SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Os advogados dos policiais militares Dênis Antônio Martins, Ruan Silva Rodrigues e Fernando Genauro da Silva, réus pelo assassinato do delator do PCC (Primeiro Comando da Capital) Antonio Vinícius Lopes Gritzbach, em novembro de 2024, com tiros de fuzil no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, afirmam que a acusação foi baseada em provas forjadas durante a investigação do caso.
A defesa diz ter provas de que nenhum dos três PMs estava no aeroporto no momento do ataque. A origem das novas provas é a mesma usada pela Promotoria para colocar os policiais na cena do crime: os dados coletados por antenas de telefonia.
Os advogados também contestam exames de material genético e outros elementos periciais usados para apontá-los como os autores do ataque.
Um dos principais julgamentos do caso Gritzbach começou nesta segunda-feira (22). O trio de PMs é apontado como atiradores e motorista do carro usado no atentado. Três outros réus apontados como mandantes e olheiro do ataque estão foragidos.
Os advogados Cláudio Dalledone Júnior, Mauro das Costa Ribas Junior e Renan Canto, que defendem os PMs, listaram argumentos em uma entrevista coletiva em frente ao Fórum de Guarulhos na manhã desta segunda.
A principal linha de argumentação da defesa aponta para indícios de participação de policiais civis no planejamento do crime.
"Temos a banda podre da Polícia Civil, que foi investigada pelo Gaeco [Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado, do Ministério Público de São Paulo], extorquindo Vinícius Gritzbach e que tinha tido interesse e motivação para dar cabo da vida dele", disse o advogado Cláudio Dalledone, que defende o cabo Ruan Rodrigues. "Nós temos provas documental, testemunhal, e material disso."
Os policiais civis Fabio Baena Martin e Eduardo Monteiro foram arrolados pela defesa como testemunhas a serem ouvidas no julgamento. Segundo o advogado Mauro Ribas, os dois têm "muito a explicar".
Os policiais trabalhavam no DHPP (Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa) na época da prisão de Gritzbach pela suspeita de participação na morte de um traficante do PCC em 2021 -este crime é considerado, pela acusação, a motivação para o assassinato de Gritzbach.
Baena e Monteiro foram presos por suspeita de extorquirem Gritzbach. Os dois foram delatados por ele. A defesa sustenta que a investigação não explorou a hipótese de que policiais civis participaram do crime.
Segundo a defesa, as ERBs (Estações de Rádio Base, usadas para envio de dados de telefonia celular) apontam que os acusados estavam nos municípios de Osasco e Cotia em horários próximos ao ataque. Os documentos de operadoras de telefonia que apontam posições dos PMs distantes de Guarulhos não teriam sido levadas em conta pela investigação, segundo os advogados.
A acusação afirma que as ERBs demonstram que os policiais saíram de Osasco e trafegaram pela marginal Tietê em direção a Guarulhos, segundo o relatório final da investigação da Polícia Civil. Eles teriam desligado os celulares, segundo a Promotoria.
Outro ponto que deve ser explorado durante o julgamento é a coleta de DNA dos acusados no carro usado no ataque e na fuga. Os advogados afirmam que a primeira perícia no veículo não encontrou material genético dos acusados.
Eles dizem que o material genético de Ruan Rodrigues, por exemplo, só apareceu na investigação após uma denúncia anônima apontá-lo como autor do crime. "A acusação tem que mostrar o que é [o material genético], se é cabelo, sudorese, se é sangue, porque até agora não sabemos", disse Calledone.
A defesa fala em quebra de cadeia de custódia do material genético encontrado, ou seja, que as provas coletadas não foram preservadas pela polícia.
O advogado Renan Canto discorda inclusive da tese de que Emílio Carlos Gongorra Castilho, o Cigarreira, seria mandante do crime. Apontado como traficante ligado ao CV (Comando Vermelho), Cigarreira teria participado de um "tribunal do crime" realizado em 2022 para julgar Gritzbach pelo assassinato de um traficante que atuava na região do Tatuapé, na zona leste de São Paulo.
"Mais uma prova montada para extorquir", disse Canto sobre a menção a Cigarreira. "Nós temos um inquérito instaurado pela Polícia Federal que, num só tom, diz o quê? Que os policiais do DHPP forjavam provas."
Ele ressaltou que essas acusações contra policiais civis constavam de um termo de delação feito por Gritzbach oito dias antes do assassinato.