SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - A biodiversidade das Américas abriga um animal que parece desafiar o padrão seguido pela maioria dos marsupiais. Conhecida como cuíca-d'água ou gambá-d'água (Chironectes minimus), a espécie desenvolveu adaptações que a transformaram em uma especialista da vida nos rios.
Enquanto gambás, cuícas e cangurus são conhecidos por hábitos terrestres ou arborícolas, a cuíca-d'água seguiu um caminho evolutivo diferente. Encontrada desde o sul do México até a Argentina, a espécie reúne características incomuns que permitem nadar, mergulhar e caçar em ambientes de água doce.
É o único marsupial semiaquático do mundo. Segundo uma revisão publicada por pesquisadores da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) em 2015, a cuíca-d'água é o único marsupial semiaquático conhecido e apresenta diversas adaptações morfológicas associadas à vida nos rios.
A vida nos rios moldou a anatomia da espécie ao longo da evolução. A cuíca-d'água é um pequeno marsupial que mede entre 27 e 40 centímetros de comprimento corporal e pesa de 600 a 790 gramas, segundo manual da Universidade de Michigan. Os machos costumam ser maiores que as fêmeas.
Espécie possui patas traseiras totalmente palmadas, semelhantes às de animais aquáticos, o que aumenta sua eficiência durante a natação. Já as patas dianteiras mantiveram dedos longos e sem membranas, característica que ajuda na captura de presas.
Além disso, sua pelagem é densa e resistente à água, favorecendo a flutuação e ajudando a conservar o calor corporal. A cauda fina pode atingir até 43 centímetros de comprimento, sendo quase tão longa quanto o restante do corpo. Diferentemente de outros gambás, ela não é usada para escalar árvores. Segundo o Animal Diversity Web, a estrutura funciona como um leme durante a natação.
Outro detalhe importante está nos bigodes sensíveis distribuídos ao redor do focinho. Esses pelos táteis funcionam como sensores capazes de detectar movimentos na água e auxiliar a localização de presas durante a noite. A espécie também apresenta uma faixa branca característica acima dos olhos e abaixo da mandíbula, uma das marcas que ajudam a diferenciá-la de outros marsupiais.
Uma das adaptações mais curiosas envolve a reprodução. Como outros marsupiais, a cuíca-d'água dá à luz filhotes extremamente pequenos, que completam o desenvolvimento dentro de uma bolsa abdominal. O desafio evolutivo era permitir que a mãe mergulhasse sem colocar a cria em risco.
A resposta está em um mecanismo de vedação muscular capaz de impedir a entrada de água no interior do marsúpio. Segundo o Animal Diversity Web, da Universidade de Michigan, a cuíca-d'água possui uma bolsa impermeável chamada pars pudenda. A estrutura cria um ambiente livre de água para os filhotes durante os mergulhos da mãe.
Os pesquisadores da UFRJ descrevem a adaptação de forma ainda mais impressionante. "A fêmea consegue nadar debaixo d'água com os filhotes dentro da bolsa, como se estivesse em um submarino", relatam.
Outro aspecto raro é que os machos também possuem uma espécie de bolsa. "Ainda mais extraordinário, o macho também possui uma bolsa, que protege o escroto das baixas temperaturas da água", expõe a revisão da UFRJ, de 2015.
A cuíca-d'água é uma caçadora oportunista e passa boa parte da noite procurando alimento em córregos, riachos e lagos. Sua dieta é composta principalmente por crustáceos, mas também inclui peixes, insetos aquáticos e anfíbios, embora possa consumir frutas e plantas aquáticas quando outras fontes de alimento são escassas.
"Assim como as lontras-marinhas, a cuíca-d'água apoia crustáceos sobre o abdômen para quebrar seus exoesqueletos duros", disseram pesquisadores da Universidade de Michigan.
Apesar de ocorrer em uma ampla área das Américas, a espécie raramente é observada. Os estudos indicam que seus hábitos noturnos, a preferência por rios de difícil acesso e a baixa densidade populacional ajudam a explicar a escassez de registros. "Não está claro se a espécie é realmente rara ou se é pouco observada devido aos hábitos noturnos e ao uso de habitats de difícil acesso", aponta o Animal Diversity Web.
A espécie costuma selecionar rios cercados por vegetação preservada e depende fortemente das matas ribeirinhas para sobreviver.
Capaz de percorrer longas distâncias. Por muitos anos, cientistas acreditaram que a cuíca-d'água permanecia praticamente restrita aos ambientes próximos aos rios. No entanto, um estudo publicado em 2022 por pesquisadores da UnB (Universidade de Brasília) registrou um macho adulto a cerca de 1,1 quilômetro da mata de galeria mais próxima, em uma área seca do Distrito Federal.
Animal foi encontrado próximo a uma rodovia, em uma paisagem marcada por ocupação humana e fragmentos de Cerrado. "Descrevemos o primeiro registro do deslocamento de longa distância de uma cuíca-d'água não associado à vegetação ribeirinha através de um ambiente seco", disseram pesquisadores da UnB no estudo.
Para os autores, a descoberta sugere que a espécie pode ser mais resistente e capaz de se deslocar por áreas alteradas do que se imaginava anteriormente.
Ameaças continuam crescendo. Embora seja classificada pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) como uma espécie de menor preocupação, especialistas alertam para riscos associados à degradação dos ecossistemas de água doce.
Desmatamento, poluição, contaminação dos rios e perda de matas ciliares estão entre as principais ameaças identificadas. Segundo estudo da UFES (Universidade Federal do Espírito Santo) publicado em 2021, as mudanças climáticas podem provocar redução significativa das áreas adequadas para a espécie ao longo das próximas décadas.
Por depender diretamente de rios, córregos e florestas associadas a esses ambientes, a conservação da cuíca-d'água está intimamente ligada à preservação dos ecossistemas de água doce da América Latina.