SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - João Antônio Pivetta da Silva, um dos suspeitos presos de ter retirado a câmera da jovem morta após um salto de rope jump em Limeira (SP), escreveu uma carta em que nega a acusação e diz que outros três colegas podem ter levado o equipamento.
Suspeito escreveu carta de três páginas na prisão. O texto foi divulgado na noite desta quinta-feira (25) pelos advogados Ana Flávia de Almeida Foguel e Vitor Aurélio.
Câmera é considerada peça central da investigação. GoPro estava acoplada ao braço de Maria Eduarda Rodrigues de Freitas e pode ajudar a reconstruir a dinâmica do acidente ocorrido em 13 de junho, na Ponte do Esqueleto.
João acusa Kauê Felipe Silva Silveira e Luís Gustavo de Oliveira de terem levado a câmera. Segundo a carta, Kauê "desceu muito rápido" de rapel até Maria Eduarda após a queda, "não sabia fazer massagem cardíaca e ficou sozinho" com a vítima.
Já Luís Gustavo estaria embaixo da ponte e teria subido após os primeiros-socorros começarem. "A Evelyne pediu para ele subir para a parte de cima da ponte por rádio".
João alega que apenas checou sinais vitais de Maria Eduarda. Ele afirma que estava na base da ponte soltando a corda de outro cliente quando ouviu o barulho da queda, correu até a vítima e verificou batimento cardíaco.
Preso pede ajuda pública para localizar o equipamento. "Por favor, ajudem a achar essa câmera. Sou apenas um ser humano comum que tenta fazer uma renda a mais para pagar as contas e educar os filhos. Estava prestando um serviço sem saber que a empresa era clandestina".
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LEIA A CARTA NA ÍNTEGRA
Declaração à imprensa
"Eu, João Antônio Pivetta venho através dessa carta prestar a minha versão.
Eu estava prestando um serviço (bico) para a "Entre Cordas" sem saber que a empresa era clandestina.
Eu fiquei apenas na parte de baixo da ponte e eu em apenas soltava a corda para a pessoa subir a pé.
No momento do ocorrido eu estava soltando outro cliente quando ouvi o barulho e corri até a Maria Eduarda.
Eu coloquei a mão no pescoço e vi que tinha batimento cardíaco e respiração então eu chamei ajuda no rádio, "Pede para o Felipe descer aqui para fazer massagem cardíaca" pois ele é bombeiro.
Depois da segunda vez que eu pedi o rádio o Kaue desceu rápido no rapel e foi até a Maria Eduarda eu não vi o que ele fez pois a enfermeira estava chegando e eu sinalizei o local.
Muita gente desceu até o local nesse momento Kaue, Maikon, Gustavinho, Felipe dentre outros.
Para a enfermeira fazer massagem cardíaca. Eu abri o mosqueteiro que ficava sobre o peito da Maria Eduarda na frente da enfermeira.
Eu venho pedir a ajuda da mídia para investigar as imagens e descobrir onde está essa câmera, pois essa câmera vai esclarecer o que houve após o salto.
Peço também a ajuda de quem estava na ponto no dia pois as gravações no dia podem ajudar a esclarecer os fatos.
Eu sou um pai comum que prestava serviço para complementar a renda para pagar as contas.
Muitas pessoas que estavam na ponte viram eu ajudando as viaturas e os resgates a chegarem no local, a desatolar a ambulância dos bombeiros. Peço a ajuda desses bombeiros para falar que eu fiquei no local ajudando as equipes de resgate.
E peço ajuda do policial que me liberou para ir embora no dia.
Eu presto meus sentimentos a família da Maria Eduarda. Eu sou apenas um trabalhador comum, apenas um pai pedindo a ajuda de vocês.
Nomes que eu acredito ter levado a câmera para cima da ponte Kaue, porque desceu muito rápido e não sabia fazer massagem cardíaca e ficou sozinho com a Maria Eduarda. Gustavinho porque ele estava embaixo e a Evelyne pediu para ele subir para a parte de cima da ponte por rádio.
Por favor ajudem a achar essa câmera. Por favor.
Como as reportagens disseram que mochilas foram levadas até os carros por outros membros do Entre Cordas pode ser que a câmera esteja dentro de alguma mochila dentro de algum cano, porém peço a ajuda de vocês.
