RIBEIRÃO PRETO, SP (FOLHAPRESS) - Alguns minutos de soroterapia com células T do próprio paciente e o câncer no sangue que desafiou o publicitário Paulo Peregrino por 13 anos e mais de 50 quimioterapias começou a recuar. "Meu corpo estava todo tomado pelo linfoma e, depois de 30 dias da infusão, estava limpo. Eu sempre falo: ?Acreditem na Ciência?. Deus e a ciência me trouxeram aqui", conta emocionado.

O carioca foi um dos 20 pacientes da fase de testes do projeto CAR-T Cell do Hemocentro de Ribeirão Preto, órgão ligado à Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP (Universidade de São Paulo). Hoje, aos 64 anos, Peregrino participou do anúncio feito pelo ministro da Saúde, Alexandre Padilha, de que o tratamento que o salvou deve chegar ao SUS (Sistema Único de Saúde) em cerca de um ano.

Padilha visitou o Hospital das Clínicas e o Hemocentro de Ribeirão na manhã desta quarta-feira (10), quando apresentou expectativas para o tratamento nacional de cânceres do sangue e entregou veículos e equipamentos do programa Agora Tem Especialistas.

"Os resultados preliminares são muito animadores, mais de 87% de resultado positivo de pacientes que já tinham passado por outras formas de tratamento, quimioterapia, radioterapia, transplante, e que veem agora no CAR-T Cell uma esperança de tratamento", afirmou Padilha.

A pesquisa do CAR-T teve início em meados de 2015 e, este ano, deve começar a fase clínica final com 81 pacientes, com duração de cerca de um ano. O estudo recebeu cerca de R$ 100 milhões do Ministério da Saúde em seus anos iniciais e é uma parceria governo federal com o governo do Estado de São Paulo por meio do Instituto Butantan, USP Ribeirão e Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo.

Segundo Padilha, a pesquisa ainda está na fase de recrutamento dos pacientes, cujos resultados serão acompanhados por um ano pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para estabelecer os marcadores de segurança e de eficácia e, então, seguir para o registro do produto e liberação para uso.

A tecnologia traz uma redução substancial dos custos para o SUS no tratamento de doenças como leucemia e linfomas ?a terapia CAR-T feita pela universidade pública é 100% nacional e custa cerca de um quinto (algo em torno de R$ 500 mil) da versão similar comercial existente hoje no mercado, orçada em R$ 2,5 milhões por paciente.

Bruno Marques Giovanni, 33 anos, educador físico de Piracicaba, já havia feito até um transplante quando foi recomendado para terapia CAR-T de Ribeirão Preto em 2021 ?ele está em fase de remissão da leucemia desde então e celebra ter tido acesso ao tratamento a tempo.

"Não senti reação pós e consegui voltar à minha rotina, à minha vida normal muito mais rápido em relação aos outros tratamentos que fiz. Não é tão agressivo comparado às outras linhas de tratamentos primárias", conta.

De acordo com Diego Villa Clé, o pesquisador principal do CAR-T e professor da FMRP-USP, a técnica pode ser usada futuramente para tratar outros tipos de câncer e também outras doenças. "Estamos com estudos em fase final de aprovação para tratar doenças autoimunes. A primeira será o Lupus Eritematoso Sistêmico e, em seguida, a Miastenia Gravis", adianta Clé.

Clé conta que os resultados mostraram que, em 50% dos pacientes com linfoma e, em análise intermediária, ainda sem chegar ao fim do estudo, a taxa de resposta chegou a quase 88% dos pacientes (87,6%), com menos desgaste e efeitos colaterais.

"É um tratamento que é ?um tiro?, como a gente fala. É uma infusão, 20 minutos, normalmente, com uma célula que é do próprio paciente, que foi modificada, treinada em laboratório. Ela é viva, então ela persiste, se multiplica e combate a doença. Muito diferente de outros tipos de tratamento, que você precisa fazer várias sessões", destaca o professor.

O "tratamento vivo" será monitorado de forma contínua em todos os participantes do estudo ?cinco anos após a remissão, há pacientes que ainda tem os linfócitos-T (células de defesa usadas no processo CAR-T) infundidos presentes na corrente sanguínea.

"Os linfócitos são uma das células de defesa que circulam na gente. E é até um paradoxo, porque o próprio linfócito é a origem do linfoma e da leucemia. É um câncer dos linfócitos, mas é um tipo que chama linfócito B e a gente usa o ?primo dele?, que é o linfócito T, por isso que chama CAR-T, porque a gente modifica o linfócito T", explica Clé.

A célula escolhida combate infecções no nosso corpo e, na terapia, os pesquisadores "ensinam" esse agente a atacar o câncer colocando nela um receptor para direcioná-la a combater a célula tumoral. "A gente tem respostas esplêndidas com menos de 30 dias. É muito rápida, mas a gente avalia sempre com 30 e 90 dias. É o período que a gente repete os exames para ver se foi embora a doença", reforça Clé.

A tecnologia similar ao CAR-T à venda hoje no mercado não usa o linfócito T, mas outras estruturas para fazer o tratamento. O modelo do Hemocentro de Ribeirão está patenteado e aguarda apenas os testes clínicos finais e aprovação da Anvisa para ser levado ao SUS de forma gratuita, segundo o Ministério da Saúde.

Padilha destacou a importância do investimento na ciência para assegurar a permanência desses pesquisadores de ponta no Brasil.

"Nosso primeiro investimento é fortalecer a pesquisa do nosso país. Se não tivesse o investimento, [esses pesquisadores de Ribeirão] estariam em outros lugares do mundo, e a gente perderia profissionais de alta capacidade que já estão desenvolvendo uma terapia muito promissora para o linfoma, para a leucemia, e que pode ser uma terapia para outras doenças", declarou o ministro.

Na visita à Ribeirão, o ministro também anunciou um aporte federal de R$ 180 milhões para o Projeto Genoma SUS, do qual o Centro de Terapia Celular do Hemocentro de Ribeirão é um dos pioneiros no âmbito do Programa Genomas Brasil, voltado ao sequenciamento genético da população brasileira.

A iniciativa amplia o conhecimento sobre a diversidade genética do país e fortalece o desenvolvimento da medicina de precisão no SUS. Padilha cumpriu ainda outras agendas no Interior de São Paulo nesta quarta.

Foram entregues ambulâncias para o Samu, combos de equipamentos para Unidades Básicas de Saúde (UBS) e Unidades Odontológicas Móveis (UOMs). O ministro também assinou ordem de construção de um Centro de Atenção Psicossocial (Caps) no município de Matão e de construção de uma policlínica em Franca com recursos do Novo PAC Saúde.