BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Desde os ataques dos Estados Unidos e de Israel sobre o Irã e a consequente alta do petróleo, cresceu o engajamento de negociadores para avançar na elaboração de um plano para reduzir a dependência energética mundial dos combustíveis fósseis.
O cenário foi descrito à Folha por diplomatas envolvidos nas tratativas do chamado mapa do caminho, documento idealizado pela presidência brasileira da COP30, a conferência sobre mudança climática das Nações Unidas, e previsto para ser entregue neste ano.
A Guerra no Irã causou o fechamento do estreito de Hormuz, por onde passa 80% do petróleo mundial, e fez o preço do combustível fóssil explodir em todo o mundo.
A consequência, dizem esses diplomatas, é que aumentou a preocupação dos países com a dependência dessa fonte energética e, consequentemente, o interesse pela transição para outras alternativas, sustentáveis, o que impulsionou os trabalhos para o mapa do caminho.
Esses negociadores afirmam que, até aqui, os EUA se abstiveram totalmente das conversas, mas que a estratégia vem sendo ?como em outras ocasiões? driblar a resistência do governo de Donald Trump por meio do diálogo com estados, instituições setoriais e científicas e empresas privadas.
Para os diplomatas, tanto o peso da guerra como a discrepância da visão trumpista ficaram escancarados durante uma conferência mundial de energia realizada em Houston, no Texas, no fim de março deste ano.
No evento, até altos executivos da indústria automobilística dos EUA discursaram sobre a urgência gerada pelo conflito e defenderam soluções como carros elétricos, enquanto integrantes do governo Trump adotaram tom pró-petróleo.
A equipe comandada pelo embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP30, reuniu propostas de entidades e de países e elaborou a estrutura do plano, que deve prever um escalonamento entre países e setores da economia para efetivar a transição para reduzir a dependência dos combustíveis fósseis.
Seu objetivo não será zerar a produção ou uso dos fósseis, mas atingir a neutralidade de carbono ?em outras palavras, fazer com que as emissões de gases de efeito estufa no mundo não superem a quantidade que é absorvida.
Segundo os diplomatas ouvidos pela reportagem, os biocombustíveis devem ter um papel central nesse processo.
A ideia, ao menos por enquanto, é que eles sejam enquadrados como insumo para substituir a gasolina e o diesel, sobretudo nos casos dos combustíveis de aviação e naval, áreas na qual os motores à bateria ainda estão longe de dar conta da autonomia necessária para atravessar um oceano, por exemplo.
Esse ponto, porém, deve sofrer resistência de países europeus, que historicamente têm um mercado fechado para a entrada do etanol e do biodiesel produzido no Brasil ou outros países ?o que corresponde à maior parte da produção mundial desses combustíveis.
Para transporte urbano, por outro lado, o entendimento preliminar dos negociadores é que os veículos elétricos podem dar conta de suprir em grande parte a necessidade dos moradores de cidades.
O gás natural, por sua vez, que também é um combustível fóssil, deve ser enquadrado como uma solução de transição, por emitir menos carbono que o petróleo e o carvão.
Uma versão completa do mapa do caminho dos combustíveis fósseis está programada para ser apresentada em setembro, durante a Assembleia-Geral da ONU, em Nova York.
Na ocasião, a equipe da COP30 pretende divulgar outro mapa do caminho, o que traça a rota para zerar o desmatamento florestal em todo o mundo, e que caminha paralelamente a esse.
Durante a conferência de Belém, em 2025, o tema do fim dos combustíveis fósseis tomou proporção inédita, impulsionado pelos discursos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e gerou tensão entre países favoráveis e contrários à ideia.
O embate entre os dois grupos chegou a ameaçar implodir as negociações. Para evitar isso, a presidência brasileira decidiu retirar o mapa do caminho do documento final da COP30 (que precisava do voto de todas as partes para ser aprovado), mas elaborá-lo de como iniciativa própria.
Por isso, a adesão ao plano não é obrigatória, mas voluntária.
Em abril deste ano, quase 60 países ?entre eles o Brasil? participaram da primeira Conferência para a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis, em Santa Marta (Colômbia), uma aliança de nações para tentar atingir esse objetivo.
China, Estados Unidos e Rússia, os principais países emissores de CO? do mundo, não participaram.
A próxima grande rodada de negociações sobre o mapa do caminho deve acontecer em Bonn, na Alemanha, na conferência preparatória para a COP31, que será no final do ano, na Turquia.
O escopo do mapa é limitado ao sistema energético, não englobando, por exemplo, a indústria petroquímica.
O documento traçará a rota que deve ser percorrida nos próximos dez anos para que o mundo consiga zerar a pegada de carbono até 2050.
Esse processo será escalonado, ou seja, vai propor quais países ou setores devem primeiro reduzir suas dependências dos fósseis, e quais iniciariam esse processo depois.
Os critérios para isso, porém, continuam em debate.
Entre as possibilidades está, por exemplo, demandar que a redução deve partir primeiro dos países que menos dependem dos fósseis em sua economia e, depois, os que mais.
Outra é reduzir antes a produção de petróleo com mais teor de carbono em sua composição química e gradualmente ir eliminando os com percentual poluente menor.
Sob outro ângulo, está na mesa a proposta semelhante, mas que em vez de ter como critério o percentual nocivo do próprio fóssil leva em consideração a poluição produzida pela indústria petroleira ?o que beneficiaria países e empresas que empregam energia limpa em suas cadeias produtivas, por exemplo.
Segundo a estrutura prévia elaborada pela equipe da COP30, o mapa do caminho deve ter entre 45 e 60 páginas, divididas em três partes.
O documento vai desenhar qual o papel da indústria de óleo e gás nesse processo, mostrar soluções para diversificar fontes de energia e renda e ilustrar a necessidade de uma reorganização fiscal e de mitigar os impactos sociais.
Também deve elencar instrumentos econômicos e de mercado que devem ser aplicados nessa transição, como a necessidade de uma reforma na estrutura tributária, o incentivo a atividades de baixo carbono e a construção de mecanismos financeiros.
