SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - O avanço do El Niño já colocou autoridades em alerta no Brasil, especialmente na região Sul. O governo de Santa Catarina, por exemplo, decretou estado de alerta climático por 180 dias diante do risco de enchentes, deslizamentos e temporais associados ao fenômeno climático.
Meteorologistas apontam que o principal impacto esperado no país é o aumento das chuvas no Sul. Em contrapartida, regiões como Nordeste e parte da Amazônia podem enfrentar redução das precipitações e risco maior de seca.
FENÔMENO AQUECE O PACÍFICO E ALTERA O CLIMA GLOBAL
O El Niño muda a circulação da atmosfera em várias partes do planeta. Segundo a meteorologista e pesquisadora da Unicamp Ana Maria Ávila, o fenômeno ocorre quando há um aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial, provocado por alterações nos ventos que atuam sobre a região.
Esse aquecimento forma uma grande área de águas quentes no Pacífico. A mudança interfere na formação de nuvens e no comportamento das chuvas em diferentes continentes, alterando padrões climáticos considerados normais.
O El Niño contribui para o aumento do calor em diferentes partes do planeta. "Há uma tendência de média global das temperaturas mais altas. Então, o calor é uma consequência também do El Niño", explica a pesquisadora.
O nome "El Niño" surgiu entre pescadores da costa do Peru. Eles perceberam que, próximo ao Natal, as águas mais quentes reduziam a quantidade de peixes disponíveis na região ?daí a referência ao "Menino Jesus".
SUL DEVE TER MAIS CHUVA E RISCO DE TEMPORAIS
O principal impacto esperado no Brasil está concentrado na região Sul. Historicamente, anos de El Niño costumam registrar aumento das chuvas em estados como Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná.
As frentes frias tendem a ficar mais estacionadas sobre o Sul do país. Isso favorece períodos mais longos de chuva e aumenta o potencial para temporais e acumulados elevados.
A combinação entre calor, umidade e frentes frias intensifica o risco de eventos extremos. Segundo Ávila, correntes de umidade vindas da Amazônia ?os chamados "rios voadores"? também ajudam a alimentar sistemas de chuva na região.
A primavera costuma ser o período mais crítico no primeiro ano do fenômeno. A meteorologista explica que os maiores impactos normalmente aparecem entre a primavera do ano de formação do El Niño e o outono do ano seguinte, quando pode ocorrer um novo pico de instabilidades.
O aumento das chuvas também preocupa pela possibilidade de enchentes e deslizamentos. O governo catarinense prevê, inclusive, gatilhos automáticos para decretação de emergência em casos de chuva extrema, interrupção de serviços e desastres associados ao clima.
NORDESTE E AMAZÔNIA PODEM ENFRENTAR SECA
O El Niño costuma provocar efeitos opostos em outras regiões do país. Enquanto o Sul registra tendência de chuva acima da média, áreas do Nordeste frequentemente enfrentam redução das precipitações.
O risco de seca aumenta principalmente no Nordeste e no leste da Amazônia. A diminuição das chuvas pode afetar reservatórios, agricultura e abastecimento de água em algumas áreas.
O Sudeste e o Centro-Oeste tendem a registrar temperaturas mais altas. O aquecimento das águas do Pacífico aumenta a evaporação e contribui para elevar a temperatura média do ar em várias regiões brasileiras.
Os impactos também podem atingir a agricultura. No Sul, o excesso de chuva preocupa produtores justamente durante o período de plantio da safra primavera-verão.
INTENSIDADE DO FENÔMENO AINDA TRAZ INCERTEZAS
Meteorologistas afirmam que ainda é cedo para cravar a força do fenômeno. Apesar da alta probabilidade de formação do El Niño, os modelos climáticos ainda apresentam incertezas sobre sua intensidade.
O termo "Super El Niño" não significa automaticamente uma tragédia climática. Ávila ressalta que a intensidade do fenômeno não determina, sozinha, a gravidade dos impactos registrados em cada país ou região.
Fenômenos climáticos paralelos também influenciam os efeitos no Brasil. Condições nos oceanos Atlântico Sul e Atlântico Norte, por exemplo, podem reforçar ou reduzir os impactos do El Niño sobre chuvas e temperaturas.
Eventos extremos continuam sendo tratados como possibilidade, não como certeza. A meteorologista lembra que já houve anos de El Niño com impactos moderados, assim como períodos sem o fenômeno que também registraram tempestades severas no Sul do país.
