SANTOS, SP (FOLHAPRESS) - "Feliz no simples" e "faço da dificuldade a minha motivação". Com frases assim, Dheorge Pereira Bernardino, 28, apresentava-se nas redes sociais até desaparecer no mar em Ilhabela, no litoral paulista. O corpo foi localizado em alto mar na manhã de segunda-feira (1°). "Dheorge era feito de material precioso. Trabalhador, feliz e generoso.", diz o padrinho, João Ralison, 32.
A identificação do corpo foi feita por familiares, afirmou a SSP (Secretaria da Segurança Pública). Ele estava desaparecido desde 24 de maio após acidente com moto aquática. A auxiliar de enfermagem Bruna Damaris Sant'Anna da Silva, 26, que estava com ele, sobreviveu. Ela foi encontrada viva dois dias depois, resgatada por pescadores.
O corpo de Dheorge foi encontrado por uma embarcação da Defesa Civil municipal após buscas que envolveram bombeiros e Marinha.
Bruna usava colete salva-vidas ao ser encontrada no dia 26. Já o corpo de Dheorge estava sem o acessório ?achado no dia 27 pela Marinha.
O padrinho de Dheorge relembra que ele saiu do interior do Nordeste em busca de mais oportunidade de trabalho no estado de São Paulo.
Ao deixar a pequena Alcântaras (CE), perto de Sobral, trabalhou por quase dez anos em uma pizzaria de São José do Rio Preto, no noroeste paulista. Mais recentemente, de acordo com Ralison, Dheorge chegou a fazer jornada dupla de 14 horas, com trabalho paralelo em um hipermercado.
Nos últimos quatro meses, o rapaz ?que era católico, gostava de rodeio e torcia para o Flamengo? largou os serviços e voltou a morar em Alcântaras até que pudesse definir um novo rumo.
Um consolo para a família, segundo Ralison, é que Dheorge se divertiu bastante em sua última passagem pela terra natal. "Foram reencontros descontraídos", descreve. "Acho que Deus chama os que são bons de coração. Aqui na Terra, não ficou devendo nada."
Amigo de infância no Ceará, Jânio Filho, 27, lembra de Dheorge como alguém "que não reclamava da vida". "Crescemos juntos, fomos vizinhos e compartilhamos momentos que marcaram nossas vidas."
"O que mais admirava nele era sua humildade. Mesmo depois de conquistar estabilidade, continuou sendo a mesma pessoa simples", conta.
Ele diz que Dheorge se dedicava muito ao trabalho longe de sua terra e ajudava a família sempre que podia. "Vou guardar para sempre a lembrança do seu sorriso, do coração bom e da amizade sincera."
Ainda de acordo com o padrinho, Dheorge avisou a família que se encontraria com um grupo no litoral paulista do qual fazia parte Bruna.
Ao programa Domingo Espetacular, da Record TV, ela disse que o amigo avisou quando a moto aquática entrou em pane e que os dois estavam usando coletes até perderem contato. "A gente pulou na água e começou a nadar, mas não tinha ajuda de ninguém por perto."
ADEUS NA TERRA NATAL
Nas redes sociais, a Ponto da Pizza, onde o cearense trabalhou em Rio Preto nos últimos anos, prestou homenagem nesta terça (2).
"Recebemos com imenso pesar a notícia do falecimento de um jovem que fez parte da nossa história, deixando sua dedicação, seu trabalho e sua presença marcada em nossa equipe."
A irmã de Dheorge, Lorrane Pereira, também recorreu à internet para se manifestar. Na mensagem mais recente, postou: "Obrigada por ter sido o melhor irmão para mim e o tio mais amoroso e presente para a minha filha. Você fez tanto por nós duas, nos protegeu, nos amou e deixou o seu melhor sorriso guardado no coração dela."
A Marinha abriu inquérito para apurar o episódio e eventuais responsáveis. Por nota, a SSP (Secretaria de Segurança Pública) diz que "o caso foi registrado como morte suspeita na Delegacia de Ilhabela" e que "as circunstâncias da morte são investigadas pela Polícia Civil, que prossegue com as diligências para esclarecer os fatos".
O enterro de Dheorge Bernardino ocorrerá no Cemitério de Alcântaras, segundo a família. O corpo já foi liberado pelo IML (Instituto Médico Legal) de Caraguatatuba, responsável pelo serviço na região, após confirmação de identidade por impressão digital e características pessoais.