SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A vila de Paranapiacaba vai passar por uma transformação visual a partir do segundo semestre. Um projeto vai restaurar 34 casas da vila inglesa, símbolo da industrialização paulista e atualmente um dos pontos turísticos mais conhecidos da Grande São Paulo.
Inaugurada em 1867 por iniciativa do barão de Mauá, Paranapiacaba foi erguida no meio de morros da serra do Mar para abrigar os funcionários da São Paulo Railway, empresa britânica que construiu e operou por décadas a ferrovia entre Santos e a capital paulista.
O projeto, que custará R$ 11,7 milhões, é uma parceria entre o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e a gestão do prefeito de Santo André, Gilvan Ferreira (Cidadania) ?Paranapiacaba faz parte do município do ABC Paulista. Todos os recursos serão oriundos do órgão federal de patrimônio histórico, e a prefeitura será responsável por viabilizar as obras.
A verba faz parte do Novo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), lançado pelo presidente Lula (PT) em 2023, que destinou R$ 771,8 milhões a projetos de preservação cultural. Outras 101 iniciativas foram selecionadas para captação de recursos.
A vila foi projetada no estilo da arquitetura inglesa do século 19, com casas de madeira pré-fabricadas e trazidas da Europa de navio. "A madeira é pinho-de-riga e as telhas foram produzidas em Marselha, na França. A casa vinha toda pronta. Era só encaixar as peças", diz Carlos Eduardo Palazzi, 57, arquiteto da prefeitura de Santo André e responsável pela restauração.
Desde 2002, todos os imóveis da vila pertencem a Santo André, que cobra um aluguel dos moradores e comerciantes, escolhidos por meio de licitações. Hoje, 750 pessoas vivem na vila.
Os 357 imóveis da parte histórica são tombados pelo Iphan e por órgãos de patrimônio municipal e estadual. Qualquer alteração, como pintura das paredes ou reforma no piso, precisa ser analisada e autorizada pela prefeitura.
O clima úmido da serra e a falta de manutenção degradaram as casas ao longo das décadas. Algumas têm pedaços da estrutura apodrecendo e buracos nas paredes e na cobertura. Em algumas residências vazias existe até uma pequena vegetação crescendo no telhado.
Segundo Palazzi, os buracos serão preenchidos com materiais mais novos, e a madeira original será tratada e preservada. As casas também serão repintadas na cor escolhida pelos ingleses, o vermelho goya.
"Preservar o patrimônio não é apenas cuidar do passado, é gerar desenvolvimento econômico e turístico. Paranapiacaba é um ativo estratégico para a cidade e precisa ser tratada como tal", afirma o prefeito.
Deyvesson Gusmão, presidente do Iphan, diz que Paranapiacaba é "um exemplo perfeito de como o patrimônio histórico fomenta o desenvolvimento, porque ele dinamiza o turismo e o comércio da região". O órgão planeja para os próximos meses um livro contando a história da restauração da vila inglesa.
Paranapiacaba foi comprada pela prefeitura de Santo André em 2002 por R$ 2,1 milhões junto à RFFSA (Rede Ferroviária Federal S/A), que nos anos 1960 herdou o controle da ferrovia da São Paulo Railway.
Na última década, outros edifícios foram restaurados com recursos federais e municipais, como o campo de futebol onde jogava o clube local, o Serrano, e o tradicional Cinema Lyra, que passou a receber um festival anual. Segundo o Iphan, R$ 45 milhões foram investidos pelo órgão na vila desde 2013.
O investimento público resultou na recente explosão do turismo, diz o subprefeito Fabio Picarelli, 56. A vila recebe anualmente cerca 250 mil pessoas. "Paranapiacaba ficou abandonada por décadas, mas virou um sucesso do turismo com uma programação cultural muito rica e diversa."
De fato, o cenário pacato se transforma toda sexta-feira. Em abril, o último Festival do Cambuci, por exemplo, recebeu 40 mil pessoas em um final de semana, segundo a prefeitura. No próximo final de semana, acontece a 21ª edição da Convenção das Bruxas, outro evento que costuma lotar as ruas e avenidas com nomes ingleses.
Para chegar ao vilarejo, é possível pegar um trem turístico da CPTM na estação Luz, no centro de São Paulo. Ele funciona apenas aos finais de semana e é preciso reservar uma vaga no site da companhia.
Fabio Picarelli, da prefeitura, explica que os ingleses construíram nove tipos de casas, com diferentes configurações. "Havia uma divisão até hierárquica. Os diretores e chefes tinham casas maiores", diz. As casas menores e geminadas eram destinadas a famílias de operários.
Em uma delas vive a recepcionista Mariana Lino da Silva, 33. Ela mora desde criança na avenida Fox, a principal de Paranapiacaba, mas terá de deixar sua casa enquanto acontece a restauração. Hoje, ela paga R$ 400 de aluguel pelo imóvel em frente ao Cinema Lyra.
"Estou com o coração apertado. Eu adoro morar aqui. Sou a favor da restauração, mas não gostaria de sair. Ainda não me disseram para onde vamos", diz. A prefeitura promete realocar a família em outra casa restaurada, próxima dali.
Na mesma avenida, o publicitário Paulo Riscala Madi, 60, e a psicóloga Elisângela Madi, 53, terão de sair temporariamente do café o Infinito Olhar, aberto pelo casal em 2018.
Eles se conheceram na vila em 2008. Decidiram se mudar para lá por conta do sossego, mas, com o tempo, investiram no pequeno café. Manter o imóvel em pé, no entanto, requer muito trabalho.
"Há muitas goteiras e umidade, o clima aqui é cruel para uma vila inglesa. Não é fácil cuidar de uma casa de madeira de 160 anos", diz.
