SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESSS) - A florada dos ipês-roxos já pode ser vista em cidades como São Paulo e em Brasília, mas de forma diferente da observada em anos anteriores. Além de surgirem mais cedo, muitas árvores apresentam copas menos carregadas. Para pesquisadores, as alterações podem estar relacionadas às condições climáticas registradas nos últimos meses, especialmente às mudanças no regime de chuvas.
Conhecida cientificamente como Handroanthus impetiginosus e popularmente chamada de ipê-roxo-de-bola, a árvore costuma transformar ruas, parques e avenidas em cartões-postais entre julho e setembro, durante o inverno.
Em anos de florada intensa, as árvores perdem praticamente todas as folhas antes de serem tomadas por flores em tons de rosa escuro e roxo, formando copas que se destacam na paisagem urbana.
Neste ano, porém, o cenário tem sido diferente. Em São Paulo, muitas árvores floresceram mantendo parte da folhagem e com menor quantidade de flores. O fenômeno também foi observado em Brasília, cidade conhecida pela presença marcante dos ipês em áreas públicas e parques.
Segundo o botânico e paisagista Ricardo Cardim, as condições climáticas registradas nos últimos meses ajudam a explicar o comportamento da espécie.
"O que eu percebo é que os ipês-roxos-de-bola estão florescendo com folhas ainda na copa, o que não é normal. Normalmente eles perdem todas as folhas e apresentam uma florada exuberante. Neste ano, eles estão com poucas flores", afirma.
De acordo com Cardim, a espécie depende de um período de estiagem para produzir suas florações mais intensas. A seca funciona como um fator de estresse que leva a árvore a perder as folhas antes de direcionar energia para a produção das flores.
A influência das chuvas sobre a floração também é destacada pela botânica e bióloga evolutiva Annelise Frazão, professora da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco). Ela explica que, embora os ipês floresçam durante os períodos de dias mais curtos do ano, o comportamento da espécie parece responder também ao encerramento da estação chuvosa.
"Essas plantas têm um pico de floração durante períodos de dias mais curtos. Mas, de forma geral, a floração também parece responder a quando as chuvas param. Depois que termina o período chuvoso, os ipês começam a florescer algum tempo depois", afirma.
A pesquisadora detalha que a relação entre chuva e floração ajuda a entender por que os calendários dos ipês variam em diferentes regiões do país. Enquanto no Sudeste o período chuvoso costuma terminar entre março e abril, no litoral do Nordeste as chuvas se estendem por boa parte do primeiro semestre.
Isso faz com que uma mesma espécie apresente comportamentos distintos dependendo da região onde está inserida. "Por isso, os ipês daqui costumam florescer mais para o fim do segundo semestre", afirma.
As alterações, de acordo com Frazão, são recentes nos padrões climáticos e tornam esse processo menos previsível. Ela afirma que os regimes de chuva têm se mostrado mais irregulares, o que leva as plantas a responderem de maneira igualmente irregular.
Embora não existam estudos específicos demonstrando uma mudança permanente no calendário de floração do Handroanthus impetiginosus, pesquisadores afirmam que alterações semelhantes já foram observadas em outras espécies.
"Não tem um trabalho mostrando especificamente que os ipês estão mudando de período de floração. Mas toda vez que existe uma mudança no regime de chuvas, a gente observa alterações no padrão de floração dessas plantas", afirma a pesquisadora.
Ela ressalta que os ipês acabam funcionando como indicadores visíveis dessas transformações por serem árvores amplamente utilizadas na arborização urbana e por apresentarem florações facilmente percebidas pela população.
"Eles são um excelente sinal para mostrar o quanto o regime de chuvas está funcionando naquele ano. Toda vez que existe um período mais seco ou uma mudança importante nas chuvas, a gente vê consequências no padrão de floração", diz Frazão
Para Cardim, além das condições climáticas de cada ano, o próprio ambiente urbano exerce influência sobre o desenvolvimento das árvores. O avanço da impermeabilização do solo, a redução da cobertura vegetal e a formação de ilhas de calor modificam as condições ambientais às quais as espécies estão submetidas.
"Hoje São Paulo não é mais a cidade da garoa, mas a cidade dos eventos climáticos extremos. A ilha de calor da cidade é muito significativa e isso influencia certamente na floração das árvores."