SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O medo das ameaças feitas pelo namorado era tão grande que Michele já havia passado a dormir com a porta do quarto trancada. Ele chegava tarde, alcoolizado, e dormia na sala do apartamento onde moravam, em Pinheiros, zona oeste de São Paulo.

Mas houve uma noite em que chegou quando ela ainda não havia se trancado. Os dois discutiram, e ele partiu para cima da namorada quando ela disse que não aguentava mais a relação e iria embora. Derrubou-a no chão e começou a apertar seu pescoço para asfixiá-la. Gritava que iria matá-la.

Michele, com 1,60 metro de altura, bem menor do que o agressor, se debatia, até que conseguiu atingir, com um chute, a genitália dele. Com a dor, ele saiu de cima da namorada. Ela só teve tempo de pegar a bolsa, e saiu desesperada atrás de um táxi. Refugiou-se em um hotel. No dia seguinte, ele trocou a fechadura do apartamento e a proibiu de pegar suas coisas. Nem uma troca de roupa, nada.

A noite traumática ocorreu há 20 anos, em junho de 2006, mas só recentemente a empresária Michele Vanzella, 50, diretora da casa de jazz Blue Note no Brasil, conseguiu falar publicamente sobre o episódio.

Ela narrou a experiência no livro "Virando Páginas", que reúne relatos de mulheres que enfrentaram a violência envolvendo machismo e misoginia.

A coletânea foi organizada pelo grupo Virada Feminina, que atua pelos direitos das mulheres, e teve a primeira edição lançada no ano passado, com 32 coautoras, e a segunda, com 67, neste mês (vendida sob encomenda pelo perfil do Instagram @virandopaginasoficial; R$ 69).

À reportagem, Michele diz que tinha medo e vergonha de se abrir, mas decidiu fazer isso para tentar ajudar outras mulheres a perceberem a violência antes do que ela percebeu.

"Eu não sabia o que fazer, como pedir ajuda", conta. "A Lei Maria da Penha [que pune agressões contra a mulher] só foi promulgada em agosto de 2006, dois meses depois dessa tentativa de feminicídio que sofri. Naquela época nem existia a leitura do que é violência doméstica."

O próprio feminicídio, que é o homicídio cometido contra a mulher em razão de seu gênero, só foi tipificado como crime no Brasil em 2015.

Michele conta que, naquela "noite de terror", foi a primeira vez que o namorado a agrediu fisicamente, mas a tortura psicológica ocorreu durante todo o namoro, por mais de um ano, com ameaças a ela e à família.

Em uma viagem que fizeram para o Uruguai, por exemplo, em pleno inverno, ele desligou a água quente e a obrigou a tomar banhos gelados.

"Demorei para entender que tudo aquilo não era normal. Pensava: ?Ah, ele me ofendeu, mas estava alterado, amanhã vai estar melhor?. A gente vai criando desculpas de aceitação até que a violência chega ao ápice."

Michele sentia medo e não tinha a família por perto. Ela nasceu em Guaporé, na Serra Gaúcha, uma cidade com menos de 30 mil habitantes. Aos 13, começou a trabalhar no escritório de contabilidade do pai. Com 15, se casou com um engenheiro de 27 anos.

Segundo ela, era algo aceito naquele tempo, na região onde morava, um casamento entre uma menina dessa idade e um homem mais velho ?embora Michele tenha tido de pedir autorização do bispo para se casar na igreja, já que a idade mínima para isso era 16 anos.

Já outras decisões que tomou depois não foram bem-vistas. Aos 25, optou por não ter filhos e, aos 27, pediu o divórcio.

"A carga para a mulher na geração de um filho é infinitamente maior", diz. "Queria me tornar uma executiva e pensava que, talvez, lá não fosse o meu lugar. Seria difícil ter uma criança sem uma rede de apoio. Foi uma decisão madura, mas fui muito questionada, o que, com certeza, não teria acontecido se eu fosse homem."

Michele tinha feito faculdade de ciências contábeis e conseguiu uma vaga no departamento administrativo de uma produtora de conteúdo de São Paulo. Aos poucos, foi atuando também na parte artística, fazendo locuções.

Estava bem no emprego, até que conheceu o namorado, que era empresário e a levou para trabalhar na sua empresa. "Começa assim: o narcisista te tira do trabalho, te afasta dos amigos, da família. Vai te manipulando até te fechar num calabouço."

Depois daquela noite, Michele teve que reconstruir a vida. Conseguiu retomar o emprego na produtora e alugou um apartamento ?alguns meses depois, soube que o ex-namorado havia morrido de infarto.

Em 2012, abriu a sua empresa de produção de conteúdo e gestão de marcas ligadas à cultura e ao entretenimento e, há nove anos, tornou-se diretora de negócios, eventos e patrocínios do Blue Note no Brasil.

Desde 2024, é mentora do programa "Elas na Indústria", da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), que atende mulheres interessadas em empreender e atingir cargos de liderança. Nessa convivência, percebeu a importância de falar sobre a violência contra a mulher e passou a dar palestras.

Decidiu tentar carreira política e, em março, filiou-se ao PSD, de Gilberto Kassab, partido pelo qual é pré-candidata a deputada federal, com a bandeira do combate ao feminicídio.

O Brasil registrou no primeiro trimestre deste ano 399 vítimas de feminicídio, uma média de 4 mulheres mortas por dia em contextos de violência doméstica, familiar ou envolvendo discriminação à condição feminina.

Michele define-se ideologicamente como centro-direita. Diz não ser bolsonarista ?o pré-candidato de seu partido à presidência é Ronaldo Caiado.

Não quer ser associada ao que chama de "feminismo extremista, que fica duelando o tempo todo com os homens".

"O que é o feminismo? Se é ter direito de escolha, de escolher o que fazer com o meu corpo, ter ou não filhos, me divorciar, não dar satisfação, ter o meu trabalho, entrar na política e brigar por uma cadeira em um mundo extremamente masculino... Se isso é ser feminista, eu aceito."