SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Presa nesta quinta-feira (21) sob a suspeita de lavar dinheiro para o PCC (Primeiro Comando da Capital), a influenciadora e advogada Deolane Bezerra, 38, declarou à Receita Federal ter ganhado 7,5% do que recebeu em contas correntes ao longo de quatro anos, segundo investigação da polícia.
Foram R$ 7,6 milhões em créditos de 2018 a 2022, sendo que apenas R$ 577 mil foi relatados ao órgão de auditoria fiscal. Esses números constam do relatório final do inquérito que apurou um esquema de lavagem e dissimulação de valores envolvendo a facção criminosa.
A Polícia Civil diz ter identificado uma "complexa engrenagem financeira estruturada em torno da pessoa Deolane Bezerra", e a decisão que decretou a prisão preventiva (sem prazo) da influenciadora cita um padrão de vida "desproporcional a qualquer fonte de renda lícita apurada".
A defesa de Deolane disse nesta sexta (22) que ela é inocente e que "os fatos serão devidamente esclarecidos em momento oportuno". Afirmou ainda ter entrado com um habeas corpus contra a prisão da influenciadora e solicitado a mudança para o regime de prisão domiciliar.
A operação de quinta, conduzida também pelo Ministério Público, mirou ainda Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, familiares dele e outros suspeitos. O advogado de Marcola, Bruno Ferullo, disse em nota nesta sexta que seu cliente é inocente.
A investigação começou em 2019 e obteve duas grandes quebras de sigilo. A primeira delas de 2018 a 2022; a segunda, de 2022 a 2024. Ambas, segundo a polícia, revelam "um oceano de ilícitos de ordem financeira e fiscal, e em especial o branqueamento de capitais".
No caso de Deolane, afirma o relatório da Polícia Civil, a segunda quebra de sigilo mostrou "não apenas a continuidade, mas também uma assustadora intensificação da prática de atos ilícitos".
Enquanto os valores recebidos na pessoa física da influenciadora de 2018 e 2022 ficaram em R$ 7,6 milhões, aqueles obtidos de 2022 a 2024 somaram R$ 43 milhões. Quase metade disso vem de recursos não identificados, segundo a investigação.
O valor é muito maior se consideradas as empresas de Deolane. A Bezerra Publicidade, por exemplo, movimentou R$ 67 milhões no período da segunda quebra de sigilo.
Os indícios de lavagem de dinheiro, segundo a polícia, se dão também pelas diferenças nos valores que Deolane recebeu de fintechs entre um período e outro. No primeiro, a cifra não chegou a R$ 1 milhão; no segundo, foram R$ 30 milhões.
Trata-se, segundo a Polícia Civil, de "uma ruptura abrupta e incompatível com a evolução natural da atividade empresarial".
Algumas das fintechs têm inconsistências documentais e podem representar, ainda de acordo com a investigação, "estruturas de fachada ou controladas por pessoas interpostas para viabilizar a circulação de ativos de origem ainda não esclarecida".
Deolane estava até a manhã desta sexta-feira na Penitenciária Feminina de Santana, zona norte de São Paulo, mas foi transferida para a Penitenciária Feminina de Tupi paulista, no interior do estado.
A defesa da influenciadora, que é feita por seis advogados, diz que as medidas contra ela são desproporcionais.
"Esta banca de defesa seguirá cooperando tecnicamente com a Justiça para demonstrar a licitude de suas atividades na condição de advogada que é, confiando plenamente no discernimento, na razoabilidade e na imparcialidade do Poder Judiciário", diz a nota.
Na quinta, durante audiência de custódia, Deolane disse ter sido presa no exercício de sua função como advogada e que foi incluída na investigação por um valor que recebeu como profissional.
Sua defesa também disse à Justiça que ela tem direito ao regime domiciliar por ter uma filha de 9 anos e argumentou que este é um entendimento do STF (Supremo Tribunal Federal).
A corte garante o regime domiciliar a mulheres presas preventivamente cujos filhos tenham menos de 12 anos, benefício que pode ser afastado "com fundamento nas peculiaridades do caso concreto".
A decisão que autorizou a operação desta quinta bloqueou R$ 27 milhões em bens e valores em nome de Deolane ou de suas empresas. É o valor mais alto entre todas as medidas semelhantes decretadas pela Justiça.
Familiares dela também são citados na investigação.
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