SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A presbítera Edenik Anacleto, 67, acha que tem muito pelo que agradecer depois de afundar na lama. Ela foi à Marcha para Jesus nesta quinta-feira (4) de Corpus Christi com "Deus no coração e nos pés".
Edenik conta que é uma das sobreviventes da tragédia de Brumadinho, "daquelas que foram resgatadas de helicóptero". Perdeu na ruptura da barragem, em 2019, o marido e a pousada onde eles trabalhavam.
Mas está viva, seu filho de 25 anos concluiu a faculdade de gastronomia, e ela casou de novo neste ano, com um bom homem que conheceu em sua igreja, a Renascer em Cristo, diz.
É por isso que ela aderiu a uma proposta que todo ano se repete na Marcha. Os fiéis são incentivados a fazer o download de uma palmilha no site do evento organizado pelo apóstolo Estevam Hernandes e pela bispa Sonia Hernandes, da Renascer.
Devem então imprimi-la e acomodá-la em seus sapatos, de preferência tênis confortáveis para marchar os mais de 3 km que separam a estação da Luz, o ponto de partida, do destino final, o Campo de Marte, na zona norte paulistana.
Na palmilha esquerda, explica Edenik, é para escrever tudo aqui pelo que se é grato a Deus. Ela mostra seu anel de presbítera, com símbolos como o coração no logo da Renascer. Diz que o encontrou no achados e perdidos do desastre, seis anos depois do mar de lama que arrasou a região.
Na palmilha direita vêm os "pedidos impossíveis", e esses Edenik não quer dizer quais são. "Não pode falar, só depois de receber a bênção."
A técnica em enfermagem aposentada Maria Alice Silva, 61, não tem problemas em revelar os dela. Pediu que Deus lhe dê sabedoria, faça-a ganhar um carro elétrico zero quilômetro da BYD, em sorteio promovido pela Marcha, e a ajude a recuperar o que perdeu em jogos de azar. Também gostaria que sua filha realizasse "os sonhos dela".
São pedidos escritos numa palmilha que improvisou cortando um pedaço de papel e encaixados embaixo de uma meia verde com emojis de carinha feliz.
Também rogou por saúde. Fez uma cirurgia bariátrica 15 anos atrás, quando tinha 101 kg distribuídos em 1,44 m, e chegou a precisar de muletas por conta de uma hérnia de disco?hoje trabalha como cuidadora e pega muito peso carregando idosos, diz a crente que passou dez anos na Igreja Universal, depois migrou para a Renascer e então para a Internacional da Graça de Deus. Hoje frequenta um templo batista.
A diarista Irene Aparecida Barbosa, 49, saiu de Taboão da Serra para participar de mais uma edição da Marcha. Fiel da Assembleia de Deus Chama Viva, ela diz que costuma voltar ao evento quase todos os anos levando os mesmos pedidos na palmilha: saúde, prosperidade e a libertação de sua família.
Um deles já foi atendido, afirma. Irene não sabe precisar se foi há cinco ou seis anos que levou na sola do sapato um clamor pelo filho mais velho, envolvido com o crime. A transformação chegou pouco tempo depois, segundo ela. Com apoio da família, o filho deixou São Paulo e se mudou para Rondonópolis (MT). Hoje está casado, tem um filho e trabalha. "Graças a Deus, Deus libertou."
A experiência reforçou sua fé na tradição da palmilha, repetida a cada marcha. Neste ano, acrescentou os desejos de ser a vencedora do sorteio do carro da BYD. O resultado será divulgado durante o evento.
Se ganhar, já sabe o que pretende fazer. "Tenho um projeto de viajar com ele para Rondonópolis e ver meu filho."
O técnico de enfermagem Fábio Martins, 46, quer saúde e força para enfrentar as dificuldades da vida. É o que colocou entre o sapato e a meia. Mas tem um motivo muito concreto por trás da oração.
Há cerca de seis meses, ele e a esposa, a enfermeira Jucilene Messias Martins, 46, sofreram um acidente de moto. Fábio fraturou três dedos. Ela teve lesões mais graves, quebrou o fêmur e acompanha a marcha em uma cadeira de rodas.
Renan Pereira, técnico de TI, e Kayk dos Santos, técnico de laboratório, os dois com 20 anos, levaram súplicas ligadas ao trabalho e à vida familiar.
Morador de Osasco, Renan conta que no ano passado pediu uma oportunidade para migrar para a área de tecnologia. Na época, trabalhava no comércio. Meses depois, conseguiu a vaga desejada.
Kayk quer mais paz dentro de casa. Ele vive com a família e relata muitas discussões entre os parentes. Na edição passada, o pedido era para ser efetivado no emprego, e a contratação veio um mês depois, diz.
A bispa Sonia conta que também fez sua súplica a Deus: pediu pela igreja e pelo país.