SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O número de homicídios consumados e ao mesmo tempo não registrados nas estatísticas oficiais cresceu 88% e chegou a pouco mais de 7.000 em 2024, praticamente o dobro dos 3.755 estimados no ano anterior.

Os dados constam da mais nova edição do Atlas da Violência, estudo do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgado nesta terça-feira (26).

Os assassinatos não aparecem nos números oficiais por falhas ou problemas na comunicação entre a autoridade policial e o órgão de saúde que atesta a morte.

Se não é possível identificar a causa da morte de uma pessoa e a polícia também não consegue fazê-lo, o caso acaba registrado como morte violenta por causa indeterminada.

O Atlas, então, analisa diferentes informações do registro dessas mortes para definir, a partir de determinados padrões, quantas delas se referem efetivamente a um homicídio e quantas, não.

Em 2024, concluiu a pesquisa, a quantidade de assassinatos fora dos registros públicos chegou a 7.083. Em termos de estimativa, isso significa que foram 49,6 mil homicídios naquele ano ?oficialmente, os dados apontam para 42,5 mil.

É um cenário de alerta, diz o estudo, porque contraria a queda de homicídios continuamente observada nas últimas décadas pelos indicadores oficiais.

Nesse sentido, diz o Atlas, trata-se de "uma fotografia mais preocupante do que aquela sugerida pelos registros brutos".

O aumento na subnotificação não se dá de maneira uniforme em todo o território nacional e ocorre principalmente para determinados estados.

Segundo o relatório da pesquisa, Minas Gerais foi quem mais registrou aumento nos homicídios estimados entre 2023 e 2024. Saiu de 3.153 no primeiro ano da análise para 3.949 no seguinte. Em termos percentuais, são 25% a mais.

A segunda maior alta nos homicídios estimados (24,2%) está no Ceará, que enfrenta uma onda de expansão do crime organizado com facções que disputam entre si determinados territórios ?há casos em que comunidades inteiras são abandonadas.

São Paulo vem logo na sequência, com alta de 10,2% nos assassinatos estimados em 2024 na comparação com o ano anterior.

A mudança impactou diretamente a taxa de homicídios estimados para cada 100 mil habitantes nas três unidades federativas. Em Minas, por exemplo, o indicador cresceu 25%, de 14,8 para 18,6, embora o estado ainda mantenha o quinto menor indicador.

No Ceará foram 23,8% e em São Paulo, que apresenta a terceira menor taxa de homicídios segundo o Atlas da Violência, 10,3%

As maiores taxas estão nos estados do Amapá, Ceará, Bahia, Alagoas e Pernambuco. As menores, por sua vez, em Santa Catarina, Distrito Federal, São Paulo e Rio Grande do Sul.

Metade dos homicídios estimados para 2024 está concentrada em apenas 99 municípios, o que segundo o Atlas mostra que "a violência letal no país está longe de se distribuir uniformemente pelo território".

As capitais mais violentas estão em estados do Norte ou Nordeste, mas o Atlas diz que "os dados de 2024 trazem um elemento adicional relevante: o peso dos homicídios ocultos em algumas do centro-sul".

Em São Paulo, que em janeiro celebrou queda de 26% nos homicídios dolosos na comparação com o mesmo período do ano anterior, foram nada menos do que 1.539 casos subnotificados, segundo o Atlas da Violência. Em Belo Horizonte, por sua vez, 441.

O crescimento na subnotificação de homicídios ocorre ao mesmo tempo em que o país vive um aumento na sensação de insegurança entre a população.

Pesquisa Datafolha encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e divulgada em maio mostrou que 41% dos brasileiros reconhecem a presença do crime organizado no bairro onde moram, e 35% deles dizem que o fator influencia muito a rotina na região de suas respectivas residências.

Mas o medo da violência, afirma o Atlas, está mais relacionado ao aumento na incidência de crimes patrimoniais nas ruas ou na internet ?a mesma Datafolha mostrou que 40% dos brasileiros foram vítimas de algum crime desse tipo nos últimos 12 meses.

"Enquanto o número de roubos reportados à polícia caiu à metade, os estelionatos (e principalmente os estelionatos virtuais) multiplicaram mais de cinco vezes", diz a pesquisa.

"A mudança do modus operandi do crime contra o patrimônio e do seu espaço de atuação surpreendeu as autoridades, que não estavam preparadas para enfrentar adequadamente os novos desafios, ao mesmo tempo em que contribuiu para aumentar a sensação de insegurança", acrescenta.