SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - No encontro entre os distritos da Brasilândia, Freguesia do Ó e Pirituba, na zona norte de São Paulo, uma área de mais de 600 mil metros quadrados resiste como um dos últimos grandes remanescentes verdes da região.

Cercado por bairros densamente urbanizados e marcados pela falta de áreas de lazer e equipamentos públicos, o território do futuro parque Morro Grande carrega não apenas fragmentos de Mata Atlântica e nascentes, mas também parte da memória operária e cultural da periferia paulistana.

Antes de se tornar alvo de uma mobilização comunitária que atravessa quase duas décadas, o espaço abrigava a antiga Pedreira Morro Grande, ativa até o fim dos anos 1990.

Ao redor da exploração mineral surgiram uma vila operária, a tecelagem Santo Eduardo Tecidos de Algodão, um cinema e a Capela Santa Clara de Assis, construída em 1961.

Com o encerramento das atividades da pedreira, a cratera formada pela extração virou lago e o território passou a conviver com abandono, risco de invasões e pressão imobiliária.

Foi em 2006 que moradores, pesquisadores, artistas e ativistas começaram a se organizar no movimento em defesa do parque, uma articulação criada para pressionar o poder público pela transformação da área em parque municipal.

"Essa luta tem mais de 20 anos. Quando ocorreu a desativação da pedreira, tentaram fazer do cinema uma casa de cultura e também houve propostas para criar um parque preservando a história social do território", afirma Rui Primo, atuante no Movimento em Defesa do Parque Morro Grande e no conselho gestor do parque.

Segundo ele, a mobilização começou de forma organizada dentro dos espaços participativos do bairro. "A gente sempre usa um lema: a periferia precisa e merece parques. Temos muitas lutas na periferia, mas o parque é fundamental porque vai trazer qualidade de vida, lazer, cultura e preservação ambiental. É essencial para a nossa região."

Ao longo dos anos, a organização acumulou conquistas importantes. Em 2014, o parque foi incluído no Plano Diretor Estratégico da cidade como parque urbano em planejamento.

Em 2022, a área recebeu placas de demarcação da prefeitura por meio do Projeto Demarca, após uma votação pública em que o parque se tornou uma das prioridades mais votadas da cidade.

"A periferia é um pouco esquecida em São Paulo. Nossa região sofre com a construção excessiva de prédios e com a perda de áreas verdes. O parque vem para suprir essa necessidade", afirma Rui.

Procurada pela reportagem, a SVMA (Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente) informou que as oficinas participativas que definiram o projeto arquitetônico foram finalizadas em março deste ano e que, atualmente, estão sendo desenvolvidos os projetos básicos e executivos, considerando as demandas apresentadas pela população.

Segundo a pasta, também segue em andamento o processo de desapropriação da área contemplada pela DUP (Declaração de Utilidade Pública).

O futuro parque terá mais de 500 mil metros quadrados, diz a secretaria, e estará inserido em uma área classificada como ZEPAM (Zona Especial de Preservação Ambiental), destinada à proteção da vegetação nativa e dos recursos naturais.

A SVMA afirma ainda que o equipamento contará com infraestrutura voltada para esporte, lazer e convivência, incluindo pista de atletismo, campo de futebol e de flag football, quadras esportivas, pista de skate, anfiteatro, sala de leitura, parquinhos infantis, fontes de água interativas e aparelhos de ginástica.

O projeto prevê também sanitários públicos, vestiários e quiosques.

Segundo a pasta, o parque terá sete acessos distribuídos pelo entorno, incluindo entradas próximas à futura estação Pátio Morro Grande, da linha 6-laranja do metrô.

Memória

Além da preservação ambiental, o movimento defende o reconhecimento histórico do território. Em 2022, foi iniciado um pedido de tombamento junto ao DPH (Departamento de Patrimônio Histórico), abrangendo a capela, o antigo cinema, estruturas remanescentes da pedreira, a estrada do Congo e toda a mancha verde do parque.

Vitor Stalmann, arquiteto e urbanista que participou como coordenador técnico do movimento entre 2022 e 2024 e atualmente está à frente do coletivo Memórias do Morro Grande, afirma que o patrimônio da área vai além das edificações.

"Além de garantir a proteção das construções, buscamos preservar a mancha verde, o remanescente do bioma e as nascentes usando a memória como fator político. O parque trata de acesso ao verde e também do direito à memória", afirma.

Segundo o urbanista, o território reúne cerca de 20 construções ligadas à antiga pedreira e carrega um valor histórico raro na cidade.

Apesar disso, o movimento afirma que o processo de tombamento está sem avanços desde agosto de 2025. Enquanto segue indefinido, moradores organizam uma rede informal de vigilância para proteger o espaço contra incêndios, invasões e descarte irregular de lixo.

A Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa, por meio do DPH, informou que o processo de tombamento da área encontra-se atualmente em análise técnica e que ainda não houve deliberação final.

REPERCUSSÃO

A luta também ganhou repercussão internacional. Em 2024, o Instituto Federal de Tecnologia de Zurique (ETH), na Suíça, escolheu o Morro Grande como objeto de estudo de um ateliê de arquitetura voltado aos conflitos urbanos da cidade.

Já em 2025, o território integrou a programação da 14ª Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo com uma caminhada organizada pelo Instituto A Cidade Precisa de Você, pelo coletivo Memórias do Morro Grande e pelo movimento.

Outro braço recente da mobilização é o projeto Ativa Juventude, realizado em parceria com a Etec Paulistano e financiado pelo CAU/SP (Conselho de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo). A iniciativa envolve estudantes do curso técnico de Meio Ambiente em oficinas de educação urbana, patrimônio e participação cidadã.

Segundo o movimento, o entorno do parque é cercado por escolas, o que transforma a área em um potencial espaço permanente de educação ambiental e convivência comunitária.

Apesar das conquistas, a implantação definitiva ainda depende da desapropriação total da área, atualmente dividida em 15 lotes, e da destinação de recursos públicos para execução do projeto.

"Falta mais vontade das autoridades para entender a importância do parque para a periferia e para a cidade de São Paulo", afirma Rui Primo. "Estamos em todas as audiências públicas cobrando orçamento. Essa luta também é política."

Para os moradores, porém, a batalha já produziu um resultado simbólico importante: impedir que o território desaparecesse silenciosamente sob o avanço da urbanização.

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