SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A Capela dos Aflitos, um dos templos mais antigos de São Paulo, será reaberta neste sábado (27) após obras de restauração. Escondida entre os prédios do bairro da Liberdade, a igreja preserva a memória do antigo Cemitério dos Aflitos, onde eram enterrados escravizados, indígenas, pobres e condenados à morte.

O entorno também abrigou o pelourinho, a cadeia e o campo da forca (onde hoje fica a praça da Liberdade), tornando-se um dos lugares mais marcados pela violência escravocrata na história da capital paulista.

A restauração da capela faz parte de um projeto mais amplo de valorização desse patrimônio histórico. A cerimônia de reinauguração começa às 10h deste sábado, com uma missa inculturada.

Em seguida, haverá a tradicional lavagem da Capela dos Aflitos, intervenções culturais ancestrais e um cortejo até a Igreja São Gonçalo Garcia.

A programação será encerrada com um almoço aberto aos participantes. Segundo os organizadores, a celebração busca unir fé, memória, cultura e resistência.

Construída em 1775, a capela foi erguida ao lado do cemitério criado para receber pessoas que não podiam ser sepultadas nos cemitérios das igrejas da época.

Além do cemitério, a região concentrava alguns dos principais símbolos do sistema escravocrata na cidade.

Com a inauguração do Cemitério da Consolação, em 1858, o Cemitério dos Aflitos foi desativado e o terreno acabou loteado pela Igreja Católica. Restaram apenas a pequena capela e o beco que dá acesso a ela, hoje cercados por edifícios em uma das áreas mais movimentadas da capital.

Ao longo dos séculos, a construção passou por sucessivas ampliações e restaurações. Originalmente erguida em taipa de pilão, foi ampliada no fim do século 19 e novamente na década de 1960.

Um incêndio no início dos anos 1990 danificou parte da estrutura. Em 2018, novas rachaduras apareceram nas paredes e parte do telhado cedeu. Segundo divulgado à época, os danos foram provocados por uma obra realizada no terreno vizinho.

Foi justamente essa construção que acabou revelando uma parte importante da história do local. O terreno seria ocupado por um centro comercial, mas a União dos Amigos da Capela dos Aflitos (Unamca) denunciou irregularidades e cobrou estudos arqueológicos, já que a área era considerada de interesse histórico pelos órgãos de preservação.

As escavações identificaram ossadas de nove indivíduos e objetos ligados a religiões de matriz africana, principalmente ao culto de Ogum. Com a descoberta, o terreno foi reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como sítio arqueológico.

A mobilização de pesquisadores, arqueólogos e do movimento negro levou o então prefeito Bruno Covas a sancionar, em 2020, a lei que prevê a criação do Memorial dos Aflitos no local.

O espaço terá como objetivo preservar e divulgar a história das pessoas negras que viveram e morreram naquela região entre os séculos 18 e 19.

A Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa destinou R$ 1,2 milhão à Mitra Arquidiocesana de São Paulo, responsável pela administração da capela. Os recursos foram utilizados na restauração do templo e na requalificação urbanística da rua dos Aflitos.

O investimento complementou cerca de R$ 2 milhões obtidos pela Carollo Arquitetura e Restauro, em parceria com a Unamca, por meio de um edital do ProAC, da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo, e do Ministério da Cultura.

A Capela dos Aflitos também é conhecida pela devoção popular a Francisco José das Chagas, o Chaguinhas. Militar negro, ele foi condenado à morte em 1821 após liderar um motim em Santos em protesto contra o atraso no pagamento de salários.

Levado ao campo da forca para ser executado, Chaguinhas teria sobrevivido a duas tentativas de enforcamento porque a corda arrebentou. Relatos da época dizem que a multidão passou a pedir sua libertação, gritando liberdade. A execução, porém, foi concluída, e o militar acabou morto diante do público.

Embora nunca tenha sido canonizado pela Igreja Católica, Chaguinhas tornou-se um santo popular. Até hoje, devotos deixam bilhetes na porta de madeira da capela e batem três vezes antes de fazer pedidos ou agradecer graças alcançadas. O ritual foi reconhecido como patrimônio cultural imaterial do Estado de São Paulo em 2024.

A figura de Chaguinhas também está ligada a uma das versões mais conhecidas para a origem do nome do bairro da Liberdade. Segundo essa tradição, os gritos da multidão durante sua execução acabaram batizando a região, embora pesquisadores ressaltem que essa explicação não seja consenso histórico.

A prometida estátua em homenagem a Chaguinhas, anunciada em 2023 e prevista para ser instalada no ano seguinte, não integra o projeto de requalificação apresentado para a Capela dos Aflitos e seu entorno.

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