PORTO ALEGRE, RS (FOLHAPRESS) - Construídas entre 1959 e 1963 pelo governador Leonel Brizola (1922-2004) para expandir o acesso à educação em áreas remotas do Rio Grande do Sul, as brizoletas foram um símbolo da alfabetização gaúcha por décadas.
Mais de 200 mil alunos passaram pelas salas de aula de ao menos 1.045 escolas erguidas em apenas quatro anos. O número de unidades é uma estimativa baixa e contestada -o próprio Brizola falava em mais de 2.000-, mas o total nunca foi documentado oficialmente.
A imprecisão nos dados persiste até hoje e se tornou um entrave para a preservação dessas escolas históricas: ninguém sabe ao certo quantas brizoletas ainda estão de pé, e muitas das sobreviventes enfrentam algum grau de degradação.
Nem o governo gaúcho nem órgãos de patrimônio têm registros sobre quantos desses prédios existem, onde ficam e em que condições se encontram.
Procurada, a SOP-RS (Secretaria de Obras Públicas) informou que as brizoletas não são consideradas oficialmente como prédios de interesse histórico e arquitetônico e que os casos de conservação são tratados individualmente.
Atualmente, não há tombamento dessas escolas pelo Iphae (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado do Rio Grande do Sul) nem pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).
A secretária estadual de Obras, Izabel Matte, diz que as brizoletas foram uma solução emergencial para resolver um déficit educacional urgente.
"Existe esse sentimento afetivo em relação às brizoletas, porque marcou uma época do Rio Grande do Sul em que se deu efetivamente um plano de expansão e descentralização do ensino", diz.
Segundo Izabel, as antigas estruturas, construídas rapidamente e com materiais de baixo custo, enfrentam dificuldades para se adaptar às exigências atuais, como regras previstas em planos diretores, códigos de obras, normas de acessibilidade e legislações de prevenção contra incêndios.
Há locais em que antigas construções ainda cumprem sua função original. Em Porto Alegre, a Escola Municipal Dolores Alcaraz Caldas preservou parte da estrutura e mantém salas de aula funcionando.
A secretária afirma que as brizoletas em áreas escolares são preservadas sempre que os prédios ainda sejam funcionais e possam ser aproveitados pelos alunos. "Mas, quando é necessário, porque realmente não há mais condições de uso, a gente é obrigado a fazer o desmonte daquele prédio, até para evitar algum problema de segurança."
A decisão de derrubar ou não também é influenciada por mudanças no modelo pedagógico, como a redução do número de alunos por sala de aula e o fim do ensino multisseriado.
"Elas cumpriram um papel importante e ficaram no nosso imaginário. Mas hoje seria inviável pensarmos em manter estruturas que nem suportam mais a variedade de usos atuais", disse a secretária.
Para o arquiteto Jorge Luis Stockler, responsável pelo projeto O Campanário, voltado à conscientização sobre patrimônio histórico na região Sul do Brasil, as brizoletas reúnem características que justificam um reconhecimento arquitetônico formal.
Segundo ele, as construções unem elementos da arquitetura moderna brasileira das décadas de 1950 e 1960, como brise-soleil (estrutura usada para reduzir a incidência direta de luz solar) e o muxarabi (painel treliçado de madeira), a técnicas tradicionais de carpintaria gaúcha, influenciadas pela diversidade cultural e pela variedade de madeiras em cada região.
Entretanto, o arquiteto afirma que a falta de reconhecimento das brizoletas remanescentes como patrimônio histórico faz com que a responsabilidade pela conservação recaia sobre municípios pequenos, geralmente sem estrutura técnica para o trabalho.
Stockler defende que o Iphan e o Iphae atuem de forma coordenada para inventariar as brizoletas e assim elaborar uma estratégia de recuperação.
"Todas essas brizoletas territorializam, no interior do Rio Grande do Sul, uma política pública que incidiu sobre todo o estado, e essa política pública também é uma história que a gente precisa contar. É uma história muito pertinente para o momento atual."
Em maio deste ano, a prefeitura de Passo Fundo, no norte do estado, apresentou o projeto de restauro da antiga Escola Municipal Padre Vieira, brizoleta localizada na comunidade de Nossa Senhora da Paz.
O prédio foi tombado como patrimônio histórico nos anos 1990 e chegou a ser revitalizado em 2011, abrigando reuniões comunitárias, aulas de catequese e cursos de artesanato.
Com o tempo, algumas limitações do espaço levaram as atividades a migrarem de lugar, e o prédio a ser desativado. O espaço ficou fechado por muito tempo, o que levou a invasões e depredações.
Segundo Rita Juliane Rodrigues Tatim, presidente do Conselho Municipal de Cultura de Passo Fundo, um dos motivos para o abandono foi a falta de saneamento básico.
A construção data de uma época em que não havia banheiros em áreas internas -o mais próximo fica em uma igreja a alguns minutos de caminhada.
"Como não é um prédio urbano, com circulação constante de pessoas, às vezes levava dias ou semanas para alguém perceber que havia alguma janela arrombada", diz Rita.
Desde então, diferentes temporais destruíram partes do telhado e das paredes, e a queda de uma árvore durante um temporal em fevereiro deste ano fez o prédio desmoronar. Hoje, a situação exige um restauro completo.
O projeto prevê uma reforma com estrutura e materiais iguais aos originais, mas com a inclusão de banheiros, calçadas, rampas de acessibilidade, iluminação no entorno e câmeras de segurança. A reforma é orçada em R$ 200 mil.
O plano é buscar habilitação e certificação no governo federal para que o espaço se torne um ponto de cultura.
"Nós vamos conseguir preservar e restaurar apenas as aberturas, especialmente as janelas e as portas", diz o secretário municipal de Planejamento, Giezi Schneider.
Além da falta de saneamento, outro desafio para a conservação é a queda no número de moradores com ligação direta com os locais onde as escolas foram construídas, especialmente no campo.
A comunidade de Nossa Senhora da Paz reúne hoje cerca de 40 famílias, e poucos ex-alunos ainda vivem na região, porque a maioria se mudou para zonas urbanizadas a partir da década de 1980.
Segundo Rita, a situação se repete em várias comunidades no interior.
"Quando algumas escolas passaram para a rede estadual e as crianças [de áreas rurais] começaram a receber transporte para estudar na cidade, algumas foram desativadas e, com o tempo, demolidas, antes mesmo de serem mapeadas e virarem patrimônio", explica.
Em Guaporé, na Serra Gaúcha, a comunidade de Linha São Roque se mobilizou na década passada para pedir o restauro da Escola José Alberto Lucatelli, brizoleta de 1960 tombada pelo município.
Algumas iniciativas de cuidado foram feitas pela própria comunidade, mas a demanda de reforma foi apenas parcialmente atendida.
Segundo a secretária municipal de cultura de Guaporé, Márcia Pez, as madeiras para o restauro chegaram a ser encaminhadas ao local há cerca de quatro anos, mas a reforma não saiu do papel e o material acabou se deteriorando.
Agora, a prefeitura pretende buscar novos recursos para concluir a obra. Boa parte da estrutura está preservada e ainda guarda classes escolares em seu interior, mas o prédio segue sem uso.
Márcia vê no vínculo afetivo da comunidade com o espaço uma possibilidade de dar novo sentido ao prédio, que fica próximo a uma igreja antiga e a um moinho d'água dos primeiros descendentes de colonos italianos da região.
"Tem objetos de lá que vieram para o nosso museu, e penso que a gente poderia levá-los de novo para a brizoleta e começar a pensar em um turismo rural em cima desses locais."