RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - O julgamento de Jairo Souza Santos Júnior, o Jairinho, e Monique Medeiros Costa e Silva entrou na reta final nesta segunda-feira (1º), após a oitiva das últimas testemunhas previstas antes dos interrogatórios dos réus, esperados para esta terça-feira (2).
A manhã foi dedicada ao depoimento do perito Leonardo Tauil, responsável por laudos produzidos durante a investigação da morte de Henry Borel. À tarde, os jurados ouviram o médico Jefferson Evangelista Corrêa, assistente técnico da defesa de Jairinho.
Tauil reafirmou as conclusões periciais de que a causa da morte foi uma hemorragia interna provocada por laceração hepática decorrente de ação contundente. Questionado pela defesa sobre a possibilidade de um acidente doméstico, afirmou que a reprodução simulada realizada no apartamento onde a criança morreu não encontrou elementos que sustentassem essa hipótese.
"A gente não encontrou algum móvel ou objeto na casa que ele pudesse cair de maneira espontânea e causasse essa laceração hepática", disse. O perito também afirmou ter identificado três ações contundentes na cabeça da criança e grande quantidade de sangue na cavidade abdominal, provocada pela ruptura do fígado.
Ao responder perguntas dos advogados de Jairinho sobre inconsistências apontadas em documentos periciais, como a indicação incorreta da cor dos olhos de Henry e a menção equivocada a outra unidade de saúde, Tauil classificou os erros como "lapsos" de digitação.
Ele também voltou a afirmar que não encontrou sinais de maus-tratos crônicos na criança e disse considerar "bem difícil" a hipótese de Henry ter sofrido a lesão fatal antes de dormir e só ter apresentado sintomas horas depois.
Já no período da tarde, o médico Jefferson Evangelista Corrêa apresentou aos jurados a principal linha técnica da defesa de Jairinho: a de que não seria possível afirmar com certeza que Henry foi vítima de espancamento e que a lesão hepática identificada nos laudos pode ter sido agravada pelas tentativas de reanimação realizadas no hospital.
Segundo o especialista, as mais de 9.000 compressões torácicas feitas pela equipe médica do Hospital Barra D'Or podem ter contribuído para o agravamento da hemorragia interna. "Essa lesão teria coagulado espontaneamente. Obviamente, teria algum sintoma de mal-estar, dor abdominal, enjoo e vômito. Se está coagulado e você fizer massagem cardíaca, vai fazer esse fígado sangrar", afirmou.
Em seguida, acrescentou: "Mesmo que ela estivesse coagulada, nesse tempo de massagem, o fígado é comprimido".
Durante o depoimento, a defesa apresentou um boneco anatômico para que o médico demonstrasse aos jurados como são realizados os procedimentos de intubação em pacientes em parada cardiorrespiratória. A demonstração ocorreu no plenário, mas não pôde ser registrada pela imprensa porque a captação de imagens é proibida durante o julgamento.
O assistente técnico também fez críticas ao prontuário médico produzido pelo Hospital Barra D'Or, apontando ausência de registros cronológicos e de identificação de profissionais envolvidos no atendimento. "Essa é uma das maiores infrações éticas que existem nesse prontuário. Está faltando dados de identificação de profissional e os dados cronológicos", afirmou.
A tese apresentada por Jefferson diverge das conclusões de peritos e médicos ouvidos anteriormente pelo Tribunal do Júri. As testemunhas da acusação sustentaram que as lesões identificadas no corpo de Henry são incompatíveis com as manobras de ressuscitação realizadas no hospital e apontaram a hemorragia interna decorrente da laceração hepática como a causa da morte da criança.
O júri foi retomado às 10h30 desta segunda-feira. Monique deixou o plenário por volta das 11h25, durante a exibição de fotografias das lesões de Henry, e não retornou à sessão até o início da tarde.
Com o encerramento da fase de testemunhas, o julgamento entra agora em seu momento decisivo. Jefferson Evangelista foi a 22ª testemunha ouvida no plenário. Das 27 inicialmente previstas, cinco foram dispensadas pelas partes ao longo da instrução.
Entre os nomes que deixaram de ser ouvidos estão Rosângela Medeiros, mãe de Monique; Glauciane Ribeiro Dantas, que cuidava de Henry na casa dos avós maternos; Ana Paula Medeiros, prima de Monique; o psiquiatra Hewdy Lobo Ribeiro; e Cristiane Izidro, ex-assessora de Jairinho.
Jairinho é acusado pelo Ministério Público de homicídio qualificado por meio cruel e com recurso que impossibilitou a defesa da vítima, além de tortura e coação no curso do processo. A acusação sustenta que ele foi o responsável pelas agressões que levaram à morte de Henry.
Já Monique responde por homicídio por omissão qualificado, tortura e coação no curso do processo. Para a Promotoria, ela tinha conhecimento das agressões sofridas pelo filho e deixou de agir para protegê-lo.
A expectativa é que os interrogatórios dos dois réus ocorram nesta terça-feira. Na quarta, devem ser realizados os debates finais entre acusação e defesa.
Pelo rito do Tribunal do Júri, o Ministério Público terá até duas horas e meia para apresentar suas alegações. Em seguida, as defesas poderão falar por até uma hora e meia cada. Ainda poderão ocorrer réplica da acusação e tréplica das defesas.
Ao final, os jurados responderão aos quesitos formulados pela Justiça sobre autoria e materialidade dos crimes. A decisão será tomada por maioria de votos, cabendo à juíza Elizabeth Louro proclamar o resultado e fixar eventual sentença.