SÃO PAULO, SP (FOLHAPRES) - Local da morte da jovem Maria Eduarda Rodrigues de Freitas, 21, no fim de semana passado, a ponte do Esqueleto em Limeira, no interior de São Paulo, já teve saltos com crianças.
As cenas, de maio de 2023, foram registradas em vídeo e divulgadas pelo instrutor Luís Felipe Feliciano Egoroff, 32, hoje preso.
Ele foi indiciado pela Polícia Civil sob suspeita de homicídio doloso de Maria Eduarda, por supostamente ter assumido o risco de matá-la durante o salto, executado sem as cordas de segurança. A defesa dele sustenta que o caso se trata de um crime culposo, sem intenção.
A publicação de Luís Felipe que exibe o salto com uma criança mostra que o garoto estava em seu colo, agarrado ao seu pescoço e aparenta estar ligado ao homem por cordas de segurança.
Não é possível dizer se o menino poderia ou não praticar o salto porque o rope jump não é uma atividade regulamentada no Brasil.
O advogado Rafael Gomes da Silva, que defende Luís Felipe, disse à Folha nesta quarta-feira (17) que conversou com ele sobre o tema. Gomes esteve na tarde desta quarta no Centro de Detenção Provisória de Guarulhos, para onde seu cliente foi transferido.
No caso do salto com a criança, a defesa afirma que o procedimento seguiu todos os protocolos de segurança. "Além disso, o salto só acontece com o aval dos pais, que assinam um termo de consentimento", diz Gomes.
Thaynara Siqueira, consultora técnica da Abeta (Associação Brasileira das Empresas de Ecoturismo e Turismo de Aventura), explica que "não existe uma norma técnica, mas podemos nos basear nas boas práticas e nas normas que existem sobre esportes verticais".
A regra para a prática de rapel, por exemplo, estabelece a idade mínima de 12 anos para o esporte. "Só aí já vemos que ele [o instrutor] não está respeitando essas boas práticas", afirma.
O ideal, segundo Thaynara, seria um cenário em que ambos estivessem presos com duas cordas de segurança cada um. Do contrário, "se a dele estoura, os dois vão para o chão".
A própria maneira como a criança saltou, de frente para Luís Felipe e agarrada ao seu pescoço, também é problemática, segundo a consultora.
"A posição de salto tem de ser anatômica, de frente. Esse formato, um de frente para o outro, não pode. Qualquer movimentação ali pode fazer com que um bata a testa na boca do outro, por exemplo. Tanto que no paraquedismo, quando há saltos duplos, as pessoas não estão se olhando. Fica uma na frente da outra", diz Thaynara.
O gerente-técnico da Abeta Evandro Schütz, aponta outros aspectos. "As normas, no geral, estipulam que cada empresa deve ter procedimentos para identificar possíveis riscos à vida. Se um instrutor falha nesse processo, a minha resposta vai ser muito óbvia: o que ocorreu com Maria Eduarda poderia ter acontecido com esse menino ou qualquer outra pessoa", afirma.
Luís Felipe integrava o grupo Entre Cordas, que comercializava saltos ao custo de R$ 180 mesmo sem ter uma empresa constituída.
Então você não tem análise de risco, inventário de perigos e riscos. Eu não sei de quem é a criança ou se os pais dela assinaram um termo de consentimento. Mas eles deveriam ser processados severamente, porque esse modelo não tem comprometimento nenhum com a segurança", afirma Schütz.
Segundo ele, "esse tipo de gente desvirtua o processo" esportivo no país.
A publicação em que Luís Felipe pula da ponte com uma criança no colo foi resgatada por usuários de redes sociais. O mesmo tem ocorrido com outros tipos de conteúdo.
Em um deles, de 2022, o instrutor chegou a ironizar o risco de morte da atividade.
Na publicação, um grupo aparece segurando um saco preto -como se fosse uma pessoa a ser lançada no rope jump-- com a legenda "desovando corpo". O saco estava amarrado com uma corda e foi jogado de cima da ponte.
O vídeo ainda citava que as vagas eram limitadas e trazia telefone para contato. Após a morte de Maria Eduarda, a publicação recebeu centenas de comentários e críticas.
O advogado Gomes afirmou à reportagem que o caso se tratou de uma brincadeira. Segundo ele, a pessoa que estava dentro do saco era o próprio Luís Felipe, que na época, 2022, trabalhava para uma outra empresa do ramo.
Sobre a morte, a defesa já havia dito que os instrutores prestaram os primeiros socorros e chamou o caso com morte de uma "tragédia".
Maria Eduarda foi arremessada da ponte para o salto sem o equipamento de segurança. Imagens feitas por quem estava no local mostram o momento que ela é erguida pelos instrutores e lançada da ponte. Após a queda, uma enfermeira chegou a tentar reanimá-la, mas a jovem morreu no local.
O rope jump consiste em saltos de grandes alturas com o praticante preso a cordas que produzem um movimento de balanço após a queda. Também conhecido como "pêndulo humano", difere do salto com bungee jump, que utiliza uma corda elástica que provoca rebotes.
Bloqueio
Prefeitura de Limeira iniciou obras nesta quarta-feira (17) para impedir o acesso à ponte do Esqueleto. A estrutura, que fica no limite entre Limeira e Cordeirópolis, pertence ao governo federal.
Segundo a prefeitura, a intervenção inclui o fechamento de acessos irregulares à ponte e complementa ações emergenciais que já haviam sido executadas na área anteriormente.