SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Ninguém sabe ao certo como ele chegou lá. Sabe-se que é imponente, mas muito calmo, e que custa aparecer em dias frios ou chuvosos, preferindo o sol forte para regular a temperatura do corpo.
Uma funcionária com mais de 40 anos de serviço no Zoológico de São Paulo conta que, logo ao ser admitida na bilheteria, ouviu falar do hóspede misterioso em um dos lagos do vizinho Jardim Botânico. Ambos continuam por lá, ela e ele, desde antes da expansão da internet e da redemocratização.
Há quem já o tenha visto uma ou duas vezes. Outros jamais se depararam com ele. O veterano em questão é um jacaré-de-papo-amarelo, espécie da mata atlântica, o que reforça a probabilidade de sua presença ali. O Zoológico, o Jardim Botânico e o Simba Safari estão encravados em uma área preservada do bioma, junto ao parque do Estado ou Parque Estadual das Fontes do Ipiranga, todos no bairro da Água Funda, na zona sul da capital paulista.
Mesmo com tanto tempo de casa, o réptil não tem nome, mas é conhecido pelos funcionários simplesmente como o Jacaré do Botânico. A Folha de S.Paulo esteve à sua procura no último dia 11. Chovia e fazia frio. Como era de se esperar, ele não deu as caras.
Para deixar a história ainda mais curiosa, quem trabalha no parque afirma que ele tem uma namorada -esta, porém, seria mais tímida do que ele, e praticamente não aparece no lago que possui cerca de 80 mil m², conforme a concessionária Reserva Paulista.
A bióloga Cybele Lisboa, 43, da Reserva Paulista, confirma a existência da companheira. Segundo ela, o macho tem tamanho estimado em cerca de 2,5 metros e aproximadamente 100 kg, com base em análise visual e comparação com os jacarés que vivem no zoológico.
"É uma espécie carnívora que varia a predação ao longo da vida. Quando jovens, comem insetos, pequenos peixes e invertebrados. Quando adultos, mantêm o peixe como base da alimentação, mas incluem pequenos mamíferos, como cuíca e roedores, e aves", explica Cybele, que trabalha no zoo há 23 anos.
Ela acrescenta que o jacaré-de-papo-amarelo vive em média 50 anos sob cuidados humanos --em vida livre, não há estimativa oficial.
A lenda do réptil é conhecida por funcionários, dos mais antigos aos mais recentes, incluindo os que chegaram após a concessão do espaço à iniciativa privada, há cerca de cinco anos. Mas não são apenas os que lidam diariamente com os animais que já ouviram falar dele.
Moradores do bairro Água Funda e adjacências também guardam suas histórias com o réptil. O barbeiro Israel Monteiro, 43, acreditava se tratar de uma lenda quando ouvia relatos durante passeios com o pai e os irmãos pelo botânico. A descrença durou até o ano passado, quando, durante uma corrida pela avenida Miguel Estefno -que margeia o Jardim Botânico e o Zoo SP-, se deparou com o animal repousando na mata. O local possui grades que separam o parque da via.
Quando era criança, meu pai levava a gente na beira do lago. Eu nem acreditava, para falar a verdade. Até vê-lo no ano passado tomando sol. Paradão. Jacaré vida boa. Comendo do bom e do melhor", conta.
A "vida boa" descrita por Israel tem explicação: no lago, segundo funcionários, há fartos cardumes de tilápia -a refeição principal do animal. Muitas aves também circulam pela área e, num momento de descuido, podem reforçar a dieta.
Funcionários afirmam que as aparições são raras, mas, quando ocorrem, costumam ser registradas em fotos. Um segurança mostrou a imagem de um réptil visivelmente robusto.
Uma pergunta, porém, segue sem resposta: como o réptil foi parar ali? Entre as teses estão uma fuga do zoológico -hipótese praticamente descartada, já que os canos da tubulação são pequenos demais para sua passagem e não há registros de fuga nos relatórios internos-, um deslocamento causado por enchente na região ou a mais provável: ter sido solto ali por alguém que o mantinha ilegalmente em cativeiro.
Uma placa na margem do lago avisa ao público para evitar interações com os animais. Ele que escolheu o lugar. Fica muito na dele, resume uma funcionária.