SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - O julgamento dos três policiais militares acusados de participação no assassinato de Vinicius Gritzbach, 38, delator do PCC (Primeiro Comando da Capital), terá início nesta segunda-feira (22), às 10h, no Fórum Criminal de Guarulhos, na Grande São Paulo. A previsão é de que o júri se estenda até a próxima sexta-feira (26). Gritzbach foi assassinado a tiros em 8 de novembro de 2024, no Aeroporto Internacional de Guarulhos.
Os réus no caso Gritzbach são o soldado Ruan Silva Rodrigues, o cabo Dênis Antônio Martins e o tenente Fernando Genauro da Silva. Eles estão presos preventivamente no Presídio Militar Romão Gomes e são acusados de homicídio doloso e organização criminosa. Além de Gritzbach, os três também vão responder pelo homicídio de Celso Araújo Sampaio Novaes e pelas tentativas de homicídios de Willian Souza Santos e Samara de Oliveira. Eles estavam no aeroporto no dia em que o delator do PCC foi assassinado e acabaram atingidos pelos disparos.
O cabo Dênis, do 30º Batalhão (Carapicuíba), é apontado como um dos atiradores que executou Gritzbach. O soldado Ruan, do 20º Batalhão (Barueri) é apontado pela Corregedoria da PM como o segundo atirador. Ele é amigo do cabo Dênis.
O tenente Genauro, do 23º Batalhão (Pinheiros), foi acusado de dirigir o carro que deu fuga para o cabo e o soldado. Ele e Dênis trabalharam na Força Tática do 42º Batalhão, em Osasco (SP), e atuaram na mesma viatura em 16 de novembro de 2013. O tenente era amigo de Gritzbach e frequentava a casa dele.
Foram relacionadas 21 testemunhas para serem ouvidas, além dos três réus que serão interrogados. Segundo o Tribunal de Justiça, o júri vai ser presidido pelo juiz Rodrigo Tellini de Aguirre Camargo. O magistrado já comandou júris de casos de grande repercussão, como o dos policiais militares envolvidos na chacina de 111 presos da Casa de Detenção, na zona norte da capital. O caso ficou mundialmente conhecido como Massacre do Carandiru e ocorreu em 2 de outubro de 1992.
MANDANTES DO CRIME E OLHEIRO DO PCC NÃO SERÃO JULGADOS
Os dois homens apontados como mandantes do crime estão foragidos. Eles foram identificados como o narcotraficante Emílio Carlos Gongorra Castilho, o Bill ou Cigarreiro, e Diego dos Santos Amaral, o Didi.
O olheiro do PCC Kauê do Amaral Coelho, que estava no aeroporto no dia do crime, também está foragido. Ele é acusado de ter avisado aos atiradores o exato momento em que a vítima deixava o saguão do Terminal 2 do aeroporto.
Eles não serão julgados no júri que começa nesta segunda. A Promotoria explicou que Kauê e Cigarreiro não são citados formalmente no processo e que, por isso, a ação está suspensa. "Esse é o termo técnico que a gente usa quando a pessoa não teve conhecimento formal da acusação. Ela não recebeu a cópia da denúncia e nem compareceu no processo por intermédio de advogado. Não é só que o acusado está foragido, mas também não tem ciência oficial e formal que tem um processo correndo contra ela. Nessas situações, a lei não deixa que o processo prossiga, então ele fica suspenso", explica o promotor Rodrigo Merli, do Ministério Público de São Paulo.
"Quando eles forem presos, vão tomar conhecimento formal da acusação e o processo pode ter andamento. Ou se eles constituírem algum advogado, mesmo que estejam foragidos, o processo pode começar a andar", afirma Merli.
Diego dos Santos Amaral também está foragido, mas constituiu advogado. Só que, no caso dele, o processo foi desmembrado pelo Tribunal. Há recursos que precisam ser analisados pela Justiça. "Sem o julgamento desse recurso, ele não pode ir a júri popular". No caso dos três PMs que serão julgados a partir de hoje, não há nenhuma pendência de recurso.
Os três nunca foram localizados pela polícia e respondem pelos crimes de homicídio e organização criminosa. Didi é tio de Kauê e participou, junto com Cigarreiro, do sequestro de Gritzbach em janeiro de 2022, no Tatuapé, zona leste de São Paulo. Na ocasião, a vítima foi levada a um "tribunal do crime" após ser acusado de ter mandado matar o narcotraficante Antônio Bechelli Santa Fausta, 38, o Cara Preta, criminoso influente no PCC, assassinado a tiros em 27 de dezembro de 2021 no Tatuapé.
Cigarreiro é ligado ao CV (Comando Vermelho) do Rio de Janeiro e ao PCC em São Paulo. Ele foi apresentado a integrantes da facção criminosa paulista por Cara Preta. Um dia antes do assassinato de Gritzbach, ele fretou um avião em Jundiaí (SP) e foi para o Rio, onde se refugiou na Vila Cruzeiro, Penha, reduto do CV.
RELEMBRE O CASO
Vinícius Gritzbach foi assassinado a tiros em 8 de novembro de 2024. O empresário havia desembarcado no Aeroporto Internacional de Guarulhos e foi surpreendido pelos criminosos armados.
Gritzbach se tornou um dos principais delatores do PCC. As investigações sobre o assassinato dele desvendaram a participação de policiais civis e militares associados ao crime organizado.
Para o DHPP, Gritzbach foi assassinado porque desviou R$ 100 milhões em criptomoedas de Cara Preta e ordenou a morte dele. Ele também sumiu com outros R$ 4 milhões de Cigarreiro; e ainda delatou integrantes do PCC para o MP-SP.
As investigações apontam que Gritzbach foi morto por um consórcio formado por criminosos do PCC e do CV, com a participação dos três PMs. Além de Cigarreiro e Didi, Gritzbach também havia delatado à Corregedoria da Polícia Civil um delegado e outros seis investigadores acusados por corrupção, um advogado e dois empresários vinculados ao PCC. Eles não respondem pelo homicídio.
PMs teriam aceitado promessa de recompensa para a execução e participação no crime. Ainda conforme a denúncia do MP, eles agiram "como verdadeiros mercenários e matadores de aluguel".