CURAÇÁ, BA (FOLHAPRESS) - Uma operação conjunta entre o ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) e a Polícia Federal retirou 69 ararinhas-azuis de um criadouro particular em Curaçá, sertão baiano, e vai transferi-las para um centro na Univasf (Universidade Federal do Vale do São Francisco), em Petrolina (PE). O objetivo é evitar que as aves sejam contaminadas pelo circovírus, causador da doença do bico e das penas dos psitacídeos (família de aves que inclui araras, papagaios e periquitos), que já atingiu ao menos 34 aves no local.

Realizada sem aviso prévio durante a manhã desta quarta (27), a ação foi planejada e liderada pelo ICMBio, órgão vinculado ao Ministério do Meio Ambiente, e teve o apoio do Inema (Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos, do governo da Bahia) e do Cemafauna (Centro de Conservação e Manejo da Fauna da Caatinga), da Univasf. A PF cumpriu mandados de busca e apreensão, autorizados pela Justiça Federal em Juazeiro (BA), no Criadouro Ararinha-azul na vizinha fazenda Concórdia.

A transferência ocorre quase seis meses depois de a PF deflagrar, no início de dezembro, uma operação para investigar um surto de circovírus no local. Batizada de Blue Hope (esperança azul), teve agora sua segunda fase.

No ano passado, vistorias técnicas do ICMBio em parceria com o Inema e a PF constataram que as instalações em Curaçá não cumpriam os protocolos de biossegurança para impedir a disseminação do vírus ?como a limpeza e a desinfecção diária das instalações e utensílios e uso de equipamentos de proteção individual pelos funcionários.

Por esse motivo, o criadouro foi inicialmente notificado e, segundo o ICMBio, após continuar descumprindo os protocolos, foi multado em R$ 1,8 milhão (R$ 1,3 milhão a empresa que o administra e R$ 500 mil o seu dono, Ugo Vercillo).

Nesta quarta, só havia funcionários do Criadouro Ararinha-azul no local. O dono, Ugo Vercillo, não estava. O responsável na ausência dele é o australiano Tyson James Chapman, que não quis dar declarações ?disse apenas que avisou a Vercillo sobre a operação e que foi orientado por ele a cumprir o mandado.

Procurado, Vercillo não respondeu até a publicação deste texto. Em nota, o criadouro afirmou ter recebido com "perplexidade a ação realizada nesta data pelas autoridades ambientais".

O criadouro declarou ter informado aos órgãos competentes, em 31 de março deste ano, que o resultado de exames mais recentes em aves deu negativo para circovírus. Além disso, "todo o plantel apresentava resultados negativos".

Ainda segundo a nota, nenhuma ave morreu desde o início das medidas para conter o circovírus na região e houve a adoção de "protocolos de biossegurança, manejo e bem-estar animal, contando com estrutura adequada e equipe técnica especializada".

"O Criadouro Ararinha-azul reafirma seu compromisso com a biossegurança, a transparência técnica, a saúde das aves e a preservação da espécie, colocando-se à disposição para colaborar com as autoridades competentes na condução responsável das medidas necessárias", afirmou.

COMO FOI A OPERAÇÃO

A reportagem da Folha acompanhou a operação em Curaçá. Comandada pela bióloga Cláudia Sacramento, chefe da Coordenação de Emergências Climáticas e Epizootias do ICMBio ?setor responsável pela emergência sanitária do circovírus?, uma equipe de 31 pessoas chegou ao Criadouro Ararinha-azul às 6h, precedido por viaturas da PF.

O grupo incluiu veterinárias e veterinários (incluindo três peritos criminais da PF especializados na área), biólogas e tratadores.

Endêmica da caatinga brasileira, a ararinha-azul (Cyanopsitta spixii) é uma das aves mais raras do mundo. No ano 2000, foi considerada extinta da natureza, e desde então seguidas iniciativas vêm tentando, sem êxito, reintroduzir a espécie em seu habitat. Na caatinga baiana, há duas unidades de conservação com esse propósito.

Junto com as 69 ararinhas, estão sendo transferidas duas maracanãs, araras de plumagem verde, um pouco menor que sua parente mais rara e cujos espécimes nos últimos anos participaram dos programas de reintrodução da ararinha-azul com a função de ensinar às aves de cativeiro os hábitos da caatinga.

Restaram no criadouro de Curaçá 34 exemplares de ararinhas-azuis já comprovadamente contaminadas pelo circovírus. As aves transferidas serão testadas nas próximas semanas ?não tinham o vírus no final do ano passado, mas não é certo que continuem livres dele. As 69 ararinhas-azuis e duas maracanãs serão alojadas, na tarde desta quarta, num espaço de quarentena do Cemafauna adaptado para recebê-las, no campus da Univasf, em Petrolina, a 100 km de Curaçá (e 150 km do criadouro, que fica na zona rural).

A ideia é que o programa de reintrodução na natureza seja retomado somente com aves livres do vírus, causador de uma enfermidade que não tem cura, é crônica e pode matar as aves. Os principais sintomas são o embranquecimento das penas e deformidades no bico, entre outros. O vírus não é perigoso para humanos ou para aves de produção, como galinhas, mas é extremamente contagioso entre psitacídeos.

Ex-servidor do próprio ICMBio, Ugo Vercillo é o responsável pelo viveiro particular e pela fazenda Concórdia. Ele é ligado à ONG alemã ACTP (Associação para a Conservação de Papagaios Ameaçados, em inglês), que chegou a ter 90% de todas as ararinhas-azuis no mundo.

Em 2016, o ICMBio iniciou uma parceria com a ACTP para reprodução e reintrodução da espécie na natureza, reforçada com a assinatura de um acordo de cooperação técnica em 2019. Ao tomar conhecimento de que a ONG alemã vendeu espécimes de ararinha-azul a criadores privados sem seu consentimento, o órgão do governo brasileiro anunciou, em 2024, que não renovaria o acordo.

Em junho do ano passado,uma investigação da Folha em conjunto com o jornal alemão Süddeutsche Zeitung (SZ) revelou que a ACTP fez transações milionárias com ararinhas-azuis. A ONG negou irregularidade e disse ter como objetivo a conservação da espécie.

Após a saída da ACTP de cena, Ugo Vercillo assumiu as atividades do criadouro, que mudou seu nome inicialmente para BlueSky Caatinga (braço brasileiro de outra ONG alemã), antes de trocar novamente para Criadouro Ararinha-azul.

Segundo o ICMBio, iniciativas como as da ACT ou da empresa que a sucedeu devem seguir os instrumentos oficiais de implementação das políticas públicas de conservação da biodiversidade no Brasil, como o Plano de Ação Nacional para a Conservação da Ararinha-azul, o Plano de Ação Nacional para a Conservação das Aves da Caatinga e o Programa de Manejo Populacional da Ararinha-azul, todos coordenados pelo instituto.

O repórter viajou a convite do ICMBio