SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A gestão do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), vai abrir ao público uma área verde de 300 mil metros quadrados às margens da represa Billings, no extremo sul da capital. Porém, com um ano e nove meses de atraso e remarcações no cronograma, o local ainda tem ocupações irregulares em seu território e obras incompletas.

Trata-se de uma das fases de implantação do Parque dos Búfalos, no Jardim Apurá, uma área classificada pela lei de zoneamento como Zepam (Zona Especial de Proteção Ambiental) e ponto vulnerável à grilagem de terras na periferia da cidade.

Composto por oito áreas de proteção, nem todas conectadas, o parque terá no total 540 mil m² de vegetação da mata atlântica junto à Billings, represa responsável pelo abastecimento hídrico de 1,4 milhões de pessoas na Grande São Paulo.

O maior trecho tem 300 mil m² e estava previsto para ser aberto em dezembro do ano passado, mas a inauguração foi adiada. Depois, foi remarcada para o dia 27 de junho, segundo documentos e mensagens de servidores obtidos pela Folha de S.Paulo.

Porém, após questionamentos da reportagem sobre as condições do parque, a prefeitura negou que a abertura estava planejada para essa data. Agora, isso só deve acontecer no segundo semestre, segundo a secretaria de Meio Ambiente.

Esta é a segunda fase de implantação do Parque dos Búfalos. O primeiro ponto, conhecido Núcleo Pilão, foi inaugurado no ano passado.

"Durante a execução das obras, foram necessários ajustes de prazo para o reforço das estruturas de contenção do parque", diz a prefeitura sobre os atrasos.

Neste mês, a Folha visitou o Parque dos Búfalos e conversou com moradores, funcionários e membros do conselho gestor. O cenário é bastante diferente do projeto planejado pela gestão municipal.

Duas ocupações irregulares sobrevivem dentro da área a ser inaugurada em breve.

Uma das comunidades é a favela da Fumaça, que havia sido desapropriada em 2019, mas foi novamente ocupada e hoje tem cerca de 520 famílias, segundo os moradores. Parte do esgoto da favela, formada em parte por barracos de madeira, é despejado em um córrego que deságua na Billings.

"A prefeitura desocupou a favela, mas não demoliu as casas, então ela foi sendo reocupada com o tempo", diz Wesley Rosa, 39, ativista ambiental e membro do conselho gestor do parque.

Os antigos moradores da comunidade foram beneficiados com apartamentos no condomínio Espanha, o maior complexo habitacional do Minha Casa, Minha Vida na capital paulista, com 193 prédios e 3.860 moradias às margens da represa.

Planejado durante a gestão do então prefeito Fernando Haddad (PT), o empreendimento foi alvo de críticas de ambientalistas por ter sido construído no meio da zona de proteção, desmatando uma área já ambientalmente sensível.

Outra ocupação irregular fica ao lado de uma das entradas do parque. Esse território foi incluído na zona de proteção por um decreto municipal de 2024, mas foi invadido e desmatado.

Terrenos do "Residencial Lotus", como o loteamento clandestino é conhecido na região, estão sendo anunciados em publicações nas redes sociais por R$ 35 mil, parcelados em até 120 vezes. Hoje, ali vivem cerca de 30 famílias.

"Mais de 12 mil metros do parque estão sem grades de proteção. Ele permanece sob constante ameaça de grilagem. São loteamentos clandestinos que visam o lucro com a destruição da vegetação em uma área pública. As casas já nascem com vários andares", diz Rosa.

Em nota, a prefeitura afirmou que "a Secretaria Executiva do Programa Mananciais atua, desde 2024, no processo de liberação da área e atendimento habitacional das famílias para viabilizar a implantação do parque."

A prefeitura argumenta que parte dos gradis foram furtados e que o parque "tem 20 vigilantes que percorrem toda sua extensão em rondas diárias em dois períodos". Em conversa com a Folha sob condição de anonimato, no entanto, dois seguranças terceirizados afirmaram que a equipe tem apenas uma motocicleta disponível para percorrer todo o território de 300 mil m².

Na qo dia 11, a reportagem constatou que a maioria das intervenções planejadas está longe de ser finalizada mesmo com quase dois anos de atraso.

As obras começaram em novembro de 2023 e deveriam ter durado dez meses, segundo o contrato da prefeitura com a construtora Engecon ABC. Essa fase de implantação custou R$ 16 milhões aos cofres municipais.

Três das quatro praças de convivência previstas ainda não saíram do papel. Nesses espaços haveria playground, banheiros, bancos, equipamentos de ginástica e um estacionamento.

Também estava previsto o calçamento de cinco quilômetros das trilhas abertas pelos moradores voluntariamente. Porém, apenas alguns metros foram efetivamente construídos. Não há nenhum banco em toda a área do parque -e apenas um bebedouro foi instalado em uma das entradas. Postes de iluminação estavam sendo montados na semana passada.

Uma passarela também foi erguida para ligar alguns pontos. Porém, a estrutura já apresenta problemas. Pedaços do piso estão caindo em alguns trechos, deixando à mostra o isopor utilizado na construção.

O prédio administrativo, apelidado de Esplanada, foi efetivamente erguido. Ali, segundo o projeto, serão oferecidas oficinas de educação ambiental.

Até 2015, toda a área do Parque dos Búfalos pertencia à incorporadora Ingaí, que pretendia construir ali o condomínio Espanha, do Minha Casa, Minha Vida.

Pressionada por movimentos ambientais e pelo Ministério Público, a empresa assinou um acordo de compensação ambiental com a prefeitura. Ela construiu os prédios e cedeu o restante da área para a abertura do parque municipal. Na época, o acordo foi questionado em uma ação civil pública, mas depois foi liberado pela Justiça.

O aposentado Jordão Maciel, 77, também membro do conselho gestor, é um dos moradores do Jardim Apurá mais engajados na consolidação do Parque dos Búfalos, processo que já dura mais de uma década. Organizador de um viveiro comunitário, ele conta já ter plantado mais de 3.000 mudas de árvores nativas da mata atlântica no território.

"Durante as obras, várias vezes os funcionários passaram o trator e destruíram muitas mudas. Mas eu continuo. O que fazemos aqui é um plantio de guerrilha", diz, mostrando uma semente de araucária que será plantada em breve.