SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Deflagrada em agosto do ano passado, uma operação do Ministério Público de São Paulo desmantelou um esquema de lavagem de dinheiro do crime organizado por meio de redes de combustíveis, setor considerado propício a fraudes tributárias segundo investigadores ouvidos pela reportagem.
Desdobramentos dessa operação ampliaram o conhecimento dos promotores sobre a atuação do PCC (Primeiro Comando da Capital) em outro setor da economia formal: bancos digitais e plataformas de pagamento, as chamadas fintechs -- empresas de tecnologia financeira. Essa frente já havia sido identificada meses antes, em outra investigação.
O avanço do crime organizado sobre o sistema financeiro fez com que investigações antes centradas nas comunicações de líderes de dentro de presídios passassem a depender também da colaboração da Receita e da Polícia Federal.
Mecanismos de controle contra a lavagem de dinheiro por meio de instituições financeiras estão entre as principais discussões em torno da classificação do CV (Comando Vermelho) e do PCC como grupos terroristas, anunciada pelos Estados Unidos na quinta-feira (28).
O uso de fintechs pelo PCC foi revelado por Antônio Vinicius Gritzbach em delação premiada ao Ministério Público. Ele era investigado como operador de um esquema de lavagem de dinheiro do tráfico com investimentos em criptomoedas e no mercado imobiliário.
Gritzbach foi morto a tiros de fuzil na área de desembarque do aeroporto de Guarulhos, em novembro de 2024.
A sofisticação dos esquemas de lavagem de dinheiro, antes mais associados a comércios locais, empresas de ônibus em São Paulo e doleiros, representou um passo necessário para criar a estrutura financeira capaz de sustentar a cadeia internacional do tráfico de drogas liderada pelo PCC.
A internacionalização da facção criminosa ficou evidente na operação Sharks, deflagrada em 2020, que mapeou a logística de fornecimento de drogas a partir do Paraguai e da Bolívia rumo a países na Europa.
"O Brasil nunca havia pensado em segurança pública em âmbito nacional, isso cabia aos estados separadamente", diz Mário Sarrubbo, ex-secretário nacional de Segurança Pública e procurador-geral de Justiça de São Paulo entre 2020 e 2024. "O crime organizado ultrapassou as fronteiras", continua.
Para Sarrubbo, a extensão das fronteiras terrestres brasileiras, maior que a que separa México e Estados Unidos, criou ambiente favorável para a circulação de drogas e armas, diante da dificuldade de fiscalização pelas forças de segurança. "O país virou entreposto de drogas", diz o ex-procurador-geral.
Esse movimento ocorreu quando o tráfico deixou de se concentrar no eixo São Paulo-Rio de Janeiro e migrou para o Centro-Oeste, em razão da proximidade com países produtores de cocaína.
Mais recentemente, a exploração das fronteiras marítimas colocou os portos no centro das investigações criminais, especialmente pela influência do PCC na Baixada Santista pela proximidade com o porto de Santos.
A tensão nessa região aparece também nos índices de letalidade policial. A Baixada Santista teve seis mortes provocadas por policiais registradas em janeiro e fevereiro de 2025. No primeiro bimestre deste ano, foram 23 mortes, um aumento de 283%. Os números consideram casos envolvendo policiais em serviço e de folga.
"O enfrentamento ao crime organizado deve se dar pelo fluxo financeiro. Temos que acabar com isso de subir morro atrás de traficante, tipo de operação que fazemos há 30 anos sem resultado. É preciso sufocar a cadeia de abastecimento do crime", diz Sarrubbo.