Sou apenas um ser humano comum que trabalha e tenta fazer uma renda a mais para pagar as contas e educar os filhos."
O QUE DIZEM AS INVESTIGAÇÕES
MP aponta João como responsável por retirar a câmera da vítima. Em pedido de prisão feito à Justiça, o Ministério Público afirmou que João se aproximou de Maria e retirou a câmera do braço dela, "praticando conduta de supressão de elemento probatório central à investigação".
Testemunha viu alguém retirar o equipamento das mãos de Maria Eduarda. Segundo a delegada Andréa Levy, uma pessoa se aproximou da beirada da ponte e viu a jovem com a câmera na mão e depois viu um indivíduo retirando o aparelho.
Investigação não diz se testemunha atribuiu João à retirada da câmera. Ainda assim, o depoimento e a existência da testemunha fundamentaram a prisão dele.
Primeiro inquérito ouviu 22 pessoas e já foi encaminhado à Justiça. A investigação resultou no indiciamento dos três instrutores que lançaram Maria Eduarda da ponte por homicídio doloso qualificado, segundo a Polícia Civil.
A prisão dos três foi convertida em preventiva. Eles foram transferidos do CDP de Piracicaba para o CDP II de Guarulhos, e recentemente a Justiça negou pedido de habeas corpus.
Investigação também mira outras cinco pessoas. Entre elas estão João, Evelyne dos Santos Gonçalves e Gabriel Barros Martins, cuja prisão temporária foi cumprida no dia 20.
Evelyne é apontada como organizadora do grupo Entre Cordas. O MP afirma que ela destruiu prova digital ao excluir a conta de Instagram do grupo após a morte.
Em depoimento, ela disse que sua função era editar vídeos e publicá-los nas redes sociais. "Eu não faço parte de nada do operacional", afirmou à delegada.
Gabriel também fazia parte da equipe. Ele foi preso por fugir do local sem prestar esclarecimentos às autoridades.
"A Polícia Civil do Estado de São Paulo, por meio da Delegacia Seccional de Limeira, instaurou dois inquéritos policiais para apurar a morte, no dia 13 de junho. O primeiro procedimento foi aberto para apurar a participação no crime de três pessoas presas em flagrante. 22 pessoas foram ouvidas durante as investigações. Esse procedimento resultou no indiciamento e conversão da prisão dos três homens em prisão preventiva, por homicídio doloso qualificado. O inquérito foi relatado e encaminhado à Justiça. A partir dele foi aberto um novo inquérito, para apurar a participação de outras cinco pessoas no fato. Três delas - uma mulher e dois homens - tiveram a prisão temporária decretada e cumprida, no dia 20. As diligências prosseguem com o objetivo de esclarecer integralmente os fatos e identificar demais envolvidos", diz nota da Polícia Civil enviada ao UOL.
RELEMBRE A TRAGÉDIA
Maria Eduarda, de 21 anos, foi lançada de aproximadamente 40 metros de altura. A queda ocorreu na Ponte do Esqueleto, entre Limeira e Cordeirópolis (SP), durante a prática de rope jump.
No vídeo, três pessoas erguem a vítima e a jogam da ponte. Segundo o boletim de ocorrência, a gravação mostrada por uma testemunha aos policiais flagrou que não havia qualquer equipamento de segurança.
Instrutores não souberam explicar o que motivou o erro. Em depoimentos obtidos pelo UOL, Luís Felipe e Maicon admitiram que eram os responsáveis por colocar as cordas antes dos saltos, mas disseram não se recordar de quem deveria checar o equipamento no salto da jovem.
Grupo cobrava R$ 180 por salto. Se incluísse filmagem, o valor subia para R$ 290. No dia da morte, cerca de 100 pessoas deveriam saltar com a mesma empresa.
Família disse que o crime é "inaceitável". Em nota publicada no jornal Gazeta de Limeira e compartilhada pela mãe da vítima, Val Rodrigues, os familiares disseram que o caso provoca "profunda angústia e indignação".
O UOL não localizou as defesas. Reportagem procurou representantes de Kauê Felipe Silva Silveira, Luís Gustavo de Oliveira e Evelyne dos Santos Gonçalves, citados na carta de João Antônio, mas não obteve retorno até a publicação. Espaço segue aberto para manifestações.