SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - A fonaudióloga Ana Beatriz Stubinski, de 22 anos, receberá a aplicação de polilaminina após sofrer uma lesão medular depois de ter sido atingida por um galho de árvore no último sábado (13) na Praça Osório, em Curitiba.

Jovem foi internada no Hospital do Trabalhador, em Curitiba, e está sem sentir nem mover as pernas. O acidente ocorreu enquanto ela passeava com a família em uma praça. Ela deu entrada na unidade em estado gravíssimo, com risco iminente de morte, segundo o governo do Paraná.

A equipe médica identificou lesões severas no pulmão e na medula espinhal de Ana Beatriz. Durante o final de semana, a paciente passou por duas cirurgias de alta complexidade: pneumotórax decorrente do trauma torácico (acúmulo de ar no espaço entre o pulmão e a parede torácica) e outra para estabilização da coluna vertebral. Também foi identificada a ausência de movimentos na paciente em razão da lesão medular.

Após a avaliação clínica, o hospital avaliou que a jovem poderia se enquadrar nos critérios para receber o medicamento. A documentação foi enviada ao Laboratório Cristália, responsável pelo desenvolvimento do tratamento. Ontem, a empresa respondeu que Ana Beatriz estava apta, então, a solicitação foi submetida pelo laboratório à Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). O órgão autorizou a liberação para o caso da fonaudióloga.

A mãe de Ana, Vanessa, fez uma campanha nas redes sociais em busca da aplicação do tratamento experimental na jovem. Na noite de ontem, Vanessa divulgou que a filha foi aprovada para receber o tratamento.

Governo do Paraná anunciou que fará o transporte do medicamento do Rio de Janeiro até o estado. Em nota, a gestão estadual afirmou que uma aeronave estadual decolou de Curitiba nesta tarde para buscar o medicamento e os profissionais responsáveis pela aplicação. A operação terá paradas no Rio de Janeiro e Foz do Iguaçu.

A previsão é retornar a Curitiba ainda nesta noite para a aplicação do produto em Ana Beatriz no Hospital do Trabalhador. Segundo os pesquisadores que farão a aplicação na paciente, ela será a 16ª paciente a receber o tratamento no Paraná e a 86ª no Brasil, divulgou o governo estadual.

"Minha filha é jovem. Acabou de se formar. Começou a trabalhar. Comprou seu primeiro carro. Estava construindo seu futuro. Ela merece lutar por todas as possibilidades de recuperação", disse Vanessa Stubinski, mãe de Ana Beatriz.

A reportagem entrou em contato com a Anvisa, mas não recebeu retorno. O espaço segue aberto para manifestação.

Prefeitura disse ao UOL lamentar o ocorrido e se solidarizar com a vítima e seus familiares. A gestão municipal declarou que as equipes da cidade prestaram todo apoio necesário à Ana e aos parentes dela desde os primeiros momentos após o episódio.

Município afirmou que a última revisão das condições arbóreas da Praça Osório ocorreu em abril e seguiu os protocolos adotados pela prefeitura. Eles pontuaram que a Secretaria Municipal do Meio Ambiente tem um programa permanente para o monitoramento e manejo da arborização urbana, sendo realizadas inspeções técnicas periódicas, avaliações fitossanitárias e ações preventivas.

Circunstâncias do caso são investigadas pela secretaria responsável, que já realizou uma nova inspeção no local. "Após a vistoria realizada na praça, não foi identificada a necessidade de novas intervenções emergenciais na área. A Prefeitura segue acompanhando o caso e reafirma seu compromisso com a segurança da população, a transparência na apuração dos fatos e o cuidado permanente com a arborização urbana da cidade", concluiu em nota.

A polilaminina é uma substância originada a partir da laminina. A laminina é uma proteína extraída da placenta, onde é encontrada em abundância, e é responsável pelo crescimento celular, principalmente de células nervosas. A substância foi descoberta após 25 anos de pesquisa de Tatiana Coelho de Sampaio, chefe do Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

Estudos são desenvolvidos pelos pesquisadores da UFRJ em parceria com o laboratório Cristália. Rogério Almeida, vice-presidente de Pesquisa e Desenvolvido do Cristália, explicou ao UOL que, após iniciar a parceria com Tatiana em 2019, o laboratório desenvolveu o processo de produção nacional da laminina.

Anvisa aprovou estudo clínico de fase 1 para tratamento com polilaminina em 5 de janeiro. A fase 1 é a primeira etapa -nela, o estudo pretende verificar a segurança da substância. O estudo será feito em cinco pacientes voluntários, com idades entre 18 e 72 anos, com lesões agudas completas da medula espinhal, que tenham indicação para cirurgia menos de 72 horas após sofrerem a lesão.

Segundo Almeida, os pacientes que estão recebendo o medicamento hoje são através de decisões judiciais. Nestes casos, o laboratório deve disponibilizar gratuitamente a substância sem registro. Cabe ao paciente e familiares decidirem como será realizada a aplicação.

Tratamento é feito com a aplicação da polilaminina direto na medula. Almeida explicou que o ideal é a colocação da substância durante a cirurgia de descompressão e estabilização da coluna do paciente logo após o trauma. Os estudos científicos conduzidos pelo laboratório foram realizados com base em lesões agudas, ocorridas há no máximo 72 horas.

Porém, explica Almeida, na maioria dos casos, o paciente está recebendo a substância após a cirurgia de descompressão da coluna. Nesses cenários é realizada a punção com agulha e injeção da polilaminina na medula. O tratamento fisioterápico é essencial após a aplicação do medicamento, de acordo com o vice-presidente do laboratório.

Não há nenhum dado que indique que a substância funcionará em pacientes com lesão medular há mais de três meses, disse Almeida. Segundo o laboratório Cristália, já estão em andamento testes, inclusive em cães com lesões na medula há mais de dois anos, visando avaliar, no futuro, a possibilidade de uso do medicamento em pacientes com lesões mais antigas.

Apesar de pacientes que receberam o tratamento experimental relatarem ganhos importantes de mobilidade, os resultados ainda são considerados preliminares. Ou seja, ainda não é possível dizer que a melhora nos movimentos é decorrente da polilaminina ou de outras intervenções a que os pacientes se submeteram. Os estudos com a polilaminina ainda são muito limitados em número de pacientes e em tempo de acompanhamento.