RECIFE, PE (FOLHAPRESS) - Com o incidente que deixou a estudante Marcela Vitória de Lima Santos, 19, internada em estado grave, Pernambuco chegou a quatro ocorrências envolvendo tubarões em apenas cinco meses de 2026. O número iguala os totais registrados em 1998 e 2006 e faz deste o ano com mais casos no estado desde então.
Na série histórica do Cemit (Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões), apenas três anos tiveram números superiores: 1994, com dez incidentes, 2004, com sete, e 2002, com seis.
Marcela permanece internada na UTI do Hospital da Restauração. Segundo a unidade, ela deu entrada pouco depois das 16h com amputação completa do membro inferior direito e passou por uma cirurgia de emergência para controlar o sangramento e regularizar a ferida na coxa.
O Cemit informou que o animal envolvido foi um tubarão-tigre de aproximadamente três metros de comprimento.
O caso ocorreu cerca de 10 quilômetros do local onde, no domingo (31), um menino de 11 anos sofreu uma mordida de tubarão na Praia de Piedade, em Jaboatão dos Guararapes.
A criança teve a perna esquerda amputada após dar entrada em estado gravíssimo no Hospital da Restauração. Segundo o diretor da unidade, o cirurgião Petrus de Andrade Lima, a lesão extensa no membro inferior não podia ser revascularizada. Ele também está na UTI do Hospital da Restauração.
Nesse caso, o animal responsável foi um tubarão-cabeça-chata adulto, espécie que costuma frequentar áreas rasas em busca de alimento. A estimativa do órgão é de que ele tem cerca de 2,5 metros de comprimento.
Em 29 de janeiro, um adolescente de 13 anos morreu após ser mordido por um tubarão na praia de Del Chifre, em Olinda.
Também em janeiro, Tayane Cachoeira Dalazen foi mordida por um tubarão durante um mergulho na ilha de Fernando de Noronha. Ela sofreu ferimentos na perna sem gravidade e recebeu alta após atendimento médico.
Para o doutor em ecologia marinha Mário Barletta, professor da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), os incidentes registrados nos últimos dias não representam uma mudança de comportamento dos tubarões.
Segundo ele, esta é uma época do ano em que os rios despejam maior volume de água nos estuários e no litoral. Com a redução da oferta de peixes e crustáceos que normalmente serviriam de alimento aos animais, os tubarões tendem a se aproximar mais da costa, especialmente quando a água está turva.
Segundo o pesquisador, a recomendação continua sendo evitar o banho de mar neste período do ano em áreas onde já houve registros de incidentes.
Barletta afirma que a recuperação da fauna dos estuários ligados aos grandes centros urbanos seria uma das medidas capazes de reduzir a pressão sobre a cadeia alimentar dos tubarões. "Se você devolve a oferta de alimentos, o tubarão não se interessa por ninguém. Ele vai querer o alimento dele", disse.
A ocorrência de dois incidentes em dias consecutivos não é inédita no litoral pernambucano. Em março de 2023, dois adolescentes foram mordidos por tubarões em dias seguidos em Piedade.
Segundo a secretária executiva do Cemit, Danise Alves, a identificação das espécies é feita a partir da análise das lesões deixadas pelas mordidas. O cabeça-chata apresenta uma dentição conhecida como "garfo-faca", com dentes lisos e serrilhados, enquanto o tigre possui dentes totalmente serrilhados e maior capacidade de cortar e arrancar tecidos.
Alves acrescenta que, além dessas duas espécies, os registros de Pernambuco também incluem ocorrências envolvendo tubarão-lixa e tubarão-limão, especialmente em Fernando de Noronha. No caso do tubarão-lixa, os incidentes costumam ser classificados como provocados, quando há interação direta entre mergulhadores e o animal.
Com o episódio desta segunda-feira, Pernambuco chegou a 84 incidentes registrados desde 1992. Desse total, 70 ocorreram no Grande Recife e 14 em Fernando de Noronha.
O caso também alterou a distribuição dos registros por praia. Boa Viagem passou a somar 25 ocorrências e assumiu isoladamente a liderança da série histórica. O último registro no local havia ocorrido em 22 de julho de 2013.
Piedade aparece em seguida, com 24 ocorrências. Juntas, as duas praias respondem por 49 dos 84 casos contabilizados no estado.
Os dados do comitê mostram que a maior parte das vítimas era moradora de Pernambuco: 60 envolveram residentes, 18 turistas e 6 pessoas classificadas como de origem indefinida.
São 70 vítimas do sexo masculino, 10 do sexo feminino e 4 não identificadas.
A faixa etária mais atingida é a de jovens adultos. Dos 76 incidentes com idade identificada, 34 envolveram vítimas de 18 a 29 anos. Outros 18 registros ocorreram com adolescentes de 13 a 17 anos, 15 com pessoas de 30 a 39 anos, cinco com vítimas de 40 a 49 anos, 2 com pessoas de 50 anos ou mais e 2 com crianças de até 12 anos.
O levantamento registra 40 ocorrências com banhistas, 38 com surfistas e 5 com mergulhadores.
No total, são 27 mortes e 57 sobreviventes.
As lesões atingem principalmente os membros inferiores. As descrições mais frequentes nos registros do Cemit mencionam ferimentos em pernas, pés, coxas e panturrilhas.
Segundo o Governo de Pernambuco, cerca de R$ 5,5 milhões foram investidos desde 2023 em ações de prevenção, pesquisa científica, monitoramento e educação ambiental. Em janeiro de 2025, foram instaladas 150 novas placas de alerta ao longo dos 33 quilômetros de litoral considerados sujeitos a incidentes com tubarões entre Olinda e o Cabo de Santo Agostinho. Dessas, 60 foram colocadas no Recife.
Além disso, conforme o Cemit, a Facepe (Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia do Estado de Pernambuco) aprovou, em maio, um projeto da UFRPE (Universidade Federal Rural de Pernambuco) para fortalecer o monitoramento de tubarões no litoral do estado.
Com investimento de R$ 1,05 milhão, a iniciativa prevê o uso de telemetria e dará continuidade aos trabalhos desenvolvidos anteriormente pelos projetos Protuba e Ecotuba, segundo o órgão. As atividades serão iniciadas a partir de junho.