SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Câmeras corporais gravaram a conversa entre policiais militares e a diretora de uma escola municipal no Caxingui, zona oeste de São Paulo. Os agentes foram ao local após um pai se queixar de um desenho feito pela filha durante uma atividade escolar.

O fato ocorreu em novembro passado, após uma aula sobre o livro "Ciranda em Aruanda", que representa a mitologia dos orixás na cultura afro-brasileira. As imagens se tornaram públicas nesta semana.

O pai da estudante, um policial militar que se disse cristão, não gostou que a filha tivesse realizado um desenho relacionado a outra religião. Ele então acionou a Polícia Militar, que enviou equipes para a escola.

A diretora, ao perceber a quantidade de PMs no local, se surpreendeu. A imagem mostra o diálogo com os policiais, a quem foi explicada a atividade realizada.

Um dos PMs, que se identificou como tenente Ronald, comandante de uma companhia -unidade da Polícia Militar localizada em bairros-, rebateu as falas da diretora. Antes de deixar a escola, ele disse: "A senhora quis impor e ditar as suas regras, ditar seu pensamento, ditar a sua ideologia. Não vou conversar com a senhora mais".

A gravação começa com o Copom (central da PM) informando que o solicitante, público interno [policial militar], dizia que a diretoria estava sendo negligente em relação a uma situação de intolerância religiosa. Os PMs que atenderam ao chamado seguiram para o endereço da unidade, a Emei (Escola Municipal de Ensino Infantil) Antônio Bento.

Ao menos três equipes foram enviadas ao local. O pai da criança aguardava os policiais na parte externa da escola. Ele explicou aos agentes que houve uma atividade da qual não gostou. A docente teria informado sobre a existência de uma lei federal que define o conteúdo a ser ministrado.

O pai afirmou ter retirado da parede a arte que a filha havia feito anteriormente.

Após ouvir a versão do pai, os PMs entraram na escola. A diretora Aline Aparecida Floriano Nogueira explicou a lei. "O trabalho da escola não sai da minha cabeça nem da cabeça de nenhum professor", disse ela, ao ressaltar que há um programa pedagógico a ser seguido.

Em dado momento, a diretora chamou a presença dos policiais no local de coação à escola, o que irritou o tenente Ronald, que pediu que seus subordinados saíssem do estabelecimento.

"A senhora está alterada, a senhora está ficando nervosa. Eu estou expondo uma coisa. A senhora quer impor. Eu vou orientá-lo a tomar as providências cabíveis", disse o PM.

Em seguida, o tenente afirmou que a diretora quis impor sua ideologia e, ao se virar de costas, chamou-a de mal-educada.

Na atividade em questão, as crianças precisaram desenhar um dos orixás retratados no livro, como parte do ensino antirracista da rede municipal de ensino e também para marcar o Dia da Consciência Negra.

Em nota divulgada nesta quarta-feira (24), a gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos) informou que o caso foi investigado pelas polícias Civil e Militar.

"No âmbito do Inquérito Policial Militar (IPM), foram analisadas as imagens captadas pelas câmeras corporais, colhidos os depoimentos dos envolvidos e adotados os procedimentos apuratórios previstos na legislação. O IPM foi encaminhado pela Corregedoria ao Tribunal de Justiça Militar para análise."

"Já a Polícia Civil apurou o caso por meio do 34º Distrito Policial (Vila Sônia), que indiciou o investigado pelo crime de intolerância religiosa. O inquérito policial foi concluído e relatado ao Poder Judiciário em fevereiro de 2026, não retornando mais à unidade."

Por sua vez, a Prefeitura de São Paulo disse que a Secretaria Municipal de Educação prestou todos os esclarecimentos cabíveis, bem como o devido apoio à comunidade escolar envolvida.