SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Onde a verdadeira história reside. A frase estampada em cartazes deu o tom da reabertura da Capela dos Aflitos, na Liberdade, centro de São Paulo, neste sábado (27). Após dois anos de restauração, a igreja voltou a receber fiéis.

A missa inculturada foi marcada pela presença de baianas, congadeiros, bandeiras de São Benedito e Nossa Senhora Aparecida. Os cânticos resgataram a ancestralidade negra e indígena de um dos lugares mais simbólicos de São Paulo.

Em frente à capela, mesas foram preparadas com o evangeliário, o lecionário e os objetos litúrgicos que seriam usados. As leituras escolhidas dialogavam diretamente com a história do local.

Em um dos trechos, o Livro das Lamentações lembrava o sofrimento de um povo marcado pela dor e pela perda. O salmo respondia: "Não esqueçais até o fim a humilhação dos vossos pobres".

O ministério de música deu início aos cânticos da liturgia afro, acompanhados por instrumentos de percussão que passaram a marcar o ritmo da celebração.

A procissão de entrada foi aberta pelos estandartes e pelos andores de Nossa Senhora dos Aflitos, padroeira da capela, de Nossa Senhora Aparecida e de São Benedito. Em seguida, entrou a imagem de Francisco José das Chagas, o Chaguinhas, considerado pela devoção popular o santo dos excluídos.

Em seguida, vieram os padres, ministros e integrantes da Pastoral Afro. As baianas de escolas de samba acompanharam o cortejo, seguidas pelos integrantes da Congada de São Benedito, que cruzaram o pequeno corredor formado pelos fiéis até alcançar o altar.

Os padres percorreram o interior do templo para realizar a bênção da capela. O gesto marcou simbolicamente a devolução daquele espaço aos fiéis.

Construída em 1779, a capela é um dos templos mais antigos da cidade. Foi erguida no centro do antigo Cemitério dos Aflitos, destinado ao sepultamento de pessoas escravizadas, indígenas, pobres e condenadas à morte que não podiam ser enterradas nos cemitérios das igrejas da capital.

Cercada hoje por edifícios, a pequena capela permaneceu como o único vestígio visível desse território.

Preservação

O restauro recuperou a estrutura comprometida pelo tempo e por obras realizadas em imóveis vizinhos. As rachaduras foram estabilizadas e o telhado passou por intervenções.

"Hoje ela está arquitetonicamente restaurada e entregue novamente à sociedade civil", afirmou Lucas Almeida, 24, presidente da Unamca (União dos Amigos da Capela dos Aflitos), que há anos atua na preservação do espaço.

A ligação dele com a capela começou ainda na infância. Todas as segundas-feiras, era levado pela avó, hoje com 88 anos, para acender velas no local.

"Quando criança eu não entendia por que ela vinha sempre aqui. Ela chamava este lugar de Capela das Almas. Só muitos anos depois, estudando museologia, compreendi a relação que ela tinha com esse espaço", contou.

Segundo ele, a reabertura marca uma nova etapa do trabalho de preservação do patrimônio. "A partir da segunda semana de julho, retomaremos as missas, as visitas guiadas, as ações de educação patrimonial e todas as atividades desenvolvidas pela Unamca. A capela volta a cumprir seu papel religioso, mas também educativo."

A celebração deste sábado não encerra o trabalho. O altar-mor, os retábulos laterais e parte dos bens integrados da capela continuam em processo de restauro. Quando forem concluídos, voltarão ao templo imagens históricas como Nossa Senhora dos Aflitos, São Benedito, São Sebastião, Santo Antônio e outras peças que fazem parte da história do edifício.

Responsável pela capela, o padre José Enes afirma que a expectativa é ampliar as celebrações religiosas assim que todas as etapas forem concluídas.

"Nossa expectativa é que esse espaço volte a fortalecer a espiritualidade das pessoas e seja novamente um lugar de oração e acolhimento."

Para o secretário municipal de Cultura e Economia Criativa, Totó Parente, a entrega representa uma reparação histórica. "Isso aqui é quase um pedido de desculpas do Estado brasileiro, da cidade de São Paulo, ao povo preto e indígena que ocupou esse território e acabou perdendo o protagonismo."

Memória

A reabertura também representa um novo capítulo na preservação da memória do antigo Cemitério dos Aflitos.

Durante as escavações arqueológicas realizadas no terreno ao lado do templo, onde será implantado o Memorial dos Aflitos, foram encontradas ossadas de homens e mulheres negros e indígenas.

Algumas delas estavam sepultadas com elementos ligados tanto ao catolicismo quanto às religiões de matriz africana, indicando que os ritos funerários dessas pessoas foram preservados.

Para Luizão Cruz, educador social, diretor financeiro da Unamca e um dos responsáveis pelo futuro Museu do Território da Liberdade, um dos principais desafios ainda é corrigir a forma como a história do local foi contada ao longo dos anos.

"Muita gente fala que aqui era um cemitério de pobres, vagabundos e pessoas enforcadas. Isso não é verdade. Aqui também estavam enterradas pessoas importantes da comunidade negra da cidade de São Paulo dos séculos 18 e 19. As escavações encontraram pessoas sepultadas com toda a sua ritualística. Isso muda completamente a maneira de olhar para esse lugar."

Procissão

Ao lado do templo, integrantes da Congada de São Benedito, uma manifestação cultural e religiosa afro-brasileira que une música, dança, teatro e devoção, aguardavam o início da procissão. Entre eles estava Sandra Virgínia, que integra há décadas o grupo de Cotia, tradição iniciada por sua família ainda na primeira metade do século passado.

"Nós já estamos na quinta geração. Meu pai dançava, meus avós também. Hoje estão meus filhos, netos e bisnetos. É uma manifestação de fé, mas também de preservação da nossa cultura."

Entre os participantes também estava a liderança indígena Roseli Pataxó Hãhãhãe. Para ela, a restauração representa uma conquista importante, mas ainda incompleta.

"Quem acompanhou essa luta sabe como esse lugar estava. Hoje ele está bonito, mas ainda falta o memorial. Ainda falta preservar todo esse território onde estavam nossos ancestrais. Nossa história foi apagada e atropelada durante muito tempo."

Após a comunhão, a entrada da capela foi lavada em um gesto simbólico de purificação e reverência ao templo restaurado.

Em seguida, os participantes deixaram o pequeno beco e seguiram em cortejo pelas ladeiras da Liberdade em direção à Igreja São Gonçalo Garcia. Os tambores marcavam o ritmo dos cânticos afro.

O cortejo atravessou ruas conhecidas pelos restaurantes, barracas de comida japonesa, lojas orientais e estabelecimentos dedicados aos animes e à cultura pop asiática.

Os estandartes, andores, tambores e cantos lembraram que, muito antes de a Liberdade se tornar reconhecida como reduto da imigração japonesa, aquele território foi ocupado por negros e indígenas.