SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Desde sua reinauguração, em 2022, o Museu do Ipiranga, na zona sul de São Paulo, um dos mais importantes do país, tem uma meta ambiciosa: tornar-se um expoente mundial em acessibilidade e diversidade, permitindo que variados públicos sejam representados por suas obras e, ao mesmo tempo, possam explorar de múltiplas formas seus acervos.
A transformação está em curso, com adoção de medidas que incluem novas formas de exibição de obras a partir de reproduções que podem ser tocadas e entendidas para além da visão e com a apresentação de contrapontos em vídeos de versões oficiais da história.
Outras medidas como adoção de linguagem simples, busca ativa por objetos de camadas sociais ainda não representadas na instalação e abertura de pesquisas científicas voltadas a grupos subrepresentados também estão sendo tomadas.
"O mundo é diverso e todos têm direito à arte, à cultura. Está na Declaração Universal dos Direitos Humanos. Como posso, sendo uma educadora, sendo uma funcionária pública, contribuir para essa ampliação? Me incomodava ver o 'cantinho', a 'paraexposição'", afirma Denise Peixoto, educadora do museu e a principal voz de defesa da diversidade na instalação.
Ela defende uma acessibilidade curatorial que integre o toque ao discurso central da exposição. Denise propõe que o museu abandone o "visocentrismo" para priorizar a interação e o convívio real com o patrimônio, indo além da audiodescrição, que é a transformação em palavras daquilo que é visto.
Para que isso aconteça, o museu tem lançado mão de diversas estratégias. Entre elas, está a utilização de uma coleção didática voltada para o toque, composta por objetos reais adquiridos em feiras de antiguidade e em sites. Isso permite explorar a diversidade de materiais e texturas (como pedra, tecido e madeira) em vez de se limitar à "estética cinza" das impressões 3D.
Ao todo, de acordo com Tato Carbonaro, diretor de comunicação e relações institucionais da Fundação de Apoio ao Museu Paulista, como também é chamado o Museu do Ipiranga, 350 materiais diferentes são usados para ampliar a experiência das obras.
Na sexta-feira (22), uma nova representação do quadro "Independência ou Morte", de Pedro Américo, foi entregue. Elaborado pelas artesãs Célia Santiago e Helaine Malka, o diorama -apresentação tridimensional em escala reduzida- levou um mês para ficar pronto.
O artesão Jofe Santos já lapidou, em granito, sete representações para o museu. Hoje com 70 anos, desde os 13 ele trabalha com a transformação de variados materiais em arte. A peça que mais o marcou nos trabalhos para o Ipiranga, foi um pelourinho.
"Impossível não me emocionar, não pensar na minha ancestralidade [ele é um homem negro] e em tudo que viveram. É um trabalho importante para ajudar as pessoas a entenderem melhor as coisas", diz.
VÍDEOS DE CONTRAPONTO
Outra novidade inclusiva que vem sendo apresentada aos visitantes do museu são os vídeos de contraponto dispostos nas salas de algumas exposições. O dispositivo serve como uma espécie de ampliação ou contraposição da história contada pelos quadros, objetos e outros itens de acervo oficial.
A figura dos bandeirantes -sertanistas do Brasil colonial-, por exemplo, está ao lado de vídeos de povos indígenas, que contam suas versões sobre as consequências das expedições expansionistas. Pessoas negras também estão presentes com depoimentos que abordam, entre outros assuntos, a disputa por visibilidade, em um território marcado pela branquitude
"Uma premissa geral dos Contrapontos é pensar que tipo de canal nós teríamos com a sociedade para contrapor visões, comentários sobre as exposições e os temas abordados", conta a professora Solange Lima, docente do museu.
Ela diz que havia uma preocupação de friccionar e tensionar o discurso oferecido e criar um espaço de diálogo para que outras manifestações pudessem ser feitas.
Nos dispositivos dos Contrapontos estão dispostas legendas e tradução em Libras (Língua Brasileira de Sinais).
AMBIÇÕES FUTURAS
Denise Peixoto, que lidera os projetos inclusivos na instalação, projeta novas medidas de ampliação de acessos ao museu e seus acervos num futuro breve. Algumas iniciativas são mais desafiadoras, como abrir as portas para visitação noturna e a criação de mostras itinerantes, que iriam até os bairros periféricos da cidade.
"Temos que plantar as ideias. Quem estuda à noite, gente que trabalha o dia inteiro também precisa de ter alternativa de visitar o museu, mesmo que de forma orientada, mais rápida. Não tem nada de complexo nisso e temos de fazer", afirma.
Ainda nos planos estão a adoção de linguagem simples para as descrições e informativos das obras, criação de uma sala de descompressão para neurodivergentes, formação de grupos com comunidades específicas, como LGBTQIAPN+ para escuta sistemática
A FAAMP (Fundação de Apoio ao Museu Paulista), que dá suporte gerencial e financeiro ao local, ainda discute a viabilidade das medidas e não deu prazo para que elas sejam adotadas.
