RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - O quarto dia do julgamento do ex-vereador Jairinho e de Monique Medeiros pela morte do menino Henry Borel, ocorrida em março de 2021, foi marcado por relatos de violência atribuídos ao ex-parlamentar feitos por ex-namoradas e filhos delas.

A primeira a depor foi Kaylane de Oliveira Duarte Pereira,18, filha de Natasha de Oliveira Machado, que se relacionou com Jairinho entre 2010 e 2013. Emocionada, a jovem afirmou ter sofrido agressões frequentes durante a infância.

Segundo ela, o ex-vereador dava "socos na cabeça", apertava seus braços com força e chegou a afundá-la em uma piscina.

"A gente ia para esses lugares, ele me dava socos na cabeça, apertava meu braço muito forte. Teve um dia em que ele me afundava na piscina até eu bater no chão", relatou.

Kaylane contou ainda que, em uma das agressões, precisou usar gesso e foi orientada por Jairinho a mentir sobre o ferimento. Ela afirmou sentir culpa pela morte de Henry por nunca ter denunciado o que sofreu.

"Se eu tivesse falado, talvez não chegasse ao que chegou", declarou. A jovem disse que só revelou os episódios de violência anos depois, após o fim do relacionamento entre a mãe e Jairinho.

Em seguida, Natasha confirmou o relato da filha e afirmou que nunca denunciou o caso por medo da influência política de Jairinho e do pai dele, o coronel Jairo, em Bangu. "Imaginei que não iria adiantar denunciar na delegacia", afirmou.

Ela também relatou ter sido perseguida pelo ex-vereador após o término do relacionamento. "Ele ficava escondido na esquina da minha casa. Já rasgou minha roupa e dizia que ninguém mais iria me assumir", contou.

Natasha afirmou ainda acreditar que Jairinho tenha sido responsável pelo vazamento de uma foto íntima sua.

Durante a audiência, a defesa questionou a relação de Natasha com Leniel Borel, pai de Henry, e insinuou influência nos depoimentos. Ela negou qualquer orientação e afirmou que Jairinho chegou a procurar familiares para obter informações sobre ela e Kaylane.

Já durante a tarde, a ex-namorada Débora Mello Saraiva afirmou que tanto ela quanto o filho também foram vítimas de violência praticada por Jairinho. Segundo ela, o relacionamento com o ex-vereador durou de 2014 a 2020, entre idas e vindas.

"Eu tenho medo e raiva pelo que ele fez comigo e pelo meu filho", afirmou.

Débora contou que o filho revelou ter sido agredido após assistir a uma reportagem sobre o caso Henry.

"Ele veio pra mim e falou: ?Mamãe, você sabe o que o Jairinho fez comigo??.

Ele disse que Jairinho tinha pisado na barriguinha dele e ficou rindo", relatou.

Ainda nesse dia, Jairinho teria levado a criança ao estacionamento do prédio, colocado um saco plástico em sua cabeça e circulado com a criança dentro do carro. O menino tinha quase 3 anos.

Antes dessa noite, a criança já tinha fraturado o fêmur após estar sozinho com Jairinho, mas ela achava que havia sido um acidente.

A ex-namorada também acusou Jairinho de tê-la dopado e estuprado na mesma noite em que agrediu o filho.

"Ele me dopou nesse dia. Foi o mesmo dia que ele me estuprou. Eu acordei com dor. Ele riu, admitiu, e disse que eu gritei igual a uma cachorra e urinei a cama toda", declarou. Segundo Débora, ela não tinha consciência de que se tratava de um estupro naquela época.

Ainda de acordo com a ex-namorada, ao amanhecer daquele dia, o filho tentou acordá-la, mas ela não reagia. Ao acordar, Débora disse que seus dois filhos estavam no apartamento sozinhos.

Após esse episódio, ela continuou a se relacionar com Jairinho, mas o afastou das crianças.

Ela ainda descreveu episódios de agressões físicas durante o relacionamento, afirmando ter sofrido chutes, mordidas, enforcamento e ter sido arrastada pelo pescoço.

Durante o depoimento de Débora, a juíza suspeitou que uma advogada estava realizando anotações dos jurados, e a expulsou do plenário. A advogada afirmou que não tinha ligação com a bancada dos réus e que se sentiu humilhada.

O quarto dia também foi marcado pelo retorno do advogado Fabiano Lopes, que infartou no sábado (23). Ele disse que está somente com 33% da capacidade de bombeamento sanguíneo no corpo, mas que uma equipe médica o acompanha no plenário.

Lopes disse que retornou por ser o advogado líder da defesa e conhecer bem os processos das agressões das ex-namoradas.

O júri desta semana acontece após uma primeira tentativa de julgamento fracassar, em março deste ano. Na ocasião, os advogados de Jairinho abandonaram o plenário do 2º Tribunal do Júri após terem negados pedidos para acesso ampliado a provas digitais e realização de novas perícias.

Segundo a denúncia da promotoria, Henry morreu na madrugada de 8 de março de 2021, no apartamento onde morava com a mãe e Jairinho, na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio.

A acusação sustenta que o ex-vereador provocou lesões corporais fatais por meio de agressões contundentes e que Monique, na condição de mãe e responsável legal da criança, teria se omitido diante da violência, contribuindo para a consumação do crime.

No primeiro dia de sessão, o advogado de Jairinho, Rodrigo Faucz, afirmou que esperava um julgamento justo. "Baseado exclusivamente nas provas do processo e não no que a acusação tem divulgado nos últimos cinco anos. De qualquer maneira, esse julgamento ocorrerá, pois a defesa respeita as decisões judiciais. No entanto, uma vez que não tivemos acesso a todas as provas, esse julgamento certamente será anulado caso o Jairo seja condenado", disse na ocasião.