RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - A advogada Adriana Dutra, moradora de um condomínio na zona oeste do Rio de Janeiro, afirmou em depoimento à polícia ter escutado a colisão e visto a queda de duas aeronaves na tarde de domingo (14). À reportagem, ela disse que o acidente expôs um risco que já preocupava quem vive na região.
"Quando vi aquilo acontecendo, pensei que era uma tragédia anunciada. Aqui é rota constante de helicópteros. Eles passam muito baixo, às vezes parece que estão passando em cima da nossa cabeça. O movimento é intenso o dia inteiro", afirmou.
A tragédia envolvendo as duas aeronaves deixou seis mortos. As vítimas eram o produtor musical Lucas Frota, o cantor norte-americano Oliver Tree, o influenciador argentino Gaspar Prim, o diretor audiovisual Lucas Vignale e os pilotos Alexandre Souza e Charles Marsillac.
"O tráfego aqui é muito intenso. A gente se acostuma com o barulho, mas sempre soube que era uma área de grande movimento aéreo", declarou a testemunha.
Segundo a moradora, a colisão ocorreu sobre a área próxima ao bloco 1 do condomínio. Sentada na varanda de seu apartamento, ela acompanhou os desdobramentos do acidente logo após ouvir o forte estrondo da batida.
"Eles se chocaram praticamente em cima do meu bloco. Depois da batida, vi o helicóptero preto cair de bico. Em determinado momento ele virou e caiu com o trem de pouso para cima. Foi uma cena muito forte", relatou.
O outro helicóptero, segundo a testemunha, já caiu completamente fragmentado. Peças se espalharam pelo céu e atingiram diferentes pontos da região.
"Eu vi vários fragmentos voando. Eram muitos pedaços espalhados pelo céu. Da minha casa eu consigo ver até hoje onde caiu uma das hélices, em cima das placas solares", afirmou.
Parte dos destroços atingiu um terreno utilizado como estacionamento de veículos, onde ocorreu uma série de explosões.
De acordo com a moradora, o incêndio se espalhou rapidamente pelos veículos estacionados no local, provocando explosões sucessivas.
"Depois da primeira explosão, os carros começaram a pegar fogo. Era uma explosão atrás da outra. Cada carro que era atingido explodia. Foram vários minutos ouvindo explosões seguidas", disse. Cerca de 15 veículos foram danificados.
A testemunha destacou que a região convive diariamente com um intenso tráfego de helicópteros devido à proximidade do Aeroporto de Jacarepaguá e de diversos helipontos localizados na Barra da Tijuca e no Recreio dos Bandeirantes.
As circunstâncias do acidente são investigadas pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos), órgão ligado ao Comando da Aeronáutica. Paralelamente, a 42ª DP (Recreio dos Bandeirantes) conduz a apuração criminal do caso, inicialmente registrado como homicídio culposo Sem intenção).
Adriana foi a terceira testemunha a depor. Também foram ouvidos pela polícia os proprietários das aeronaves que colidiram.
O proprietário da aeronave onde estava a maioria das vítimas, Oswaldo de Luca Neto, afirmou que não fazia transporte clandestino de passageiros no helicóptero envolvido no acidente aéreo. Em seu relato à polícia, o empresário disse que os ocupantes da aeronave teriam embarcado a convite dele.
A possibilidade de operação irregular havia sido levantada pela Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), que informou estar verificando se alguma das aeronaves envolvidas realizava atividade diferente da autorizada, como o transporte remunerado de passageiros, modalidade conhecida como táxi-aéreo. Caso confirmada, a prática configuraria transporte aéreo clandestino.
De acordo com a Anac, as aeronaves de prefixos PP-MAC e PR-DJJ estavam com a documentação regularizada para operar na categoria de aviação privada, destinada exclusivamente ao uso do proprietário, operador e convidados. Nessa modalidade, é proibido o recebimento de pagamento ou qualquer tipo de compensação financeira pelo transporte de passageiros.
A agência também confirmou que a aeronave PP-MAC havia sido alvo de uma denúncia anônima por suposto transporte aéreo clandestino em 2025. Na ocasião, foi autuada por recusa de prestação de informações à Anac e passou a integrar uma lista de monitoramento da fiscalização. Apesar disso, o órgão ressaltou que ainda é prematuro estabelecer qualquer relação entre a modalidade do voo e as causas do acidente.
A reportagem tentou contato com os proprietários por email, mas não obteve retorno.