SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Uma vila com nove casas construídas em 1937 foi demolida na Vila Mariana, bairro da zona sul de São Paulo, sem autorização da prefeitura. A demolição ocorreu no último sábado (13), poucas horas antes do jogo de estreia da seleção brasileira na Copa do Mundo.

O conjunto de casas teve o tombamento negado pelo Conpresp (conselho municipal de preservação do patrimônio histórico de São Paulo) no último dia 25 de maio. Para o órgão, os imóveis estavam descaracterizados e em mau estado de conservação.

Os sobrados pertencem à irmandade Concepcionistas Missionárias do Ensino, da Igreja Católica, proprietária de um colégio particular na Vila Mariana. Procurada pela Folha de S.Paulo no início da tarde desta quarta-feira (17), a entidade não respondeu até a publicação desta reportagem.

"No sábado, acordei com um monte de mensagens de moradores falando que os tratores haviam entrado na vila. Em menos de três horas eles destruíram tudo", diz Denise Bonfim, 64, presidente da Associação de Moradores da Vila Mariana.

Segundo a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB), a demolição foi irregular porque o alvará que permitia a ação foi expedido em 2018 e tinha validade de dois anos.

"Após a constatação de demolições irregulares realizadas sem a devida autorização, a Subprefeitura Vila Mariana lavrou auto de embargo, determinando a imediata paralisação das obras, além da aplicação de multa no valor de R$ 15 mil. O descumprimento da medida poderá acarretar a aplicação de novas autuações e demais sanções previstas na legislação vigente", diz a gestão Nunes.

O tombamento havia sido pedido pela primeira vez em 2006. Em 2019, o DPH (Departamento de Patrimônio Histórico), órgão da prefeitura, recomendou a proteção da vila em um parecer sobre as condições estruturais e a história dos imóveis.

O órgão considerou que as casas seriam exemplares do "Estilo Missões" e destacou que a vila era um exemplo da construção realizada pela classe média na primeira metade do século 20.

Representados pela arquiteta Cíntia Padovan, que viveu no local por 29 anos, os moradores pediam, já em 2006, a preservação do conjunto, cujas características principais sobreviveram graças ao fato de nunca terem sido vendidas.

As nove casas pertenceram sempre à mesma família que as construiu e as alugava -até 2017. Depois, elas foram adquiridas pela irmandade Concepcionistas Missionárias do Ensino.

Em junho daquele ano, os inquilinos das casas --seis delas sobradinhos iguais, de três quartos- receberam carta dizendo que deveriam deixar as residências em 90 dias.

Um casarão que compunha o conjunto já foi ao chão anos atrás. Na face da vila que dá para a avenida, as casas de uso comercial foram descaracterizadas.

Sobre a discussão do tombamento do conjunto, que foi negado, a Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa afirma que todas as etapas previstas na legislação vigente foram devidamente observadas, em estrita conformidade com os procedimentos legais. "O processo especial de tombamento é disciplinado pela Lei Municipal nº 10.032/1985, que não prevê recurso após a decisão de arquivamento da abertura do processo", declarou.

Sobre a atuação do Conpresp, a prefeitura afirmou que todas as decisões do colegiado são fundamentadas exclusivamente em critérios técnicos, sem qualquer tipo de favorecimento. "Sua atuação concentra-se na análise técnica e criteriosa das intervenções propostas em bens e áreas protegidos, sempre em conformidade com a legislação vigente e com as diretrizes de preservação do patrimônio cultural."

A cineasta Ana Petta foi a última moradora a deixar os sobrados, em 2017, depois de 14 anos morando no local.

"É uma política deliberada de ataque mesmo ao patrimônio histórico e cultural da cidade. O parecer técnico do DPH foi ignorado, todo movimento social em torno da vila foi ignorado, toda a relação afetiva dessa comunidade foi ignorada para um interesse econômico. Toda uma história foi demolida em três horas", diz a cineasta.

Petta produziu um documentário sobre a vila chamado "Amora", que conta a história do local a partir da perspectiva de seu filho, que nasceu no bairro e hoje tem 12 anos. "Meu filho voltou para lá esses dias e falou: 'Não conheço mais o bairro em que eu nasci'", diz.