BOGOTÁ, COLÔMBIA (FOLHAPRESS) - Uma expedição pelo rio Tietê encontrou traços de agrotóxicos, cocaína e cafeína já nos arredores da nascente do rio paulista, em Salesópolis. O mesmo foi visto em outros pontos do corpo d'água, assim como a presença de microplásticos. Ao se chegar à região metropolitana de São Paulo, o que se assiste é o colapso ambiental do rio.

"É uma coisa que chamou atenção. Não deveria ter nem esses traços, ainda que ínfimos, porque ali é um lugar extremamente preservado", disse Gustavo Veronesi, coordenador da Causa Água Limpa da SOS Mata Atlântica, acrescentando que o índice de qualidade de água é ótimo na nascente. "É um lugar lindo, você vê o Tietê brotando, é fantástico. Poder pegar a água, beber, jogar na cara."

A expedição foi feita pela organização não governamental de 9 a 14 de junho de 2025. Houve a coleta de amostras em 14 pontos nos mais de 1.100 km de extensão do rio, que passa por 265 cidades e deságua no rio Paraná, na divisa do estado com Mato Grosso do Sul.

A ideia era testá-las à procura de microplásticos, carbono, fármacos, drogas Ilícitas, agrotóxico, microrganismos e parasitas. As análises ficaram sob responsabilidade de quatro universidades paulistas.

Resultado das análises: não há qualquer trecho do rio plenamente livre de algum tipo de contaminação. Todos os pontos com amostras examinadas tinham, por exemplo, presença de microplásticos.

Foram constatados ainda 25 tipos diferentes de agrotóxicos e 16 substâncias (fármacos ou drogas ilícitas).

Identificou-se a presença de herbicidas, fungicidas e inseticidas associados especialmente às plantações de cana-de-açúcar e à agricultura intensiva ?devido ao escoamento superficial de água e ao transporte difuso de contaminantes, os contaminantes acabariam nas águas do rio.

Quanto aos fármacos, substâncias e drogas ilícitas na nascente do rio, foram detectados cafeína e traços de cocaína em concentração abaixo do limite de quantificação. Isso significa, segundo o relatório, uma contaminação inicial, talvez relacionada a esgoto doméstico ou a atividades recreativas na área.

Algumas outras substâncias encontradas em outros trechos do rio foram losartana, carbamazepina e diclofenaco, utilizadas em medicamentos, por exemplo, para pressão e dores.

De acordo com a análise da SOS Mata Atlântica, a detecção de cocaína é reconhecida como indicadora de contaminação por esgoto doméstico.

Nas proximidades da capital paulista, a presença de esgoto é o que chama a atenção.

Os parâmetros relacionados ao despejo de esgoto se fizeram notar a partir das análises de carbono na água. A concentração de carbono aumenta conforme o rio se aproxima de Mogi das Cruzes, intensifica-se em Guarulhos e São Paulo e atinge níveis altos em Osasco.

Como um todo, as análises da SOS Mata Atlântica apontam que os piores indicadores ambientais estão nos trechos mais urbanizados da bacia do Tietê.

"Chamou muita atenção como o esgoto ainda é um fator, um desafiador aqui na cidade de São Paulo, na região metropolitana, na parte mais urbanizada. Tem um caminho enorme pela frente para ser seguido."

O governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) tem anunciado melhorias na coleta de esgoto em diferentes pontos do rio Tietê ?recentemente a gestão afirmou que passou a usar IA e satélites para monitorar a poluição na bacia.

Veronesi disse que não se tem observado melhorias significativas na qualidade da água do Tietê.

"A Cetesb até lançou um novo sistema de monitoramento que talvez vai ajudar na fiscalização. É isso, precisa de fiscalização, muita fiscalização", afirmou Veronesi. "Mas não é falando números vultuosos que vai melhorar. Vai melhorar com ações práticas lá na ponta, no bairro, de cada lugarzinho. Não é com números estrambólicos que a gente vai conseguir ter essa noção."

Na avaliação do representante da SOS Mata Atlântica, a análise serve mais para fornecer perguntas e elementos sobre como buscar melhorias em alguns setores para que o Tietê não acabe poluído. "Não dá para ficar inerte com dados tão chocantes como esses."

O projeto foi patrocinado pela Itaúsa e custou aproximadamente R$ 200 mil. Participaram pesquisadores da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), da UFABC (Universidade Federal do ABC), da USCS (Universidade Municipal de São Caetano do Sul), e da Cena/USP (Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo).

Está agendada para esta quinta-feira (25), às 14h, a apresentação do relatório da SOS Mata Atlântica, em parceria com a Frente Parlamentar Ambientalista, na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo.

A entidade também preparou um site (https://tiete.sosma.org.br/) para visualizar os resultados da expedição.