SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Mais de dois anos após terem as casas demolidas pela Prefeitura de São Paulo, famílias cadastradas para receber apartamentos no Residencial Perus II afirmam viver em situação de incerteza, sem previsão oficial para acessar as moradias prometidas pela Cohab.

O empreendimento, localizado na zona norte da capital, tem 988 unidades habitacionais distribuídas em quatro torres e tinha entrega prevista inicialmente para 2025.

Após um primeiro adiamento, a previsão passou para março de 2026. Agora, moradores afirmam que não receberam novas datas nem esclarecimentos sobre quando poderão receber as chaves.

As famílias foram removidas entre 2023 e 2024 de diferentes áreas da região de Perus, na zona norte de São Paulo.

Parte dos moradores vivia nas proximidades do antigo Aterro Bandeirantes, conhecido como "lixão de Perus", onde as casas foram classificadas pela prefeitura como áreas de risco. Outros moradores tiveram os imóveis demolidos para a realização de obras públicas, como a abertura de vias na região, que ainda não foram implementadas.

Segundo os relatos, a promessa era de que o auxílio-aluguel seria temporário até a entrega das moradias definitivas. No entanto, moradores afirmam que o valor pago atualmente, de até R$ 600, não é suficiente para cobrir os custos de aluguel na capital.

"O que conseguimos pagar com esse valor são imóveis com mofo, infiltração, umidade extrema e infestação de baratas. Muitas famílias aceitaram morar em condições precárias porque disseram que seria algo temporário", afirma a atendente de caixa Andreia Damas.

Vitor Pedrosa, que teve quatro casas da família demolidas em junho de 2023, afirma que o auxílio não cobre nem o básico. Ele e os irmãos moravam na região do antigo Aterro Bandeirantes.

"Recebo R$ 600 de auxílio, mas pago R$ 850 de aluguel, fora água e luz", relata.

Uma moradora, que pediu para não ser identificada, também diz enfrentar dificuldades enquanto aguarda a entrega do imóvel. A casa onde vivia foi demolida em dezembro de 2023 para a abertura de uma via pública.

"Estava esperando o apartamento, mas parece que não vão entregar agora", afirma.

Procuradas pela reportagem, a Prefeitura de São Paulo, a Sehab e a Cohab afirmaram que as obras do Residencial Perus II foram concluídas dentro do prazo contratual de 24 meses e que o empreendimento aguarda apenas a conclusão da etapa documental necessária para assinatura dos contratos e entrega das chaves às famílias beneficiárias.

Francisca das Chagas, outra beneficiária do programa, afirma que precisa complementar o aluguel com dinheiro do próprio bolso enquanto continua aguardando a moradia definitiva.

"Estou esperando há três anos", diz. Ela também morava na região do antigo Aterro Bandeirantes antes da demolição.

Segundo os moradores, os atrasos têm provocado impactos emocionais e financeiros nas famílias removidas.

"Meu filho entrou em depressão depois da demolição da nossa casa. A família ficou separada porque não conseguimos pagar uma casa grande para todos morarem juntos", relata uma das moradoras.

Outros afetados afirmam que as famílias já realizaram visitas aos apartamentos e entregaram toda a documentação exigida pela habitação municipal, mas que seguem sem saber se haverá uma nova data oficial para a entrega das unidades.

Há casos de espera ainda mais antigos. Thaynara Lima afirma viver há mais de uma década dependendo de auxílio-moradia após perder a casa onde morava em 2014.

"Há 12 anos vivo com um auxílio que começou em R$ 300 e hoje é de míseros R$ 400. É impossível sobreviver com isso em São Paulo", relata.

Segundo ela, a família aguardava atendimento habitacional no Residencial Jaraguá II, mas foi informada em novembro de 2025 de que a obra sofreria atrasos. Como alternativa, a prefeitura ofereceu transferência para o Residencial Perus II.

"Disseram que o Perus II estava praticamente pronto e seria entregue em março de 2026. Para finalmente sair do aluguel, eu e várias famílias aceitamos a troca", afirma.

Desde então, segundo Thaynara, os moradores deixaram de receber informações claras sobre o andamento do empreendimento.

"Hoje a sensação é de abandono. Não temos data para entrega das chaves, não temos respostas e ninguém assume responsabilidade", diz.

Ela afirma que os anos de espera provocaram impactos profundos na vida das famílias. "Uma década esperando por moradia destrói qualquer estabilidade. A gente não consegue planejar a vida, não consegue dar segurança para os filhos. Vivemos sempre na incerteza."

Sobre o Residencial Reserva Jaraguá II, que terá 313 unidades habitacionais, a gestão municipal informou que o empreendimento passa por reprogramação de cronograma.

A administração municipal afirmou ainda que os atendimentos habitacionais passam por atualizações constantes e que, à medida que novas unidades são disponibilizadas, as alternativas são reavaliadas para reduzir o tempo de espera das famílias cadastradas.

Apesar disso, as entidades não informaram uma nova previsão oficial para a entrega das unidades do Residencial Perus II, nem responderam quantas famílias foram afetadas pelos atrasos ou quantas foram transferidas do Residencial Jaraguá II para o empreendimento em Perus.