SÃO PAUL, SP, E BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Quatro estados brasileiros registraram, no ano passado, a aprovação de quase todos os alunos da rede estadual no ensino médio. Piauí, Pará, Mato Grosso e Espírito Santo apresentaram taxa de aprovação de 99% para essa etapa.

Os dados são do Censo Escolar 2025 e foram divulgados pelo Ministério da Educação na manhã desta sexta-feira (26). No Brasil, a taxa de aprovação das redes estaduais foi de 94,3%. É o maior índice desde 2020, ano em que houve recomendação para as escolas não reprovarem os estudantes em razão da interrupção das aulas presenciais pela pandemia.

A maioria absoluta dos estudantes de ensino médio da rede pública do país está em escolas estaduais: um total de 6,04 milhões, ou 95,4%. O restante é vinculado a unidades federais e municipais.

Aprovações altas podem impactar nos resultados do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), que combina essas taxas com o resultado em provas de português e matemática.

Nesses quatro estados, a taxa de aprovação registrada no ano passado é a maior desde 2015, quando o dado começou a ser divulgado. O Piauí, comandado pelo governador Rafael Fonteles (PT), registrou ter aprovado 99,5% dos cerca de 103,3 mil matriculados no ensino médio na rede estadual. O estado registrou que apenas 103 estudantes foram reprovados e que 415 teriam abandonado os estudos no ano passado.

O Pará, sob a gestão de Helder Barbalho (MDB), registrou a segunda maior taxa do país, com 99,3% dos estudantes aprovados no ensino médio. Dos mais de 300 mil matriculados nessa etapa, apenas 600 foram reprovados. Os dados mostram ainda que não houve nenhuma reprovação no 1º e no 2º anos, apenas na última série da etapa. Outros cerca de 1.500 abandonaram os estudos.

Já em Mato Grosso, sob a gestão de Mauro Mendes (União Brasil), 99,2% dos estudantes do ensino médio foram aprovados. Dos mais de 117 mil matriculados, apenas 820 não passaram de ano. O estado registrou ainda que nenhum aluno abandonou os estudos no 1º e no 2º anos dessa etapa e que 117 pararam de frequentar a escola no 3º ano.

No Espírito Santo, na gestão Ricardo Casagrande (PSB), a taxa de aprovação foi de 98,8%. Dos 102 mil estudantes da rede estadual, apenas cerca de 700 alunos foram reprovados em alguma série do ensino médio e aproximadamente 500 abandonaram os estudos.

Como mostrou a Folha de S.Paulo, o Pará alterou em 2023 o modelo de aprovação dos estudantes. Naquele ano, as escolas passaram a aplicar a progressão continuada, em que os estudantes não podem ser reprovados a cada série, mas apenas ao final do ciclo de cada etapa. No caso do ensino médio, eles só foram reprovados no 3º ano.

Modelo similar foi adotado pelo Piauí no ano passado, o que levou ao aumento da taxa de aprovação nessa etapa. O mecanismo também é utilizado em outros estados brasileiros como tentativa de reduzir a evasão escolar.

No caso do Pará, o modelo é questionado sobretudo por registrar a aprovação de todos os alunos no 1º e 2º anos, taxa nunca antes alcançada por nenhum dos estados brasileiros.

Em outras redes que adotam o modelo de progressão continuada, normalmente a regra é aplicada apenas para o desempenho, e alunos que não tenham frequência mínima de 75% do ano letivo são reprovados ?esse é o percentual definido pela LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação).

Especialistas da área alertam que aprovar aqueles que não têm frequência escolar mínima faz com que os estudantes com maior risco de abandonar a escola fiquem invisíveis nos registros oficiais e, portanto, não sejam alvo de ações para evitar a evasão.

A elevação da taxa de aprovação é um objetivo buscado pelo país há anos, já que diversos estudos apontam que a reprovação não garante o aprendizado no ano seguinte e ainda aumenta as chances de o estudante abandonar os estudos.

No entanto, especialistas apontam que o rápido crescimento dessa taxa pode ser um resultado artificial, consequência de políticas que determinam a aprovação para inflar indicadores, como o Ideb.

Há alguns anos, estudiosos defendem que a taxa de aprovação não traz o retrato mais fiel sobre a melhoria na escolaridade. Os dados consideram apenas o aluno que abandonou o estudo no meio do ano letivo. O aluno que evade (ou seja, não continua a estudar no ano seguinte) não entra na conta.