SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O Brasil não deve alcançar a maioria das metas para controlar casos de doenças crônicas não transmissíveis até 2030. A conclusão é de estudo da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) que será publicado na edição de agosto da revista científica The Lancet Regional Health Americas.

Enquanto tabagismo e consumo de bebidas açucaradas estão em queda, números relativos a obesidade, diabetes, hipertensão e consumo abusivo de álcool caminham na direção oposta e devem piorar até o fim da década.

Os pesquisadores projetam que, em quatro anos, quase um terço dos brasileiros terá obesidade; mais de 1 a cada 10 pessoas conviverão com diabetes; e mais de 1 em cada 4 terão hipertensão. O consumo abusivo de álcool deve passar de 18,8% para 21,3% até 2030, com o maior avanço entre as mulheres.

As doenças crônicas não transmissíveis respondem por mais de 54% dos óbitos anuais no Brasil. Quase 40% dessas mortes ocorrem entre os 30 e os 69 anos de idade e são consideradas prematuras, segundo o estudo.

Diabetes, doenças cardiovasculares, diferentes tipos de câncer e doenças respiratórias estão entre as principais causas de morte. Além de matar, essas doenças de longa duração reduzem a qualidade de vida dos pacientes e implicam gastos contínuos com medicação e acompanhamento, diz Jacqueline Wahrhaftig, nutricionista, mestre em saúde pública e autora principal do estudo.

Em 2021, o Ministério da Saúde lançou o Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento das Doenças Crônicas e Agravos Não Transmissíveis, com metas a serem atingidas até 2030.

O estudo analisou dados do Vigitel, pesquisa telefônica anual do Ministério da Saúde, de 643 mil adultos nas 26 capitais e no Distrito Federal entre 2009 e 2023. O objetivo era avaliar se o país está no caminho certo para cumprir as metas.

As projeções mais preocupantes, segundo os pesquisadores, são aquelas relacionadas à obesidade e aos alimentos ultraprocessados.

A meta do plano era apenas conter o avanço da obesidade, sem reduzi-la. Ainda assim, a projeção aponta que quase um terço da população das capitais estará obesa em 2030, ante 20,3% em 2019.

De acordo com Wahrhaftig, nenhum país no mundo conseguiu reverter a tendência de crescimento da obesidade em nível populacional. Associada a ela, a prevalência de diabetes deve crescer quase 50% até 2030.

Embora o plano não inclua metas para ultraprocessados como categoria, o estudo aponta o consumo desses alimentos como um dos principais fatores por trás da epidemia de obesidade, diz Leandro Rezende, coordenador do Núcleo de Pesquisa em Epidemiologia de Doenças Crônicas da Unifesp e um dos autores do estudo.

As projeções não são um retrato inevitável do futuro, diz Rezende. "A gente faz projeções para que a gente esteja errado no futuro, para que intervenções sejam feitas até lá para que o cenário mude."

Apesar de o Brasil ter um guia alimentar respeitado mundialmente que aponta os problemas dos ultraprocessados, as políticas públicas não conseguiram avançar nessa direção, ele acrescenta. A tributação sobre ultraprocessados prevista na reforma tributária ficou restrita a refrigerantes e com alíquota insuficiente para gerar mudança real no consumo, segundo o pesquisador.

O consumo regular de refrigerantes e sucos artificiais, por outro lado, deve despencar para 3,2% em 2030 ?cenário muito melhor que o da meta de 10,5%.

Nesta semana, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, propôs à OMS (Organização Mundial da Saúde) uma regulamentação global para publicidade e venda de ultraprocessados.

O consumo abusivo de álcool também segue em alta, puxado sobretudo pelas mulheres. Entre 2009 e 2023, a proporção de mulheres que relataram episódios de consumo excessivo subiu 51%.

Segundo Rezende, a indústria tem usado o debate sobre liberdade feminina para conquistar esse público. "Faz parte da estratégia atingir fatias de mercado que ainda não foram conquistadas adequadamente."

Entre os avanços, o tabagismo deve cair de 9,8% em 2019 para cerca de 4,7% em 2030, superando a meta. O recuo reflete décadas de políticas consistentes, avalia o pesquisador. "Parece normal as pessoas fumarem menos hoje, mas isso é uma conquista."

O Ministério da Saúde atribui o resultado a políticas reconhecidas pela OMS, como proibição de propaganda e criação de ambientes livres de fumaça. Em 2024, porém, o Vigitel registrou pela primeira vez um aumento na prevalência de tabagismo em toda sua série histórica, iniciada em 2006.

Os pesquisadores associam o dado ao avanço dos cigarros eletrônicos. Para Rezende, é um sinal de alerta sobre a necessidade de reforçar as políticas de controle do tabaco, incluindo a regulação de novos produtos.

Em um caminho positivo, a prática de atividade física cresceu, embora a projeção indique que apenas metade da meta prevista para 2030 será atingida. A baixa adesão masculina puxa o índice para baixo.

O consumo de frutas e hortaliças permanece longe dos objetivos. Em 2030, 75,5% dos adultos nas capitais ainda comerão menos vegetais do que o mínimo recomendado.

O problema central não é de comportamento individual, avalia Wahrhaftig. O tabagismo, por exemplo, caiu porque houve políticas consistentes ao longo do tempo. "Para o álcool, para os ultraprocessados, para frutas e hortaliças e para a obesidade, ainda falta uma tributação mais adequada, uma rotulagem mais adequada, políticas que conversem entre si."

O Ministério da Saúde afirma que monitora continuamente os hábitos da população e destaca iniciativas em curso, entre elas o programa Viva Mais Brasil, com investimento de R$ 340 milhões em políticas para a prática de atividade física, e a retomada do programa Academia da Saúde, com 1.775 unidades ativas.

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