes apenas quando necessário.
Já a chegada de novas caixas de elevador está em processo de implementação, informa a USP.
O QUE É O CRUSP
O Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo existe desde 1964 e é a maior moradia estudantil do país. São cerca de 1.600 vagas distribuídas em oito blocos no campus do Butantã, na zona oeste da capital.
Nos blocos de A a G, cada apartamento é dividido por três estudantes; no bloco A1, por seis, todos com quartos individuais. Têm acesso ao conjunto apenas estudantes de graduação e pós-graduação enquadrados no Pafpe (Programa de Apoio à Permanência e Formação Estudantil), que seleciona por vulnerabilidade socioeconômica.
A demanda supera em muito a oferta. Em 2024, a Prip chegou a negar abrigo emergencial a 11 estudantes, alegando que havia 158 outros aguardando regularmente por uma vaga. Esses indivíduos desabrigados, muitas vezes, acabam sendo acolhidos irregularmente por moradores ou vivendo em condições precárias, como já ocorreu na ocupação do Cepeusp (Centro de Práticas Esportivas).
Por anos, o conjunto conviveu com moradores sem vínculo com a universidade. Em 2022, segundo levantamento da própria USP, apenas 67% das vagas eram ocupadas por estudantes regulares. No fim de 2024, esse índice subiu para 84,78%, com 117 moradores (9,1%) ainda em situação irregular.
Em 2024, a universidade tentou instalar grades para controle de acesso aos blocos. Moradores foram contrários e impediram os trabalhos.
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